DISCOS
Filho da Mãe
Cabeça
· 24 Jan 2014 · 22:44 ·
Filho da Mãe
Cabeça
2013
FNAC / Lovers & Lollypops


Sítios oficiais:
- Filho da Mãe
- FNAC
Filho da Mãe
Cabeça
2013
FNAC / Lovers & Lollypops


Sítios oficiais:
- Filho da Mãe
- FNAC
1 contra 9.
Pode um homem, por mais que seja a forca com que ataca as cordas da guitarra, soar a um colectivo de 9 indivíduos. Para mais quando esse colectivo é conhecido por criar tempestades musicais que nos levam a querer gritar de êxtase? A resposta é: claro que não. Mas se é verdade que Rui “Filho da Mãe” Carvalho não alcança o pináculo do som dos Godspeed You! Black Emperor, também é verdade que muito do que ouvimos em Cabeça traz a memória as estruturas e atitude do noneto canadiano. Músicas como “Não te Mexas” começam plácidas, ganham agressividade e ímpeto, até temermos pela integridade, ou da mão de Rui Carvalho, ou das cordas da guitarra. E a seguir voltam a um ponto parecido ao inicial. A quase surdina. Até que recupera energia, e começa a crescer outra vez. Lembra-vos alguém? Pois é.

Filho da Mãe é um compositor que não depende apenas do som que as cordas da guitarra fazem quando são tocadas. Há outros sons de índole percussiva, quer no corpo da guitarra, quer nas próprias cordas. Sons ambientais ou pré-gravados nalgumas músicas. E sobretudo respiração em pelo menos três delas. Mas é na guitarra que se concentra a parte substancial destas músicas. “Caminho de Pregos”, com os seus contrastes entre voragem e acalmia, é onde percebemos que a comparação aos Godspeed faz mesmo sentido. “Um Bipolar” começa arraçada de flamenco, joga a macaca com sons que atiram pedras, vão buscá-las e voltam atrás, e com outros que surgem de mais lados do que apenas as cordas. “Mali Provisório”, até pelo nome, torna inevitável procurar África dentro de si, e apresenta realmente maiores rendilhados. “Improviso de Naperon” aumenta velocidade e volume gradualmente, e introduz um segundo som que não é um violino, nem um violoncelo. Mas as sensações, o tipo de acordes, alguma sensação de melancolia, paisagismo. Reconhecemo-las como parentes das que saem de quem já mencionei.

Cabeça, basicamente, não é folk, country, American Primitive, nem nenhum dos habituais significandos destes discos de um homem solitário (excepto na última música, com Cláudia Guerreiro dos Linda Martini, e Guilherme Gonçalves de Coclea e Gala Drop) a tirar sons da sua guitarra. Mesmo que alguns momentos sejam de notas espaçadas, ou de melodias mais lentas, cedo chegamos a um ponto em que, se não fazemos headbanging, pelo menos podemos erguer o punho aos céus e apreciar o efeito de um bom crescendo.. Já houve concertos com uma orquestra a reproduzir Metal Machine Music, de Lou Reed. Quando Filho da Mãe tocar perto de vós, torçam para que lhe seja dada a amplificação que merece.
Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com

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