DISCOS
Devendra Banhart
Rejoicing in the Hands / Niño Rojo
· 03 Nov 2004 · 08:00 ·
Devendra Banhart
Rejoicing in the Hands / Niño Rojo
2004
Young God Records


Sítios oficiais:
- Young God Records
Devendra Banhart
Rejoicing in the Hands / Niño Rojo
2004
Young God Records


Sítios oficiais:
- Young God Records
O pior que pode acontecer a alguém que tem nas insónias a sua cruz é não ser respeitado nos intervalos de vampirismo. Olhos ainda esbugalhados, uma caneca de café na mão esquerda, os dedos magros da outra a pender sobre o teclado... Só para encontrar mais uma crítica sem tomada de posição, sem qualquer valor acrescentado, perpassada pela odiosa muleta do name-dropping. Este subgénero da crítica, revelador de um enciclopedismo dos tempos medievos, lembra os monges copistas de outrora. A diferença é que agora esta gente se faz acompanhar de um complexo vitamínico de bandas, como um tónico para desafiar as suas vidas perdidas entre copos.

Estes críticos parecem viver com um satélite enfiado na cabeça, o boletim de notícias da Pitchfork ligado ao cérebro, a activar as glândulas salivares quando é actualizado – tal como os rafeiros de Pavlov. Antes tínhamos, de um lado, o Miguel Esteves Cardoso, que tem a mania ou que tem a mania que tem a mania; do outro, o Cameraman Metálico, a atravessar problemas financeiros e a promover concertos de solidariedade, para continuar a fotografar e a escrever com muitos pontos de exclamação sobre bandas de metal. Para além destes, o que resta? Miúdos de olhos a brilhar tanto que estão a apenas um degrau de se tornarem como os mais académicos e graduados professores de faculdade, que têm necessariamente de citar Barbara Krueger depois de falarem de Donna Haraway. Ou seja: nada de novo neste tipo de discurso bolorento.

A mesma poça de mijo pode ser encontrada quando se tenta alinhar Devendra Banhart no contexto de um movimento, supostamente emergente – é sempre bom apanhar o touro pelos cornos quando a procissão vai ainda no adro –, um tal de recontro do conceito de "old weird America" de Greil Marcus com uma nova folk. A Banhart junta-se sempre Joanna Newson, Xiu Xiu e P.G. Six, como reagentes perfeitamente solúveis. E se uns fazem mais sentido do que outros, é sempre bom não esquecer os comprimidos debaixo da almofada, e reconhecer que um movimento é uma coisa difusa, não declinável instantaneamente. Que são precisos alguns anos para perceber quem fica por cima e quem fica no fundo como resíduos num tubo de ensaio depois da centrifugação.

Mas o actual estado das coisas exige de nós uma definição rápida, a quente, do que somos e para onde queremos ir. Assim, ou somos militantes do Bloco e recebemos uma bolsa de estudo para aprofundar a investigação na Física de partículas num país da ex-URSS, ou somos de uma direita assumida (e vergonhosa) e estamos condenados a consolar-nos à mão para o resto da vida, ou a ler as postas do Pacheco no Abrupto. Isto leva a uma mais do que esperada guetização de termos, conceitos e circunstâncias. E a música, apesar de ser sempre uma boa câmara de eco do status quo, precisa de mais tempo. Precisa que voltemos os olhos para as raízes, num back to basics para o que realmente interessa – a música, meus caros, muito mais do que o movimento em si. É esse o apelo que podemos discorrer dos dois discos de Devendra Banhart neste ano de 2004.

É que até mesmo Banhart deixou a sua música de molho durante algum tempo. Como um bom vinho em maturação. Só assim se explica o salto qualitativo entre Oh Me Oh My..., a sua cassete roufenha tornada disco, e Rejoicing in the Hands, um belíssimo testemunho a desfiar preciosas canções de inspiração timidamente pop. Daquela de baixo orçamento que resulta em composições maiores do que a vida. Quando passamos de "This Is the Way" para "A Sight to Behold", os lábios ainda não voltaram a unir-se de espanto. É tudo tão bonito que quase leva às lágrimas. No início do ano passado, Will Oldham, sob o seu pseudónimo Bonnie 'Prince' Billy, editava Master and Everyone e o êxtase surdo era semelhante. Mas, ao contrário de Oldham, que começava o disco com um singelo lamento – curiosamente intitulado "The Way" –, Banhart capitaliza num registo menos afectado, com pequenas faíscas de esperança.

A sua guitarra, dedilhada com uma afeição comovente, não esconde a amplitude da sua voz. Alternando entre uma colocação suave e uma tonalidade um pouco mais do que frágil, o registo não tenta tapar o sol com a peneira. Não há aparato instrumental empregue até à náusea para esconder as insuficiências de voz. Devendra Banhart tem uma voz bonita e não pretende escondê-la – confiram as rotações em "Poughkeepsie". Com pouco mais de um minuto cada uma, "Dogs They Make Up the Dark" e "Tit Smoking in the Temple of Artisan Mimicry" são números de uma naturalidade invulgar. Nascido no Texas, mas a viver o tempo suficiente na Venezuela para apanhar a musicalidade do castelhano, Banhart desafina e encanta em "Todo los Dolores".

À faixa derradeira, "Autumn's Child", podia colar-se, logo de seguida, "Wake Up, Little Sparrow" de Niño Rojo que não vinha mal nenhum ao mundo, apenas com prejuízo na duração. Mas as coisas bonitas são para durar. O que se passou foi que o músico gravou mais do que a conta e a editora viu-se então obrigada a lançar dois discos, um a seguir ao outro, no mesmo ano. É claro que estas coisas ajudam ao hype e não é de espantar, portanto, que Banhart seja dado e achado, por estes dias, como o homem do leme da nova vaga da folk. Mas não sobra muito para dizer sobre este Niño Rojo. Resta talvez salientar uma ou duas faixas: “Ay Mama”, coberta de tintas mariachi, e a dolente “Noah”, ambas ampliadas na sua grandeza pelo uso do piano e uma visão cada vez mais vítrea de uma realidade que não magoa, antes seduz. Não é evolução nem revolução, não é o 25 de Abril de Devendra Banhart, é apenas um segundo capítulo. E o próximo que se limitar a falar do menino-prodígio como parte da nova vaga folk, e citar pelo caminho dois ou três nomes da constelação, merece mesmo ser sovado.
Hélder Gomes
hefgomes@gmail.com
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