DISCOS
4Hero
Play With The Changes
· 09 Fev 2007 · 08:00 ·
4Hero
Play With The Changes
2007
Raw Canvas


Sítios oficiais:
- 4Hero
- Raw Canvas
4Hero
Play With The Changes
2007
Raw Canvas


Sítios oficiais:
- 4Hero
- Raw Canvas
Sem inventarem nada de novo, Marc Mac e Dego manifestam como poucos o talento que lhes corre nas veias. Uma vez mais, a neo-soul no seu melhor.
Não se tem obrigatoriamente de inventar algo novo a cada disco. Nem convém insistir nessa ideia quando o génio para aí não está voltado. Muitas vezes uma paragem forçada e algum tempo de silêncio é solução ideal para que a imaginação retome a sua actividade plena e a inspiração surja com espontaneidade. Foi o que se passou com os 4Hero que desde Creating Patterns de 2001 assumiram uma postura discreta enquanto colectivo optando em alternativa por um trabalho individual sério e comprometido com propósitos pessoais, muitas vezes pouco visíveis, mas mesmo assim relevantes como foi o caso do excelente projecto Visioneers de Marc Mac em 2006.

É inegável que a alma tem diversas formas e diversos estados. Mas se há quem ainda duvide, Dennis ‘Dego’ McFarlane e Mark Mac Clair têm a certeza ao ponto de se terem dedicado à causa soul a tempo inteiro – juntos ou individualmente – e decidido espalhar pelo mundo uma visão muito particular do que a verdade interior deve ser quando transposta para a música. Não se estranhe por isso a sua persistência na ideia já antes explorada. Não que não haja mais nada a acrescentar a sua identidade estética mas quando por vezes não se avizinha nada que rompa substancialmente com a matriz elaborada, então a solução é continuar a desbravar os velhos mistérios.

Quando um projecto com uma identidade tão própria como os 4Hero decide elaborar mais um episódio, a obra não deverá ser encarada como mais uma prova ao mundo de superioridade formal do projecto. Muito menos deve-se por em causa um talento que, desde Two Pages, já confirmou que arte e engenho na produção são aliados perfeitos na transposição de velhas memórias da matriz afro-americana para o presente. A diferença entre este disco e os anteriores é que este conforta-nos o espírito com pequenas mutações em vez da tentativa de invenção de um novo paradigma. Na verdade acaba por acrescentar o que talvez tenha faltado em Creating Patterns. Não que este estivesse incompleto mas o espaço deixado em aberto estava ainda longe de preenchido e talvez distante do inicialmente previsto – talvez por isso tenha passado despercebido a muitos. Play With The Changes revela agora uns 4Hero não com falta de inspiração mas sim com um sentido de dever definido, íntegros, pouco susceptíveis a estímulos da moda e possuidores de uma maturidade sonora pouco usual.

Longe do frenesim drum n’ bass de Parallel Universe (1994), a linguagem refinada dos 4Hero integra hoje uma série tipologias e referências que vão desde um broken-beat eloquente – do qual, como no caso do drum n’ bass, foram pioneiros – à soul clássica de Philly, do spoken word – onde a já habitual Ursula Rucker volta a brilhar – ao espírito libertino do jazz e da programação breakbeat modernista às memorias ancestrais do r&b. Play With Changes volta a ser um caldeirão onde todos os majestosos ingredientes – e já agora dos convidados como Jody Watley, Face ou J Davey – têm o seu valor intrínseco na construção de alguma da melhor neo-soul dos nossos dias, provando-se assim que nem sempre é necessário ser-se precursor a cada novo disco. Desde que a alma esteja alinhada com a inspiração e a agudeza criativa centrada na memória a inventividade também pode ocasionalmente marcar passo sem que algum mal venha ao mundo.
Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com

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