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Pixies
Super Bock Super Rock, Lisboa
11/06/2004


Os Pixies voltaram a juntar-se. Muita gente n√£o consegue encontrar as raz√Ķes para tal coisa. As raz√Ķes art√≠sticas, pelo menos. "No shit, sherlock!", elas n√£o existem. √Č √≥bvio que √© pelo dinheiro. N√£o adicionam nada ao panorama da m√ļsica. Nada, absolutamente nada. O problema, para essa gente, √© o facto de os Pixies serem uma banda de culto, uma banda de culto que enche um recinto com 50 mil pessoas a cantar em un√≠ssono. E o facto de a maior parte das pessoas ter menos de 21 anos - n√£o ter idade para ver os Pixies quando primeiro andaram por c√°.

© Luís Bento

Por raz√Ķes √≥bvias (tinha quatro anos na altura), √©-me imposs√≠vel comparar o que se passou ontem no 10¬ļ Festival Super Bock Super Rock (um festival com uma organiza√ß√£o extremamente deficiente, muito mal planeado) com o que se passou h√° treze anos nos Coliseus. Posso, ainda assim, comparar com o que se passou na Aula Magna em 2001, aquando do concerto a solo de Frank Black. N√£o teve absolutamente nada a ver. Se em 2001 um ogre disforme passeava pela sua carreira a solo, bem como por temas da sua banda, em 2004 um ogre disforme passeava por temas da sua banda, acompanhado pela sua banda. E isso marca a diferen√ßa.
Nestes treze anos que se passaram, milhares de pessoas tiveram tempo de conhecer de tr√°s para a frente toda a discografia dos Pixies. Tempo para se flagelar por n√£o ter havido hip√≥tese de v√™-los enquanto estavam no activo, ou para lamentar o facto de nunca poderem ver os Pixies, em carne e osso, juntos em palco. Era inconceb√≠vel h√° tr√™s anos que os Pixies se voltassem a juntar, mas quando os rumores come√ßaram a surgir, h√° mais ou menos um ano, uma r√©stia de esperan√ßa acendeu-se nos cora√ß√Ķes de todos aqueles que literalmente cresceram, musicalmente falando, a ouvi-los. A confirma√ß√£o da vinda a Portugal, ent√£o, p√īs um sorriso na cara de todos aqueles que esperaram a vida inteira por este momento. Um momento que, infelizmente, j√° se foi. E isto de um sorriso ser causado por uma banda com letras t√£o surreais, de sangue, extraterrestres, viola√ß√Ķes, incesto, entre muitas outras hist√≥rias tr√°gicas de propor√ß√Ķes b√≠blicas, tem que se lhe diga.

Frank Black ainda não passou a barreira dos quarenta, mas a idade não interessa para quem, com pouco mais de vinte anos, regou as sementes daquilo que viria a ser o rock dos anos 90. O que não quer dizer que seja de menosprezar o trabalho dos outros membros do grupo. Kim Deal, a baixista/vocalista, e Dave Lovering, o baterista quase sempre relegado para segundo plano, sempre estiveram lá para ajudá-lo, nunca, nem por uma vez, tendo deixado o ogre disforme sozinho. Joey Santiago, o mago da guitarra, não sendo um guitarrista incrivelmente dotado, sempre tirou do seu instrumento os sons mais bizarros, dando vida às letras gritadas pelo companheiro.
Os Nirvana e os Radiohead p√Ķem os Pixies no topo das suas inspira√ß√Ķes. Jonny Greenwood, dos Radiohead, diz que a sua banda j√° n√£o usa tantas guitarras porque fazer da imita√ß√£o dos Pixies carreira por mais que dois ou tr√™s √°lbuns acaba por tornar-se muito dif√≠cil. Tudo isto j√° foi dito at√© √† exaust√£o. Mas talvez por ser verdade.

Tudo isto nos leva at√© ao anoitecer de dia 11 de Junho de 2004. O recinto est√° cheio, as pessoas, mesmo antes do final do concerto dos conimbricenses Wray Gunn, v√£o enchendo o espa√ßo em frente ao palco principal montado no Parque Tejo. Ningu√©m quer perder o lugar para ver os quatro grandes. Os minutos v√£o sendo contados, os cora√ß√Ķes batem mais depressa, a hora aproxima-se. E eis que, √† hora marcada, ou mesmo um bocado antes (mas algu√©m est√° a marcar tudo?), eles entram em palco. O ogre disforme mais careca que sempre, o guitarrista porto-riquenho com uns √≥culos muito modernos, a deusa do baixo, um pouco mais rechonchuda do que h√° dois anos no Paradise Garage com os Breeders - banda que mant√©m com Kelley Deal, a sua irm√£ g√©mea -, e o baterista que se tornou ilusionista, est√£o √† nossa frente. Finalmente. √Č este o momento pelo qual toda a gente esperou, anos e anos a fio.

"Bone Machine", de Surfer Rosa, come√ßou o concerto. N√£o se passaram treze anos; mesmo os trint√Ķes voltaram a ser adolescentes, a usar Converse All Star. Os Pixies continuam ali, est√£o vivos, toda a gente est√° viva. A maior parte do p√ļblico conhece o repert√≥rio de tr√°s para a frente, n√£o h√° um √ļnico momento em que n√£o se cante (grite?) em un√≠ssono com Frank Black, facto que agrada visivelmente a Kim Deal, que vai sorrindo e sorrindo. Ao bom estilo de bandas punk como os Ramones, os Pixies n√£o param nem por um segundo. Eles est√£o tocar tudo aquilo que toda a gente conhecia em disco, na perfei√ß√£o. H√° alguns arranjos novos, mas as can√ß√Ķes continuam l√°. O Frank Black continua l√°. A Kim Deal continua l√°. O Joey Santiago continua l√°. O Dave Lovering continua l√°. Est√£o todos l√°.
A guitarra de Joey vai trazendo umas coisas novas aqui e ali. "Crackity Jones" e "River Euphrates" incitam √† loucura. "Monkey Gone to Heaven", o ogre diz coisas como "Now there's a hole in the sky", olhamos para o c√©u, nem queremos acreditar que estamos ali. √Č quase noite, mas ainda √© dia, estaremos a sonhar? Ser√° poss√≠vel estarmos na presen√ßa deles? "This monkey's gone to Heaven". Estaremos no C√©u? Ser√° isto o C√©u? "All these monkeys are in Heaven". S√≥ pode ser isso. "Caribou" e "Cactus" fazem momentos de extrema beleza, em que todos cantam, felizes, sentindo as palavras mesmo que n√£o as compreendam. "Broken Face" e "Something against You", vir√° um mosh-pit? Ser√° que me v√£o partir os √≥culos? "Isla de Encanta", olha, ele tamb√©m canta em espanhol. Ser√° que percebe portugu√™s? De repente, o baixo come√ßa. Todos conhecemos as notas. O ogre grita "Hey!". N√≥s gritamos com ele. "We're chained". Sim, estamos. Todos os que est√£o no Parque Tejo est√£o acorrentados uns aos outros. √Č a parte instrumental, Joey Santiago esmera-se. Ouvimos isto tantas e tantas vezes, conhecemos todas as varia√ß√Ķes, tudo o que ele toca. Preparamo-nos para os gritos de Charles Thompson, o terceiro. "Huh!" Todos. "Said the man to lady!" Continuamos com os gritos. Todos n√≥s. "And Mary ain't you tired of this Huh?" N√£o, n√£o estamos cansados. Ningu√©m est√° cansado. Continuamos a gritar contigo. Este "Hey", de Doolittle, √© o primeiro ponto verdadeiramente alto desta noite. Como se fosse poss√≠vel escolher apenas um ponto alto...mas √©.

Vamos continuando. "U-Mass", "it's educational", n√£o h√° experi√™ncia mais educacional que ver os Pixies. O baixo come√ßa. Paramos todos. Ser√° que pode ser verdade? Kim Deal canta: "And this I know...", oh, como sabemos bem essas palavras, Kim. "Gigantic, gigantic, a big, big love". Nunca uma can√ß√£o sobre o tamanho dos √≥rg√£os reprodutores dos africanos serviu t√£o bem para ser cantada em un√≠ssono. "Velouria", can√ß√£o de Bossanova sobre extraterrestres. "And how does lemur skin reflect the sea?" N√£o sabemos, mas n√£o faz mal. "In Heaven (Lady In the Radiator Song)" tem um arranjo diferente. E √© Kim Deal que canta, n√£o Frank Black a gritar. Perdoa-nos, Frank, mas √© melhor assim. "In Heaven everything is fine". √Č a√≠ que estamos. E est√° tudo bem. De repente, o ogre pega na guitarra ac√ļstica. O que √© isto? N√£o pode ser... ser√°...? A can√ß√£o que marca o fim do mundo tal como o conhecemos em Fight Club, de David Fincher. "Where is my mind?", canta Frank Black. A s√©rio, onde est√£o as nossas mentes? N√£o sabemos, e a culpa √© tua, Frank. Os "huh-huh" de Kim Deal s√£o substitu√≠dos pelos do p√ļblico, √† semelhan√ßa do que tinha acontecido na Aula Magna em 2001.
Continuamos todos a cantar. A passear pelo repert√≥rio dos quatro grandes. Chegamos a "Here comes your Man". Dentro do recinto, n√£o h√° quem n√£o conhe√ßa este tema. Se em outros havia gente, dentro do p√ļblico, estupefacta com a reac√ß√£o quase man√≠aca, doentia e feliz dos entuasiastas dos Pixies aos temas, neste todos sabiam o que se estava a passar ali. Todos cantavam "There is a wait so long (so long, so long) / you never wait so long / Here comes your man". O riff de guitarra √© inconfund√≠vel. √Č quase criminoso falar-se em "can√ß√£o pop perfeita", mas se existe alguma, √© esta. Estamos a chegar ao fim da can√ß√£o, e aquele break, quando a bateria p√°ra para depois voltar a entrar, permite sempre, da minha parte, um gesto com a cabe√ßa que foi substitu√≠do por um salto neste dia. Voltamos ao espanhol: "Vamos". "Vamos a jugar por la playa". Vamos, vamos, vamos da√≠. A parte do meio possibilita um improviso da parte de Joey Santiago, que acaba por deixar a guitarra abandonada para ir brincar com os pedais. Dave Lovering continua a bater na bateria, atira-lhe uma baqueta, Joey brinca com a baqueta e com a sua guitarra. Vamos, vamos. Joey manda a baqueta a Dave, que nestes treze anos se tornou ilusionista, apanha-a com mestria e continua a tocar, nunca parando. √Č de salientar todas as brincadeiras que Dave faz com as baquetas, sempre na perfei√ß√£o, dominando completamente tudo.

Frank Black diz "obrigado" num portugu√™s rudimentar. √Č a √ļnica coisa que se deve dizer, n√£o h√° necessidade de andar c√° com coisas, dizer que este √© o melhor p√ļblico de sempre. Nunca ser√°, √© sempre mentira, se se disser isto est√°-se a ser extremamente hip√≥crita. Preparam-se para sair, o p√ļblico pede, o p√ļblico clama, o p√ļblico suplica por mais. O ogre diz umas coisas ao ouvido de Joey. O p√ļblico grita coisas como "Debaser, Debaser!" ou "Gouge away, gouge away!" Ningu√©m sabe se foi por isso, mas come√ßa "Gouge Away". "Stay all day / if you want to". Bem podiam ter ficado o dia inteiro, Pixies, ningu√©m se importava. Come√ßa "Debaser". √Č a excita√ß√£o total. Milhares de pessoas completamente passadas da cabe√ßa ao som disto. Nunca Luis Bu√Īuel foi t√£o universalmente aceite. Os gritos fortes de "Tame" fecham o concerto. J√° √© noite. Ainda h√° gente que grita por mais, mas n√£o h√° mais. Quanto tempo foi? Ningu√©m sabe ao certo, mas quando se vivem experi√™ncias transcendentais, isso nunca interessa. Uma hora e pouco. Ter√° sido?

No √ļltimo √°lbum de est√ļdio dos Pixies, Trompe Le Monde, existe um tema dos Jesus & Mary Chain, "Head On", em que a certa altura √© dito: "I could die and I wouldn't mind". Ap√≥s o concerto, todos nos sent√≠amos assim. Talvez tenha sido este o tema que falhou. Mas agora podemos dizer a toda a gente, contar as nossos netos: "Eu estive l√°." Se ao menos pud√©ssemos voltar l√°...


Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
11/06/2004