DISCOS
Filipe Sambado
Revezo
· 14 Fev 2020 · 13:33 ·
Filipe Sambado
Revezo
2020
Valentim de Carvalho


Sítios oficiais:
- Filipe Sambado
- Valentim de Carvalho
Filipe Sambado
Revezo
2020
Valentim de Carvalho


Sítios oficiais:
- Filipe Sambado
- Valentim de Carvalho
E se Zeca Afonso fosse gay?
Eu não estava lá, contaram-me. Assim que Filipe Sambado, vestindo uma saia, pisa o palco do Teatro Diogo Bernardes, em Ponte de Lima, enquanto convidado especial de Miguel Ângelo, de pronto um dos homens presentes na audiência exclama: "Valha-me Deus". 
 
Expressão popular, mais de estupefacção, indignação ou vergonha alheia do que propriamente de desejo de salvação. Para aquele homem, o facto de Filipe Sambado usar uma saia era contra-natura; um sinal evidente de que as coisas já não são como ele pessoalmente achava que eram. No mundo em que ele cresceu, a saia é um objecto de mulher. Um homem não pode vestir aquilo, independentemente da sua vontade. É proibido sem que se proíba por lei. É uma proibição moral, uma inibição nascida do bom senso.
 
Esta é uma história comum. Não precisava de ter ocorrido em Ponte de Lima, ou sequer com Filipe Sambado. Não está consignada a regiões onde a fé católica resiste com mais força, nem é desconhecida em centros mais liberais, multiculturais. E é uma história compreensível. Não tolerável: essa é uma outra palavra. Compreensível, apenas.
 
Porque o facto é: independentemente dos avanços do mundo globalizado, para a vasta maioria da população um homem de saia ainda causa estranheza. Ao longo de praticamente toda a sua vida, a essa mesma população foi-lhe ensinado que géneros, apenas dois: homem e mulher, cada qual com o seu vestuário, os seus empregos, os seus papéis, os seus vícios próprios. Foi-lhe ensinado que "família", ou "casa", é um corpo fixo, constituído por um pai, uma mãe, um filho ou mais uns quantos, e quem sabe uns cachorrinhos e um baloiço no quintal.
 
É a esses que Filipe Sambado mais causa confusão (a confusão admite-se; o ódio não). É, também, a esses que mais parece destinado este Revezo, disco que o próprio músico explica versar sobre «a ideia de casa e de lar e de família», recorrendo para isso a uma abordagem mais tradicional: Fausto, Zeca, heróis nascidos do e perdidos para o romantismo das revoluções.
 
Se há algo que Revezo parece querer fazer é isto: mostrar a quem raramente vê homens de saia que eles existem, que também podem fazer parte de e constituir famílias, que a "tradição" é um conceito mutável. E, o que é talvez mais importante: não o faz de forma tão subversiva ou revolucionária quanto se poderia pensar. Fá-lo de forma altamente normalizada: não a querer conquistar qualquer espaço, mas a mostrar que já fazia, e faz, parte desse mesmo espaço.
 
Ora, isto é uma vitória - todos gostamos de uma boa revolução, mas gostamos ainda mais de uma vitória. Porque o que terá forçosamente de acontecer do lado de quem nunca viu famílias de saia é, não a rejeição, mas a aceitação. Uma guerra não se justifica se for inútil. É o ponto final em we're here, we're queer, get used to it.
 
Se seria possível ouvir Revezo sem ter em conta a figura de Sambado e a forma como se veste? Talvez - mas perder-se-ia a mensagem principal. Este não é um disco com canções: é um statement, consciente ou não, do próprio Sambado. Broncos dirão que só lhe prestaremos atenção por se vestir de saia. São os mesmos que provavelmente dizem que só se presta atenção a Zeca Afonso por ter sido de esquerda, ignorando a universalidade das suas letras. Imaginem se Zeca fosse gay.
 
(Mas, se formos a falar de canções: a "Gerbera Amarela Do Sul" é bem fixe. Espero que ganhe a Eurovisão.)
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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