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Nitin Sawhney
Coliseu do Porto, Porto
16/04/2004


Descer a rua do Coliseu do Porto em dia de concerto é uma experiência comparável com poucas outras. O ritual assume contornos realmente especiais quando o cheiro das castanhas assadas se mistura com o ar húmido das noites da cidade. As pessoas acotovelam-se em filas que acabam na rua de Santa Catarina, os vendedores de bilhetes fazem ofertas chorudas, trauteiam-se melodias que se espera ouvir em breve e tenta-se esconder aquele nervoso miudinho típico de quem espera ter “a noite da sua vida”. A noite de ontem não foi o exemplo mais evidente desse ambiente, mas mesmo assim não faltou gente suficiente para fazer com que o Coliseu parecesse composto. O motivo da peregrinação era Nitin Sawhney, músico anglo-indiano, que se encontra em Portugal a promover o mais recente disco de originais, Human.

Já passavam alguns minutos das dez horas da noite quando alguém subiu ao palco para, em jeito de homenagem pública, anunciar Nitin Sawhney para o palco. Uma vez sentado junto do seu Roland, Nitin vai chamando alguns dos músicos que o acompanham ao vivo. E chama primeiro aquele que aparentemente é o autor de todos os “tequetetás” de Beyond Skin, a obra maior da carreira de Nitin Sawhney. O homem da veste - chamemos-lhe assim - começa o espectáculo a cantar num qualquer dialecto imperceptível, enquanto Nitin o acompanha nas teclas. Depois da pequena introdução, o concerto arranca com a mexida e divertida “Sunset”, que mesmo bastante desfasada da sua versão original, não deixou de provocar os primeiros movimentos de anca da noite. “Sunset”, assim como todas as canções, são apresentadas da forma mais natural possível, sem truques, com baixo, bateria, guitarra, teclas e as três vozes femininas que revezavam entre si na função de adicionar voz às melodias desérticas e marcadamente chill out que se faziam ouvir pela banda. Seguem as baladas “Falling Angel” (incluída em Human) e “Letting Go”. Nesta última, canção belíssima de “Beyond Skin”, Tina Grace, que vestia uma camisola preta justa onde se podia ler em letras brilhantes a palavra “Hot”, assumiu o papel da voz. Sensual, cantava quase em sopro “Not of anything out of anyone / All alone here with my demons / Am I ready to move on? / To a person or place / A long away from here / And I miss you / And I lose you / And I find you / I choose to follow my heart”. Na falta de isqueiros, um objecto promocional da Galp distribuído à entrada, que dava uma luz em tons de cor de laranja, servia para cumprir a praxe das “luzinhas baladeiras”. “Letting Go” foi o primeiro bom momento da noite.

“Here” fez entrar pela primeira vez alguém em palco para tomar conta das tablas que estavam no lado direito do palco do coliseu. Nitin Sawhney diz tratar-se de uma música bastante antiga e, qual maestro de batuta na mão, dá o mote para o início de uma sessão denodada de batidas que acabou por provocar aquilo que quase toda a gente estava à espera: dança. Dança de todas as maneiras e feitios. Por momentos esquece-se as posturas mais rígidas, os tiques nervosos, os problemas mais intrincados e, simplesmente, solta-se a franga. As tablas e a voz arábica transportam-nos para o palácio de um qualquer sultão, mais precisamente para a sala onde guarda as suas muito adoradas odaliscas ou para a sauna do ginásio mais próximo.

A maior vitória de Nitin Sawhney talvez seja a fusão de tão diversas e opostas culturas, a miscelânea de tradições que encerra e que tem em Beyond Skin, uma intrépida fusão da música electrónica com a música mundo, o seu maior representante. Mas Prophesy também foi passagem obrigatória, com o hino à dança e à abstracção que é “Breathing Light”. Na falta dos meios utilizados no álbum, o tema foi sendo feito com relativo sucesso com a ajuda de batidas cantadas, com o espantoso trabalho nas tablas e com a bateria. Alguém pediu “flamengo indiano”? Ao som dos primeiros acordes da próxima canção, já alguém gritava “olé”. E bem. Por momentos, pensou-se que os Gipsy Kings fossem entrar em palco. Todos eles.

O momento alto da noite surge depois com “The Conference”, cantada a três vozes. As tablas ajudam na construção de junções de cacofonias várias habilmente coordenadas entre os três músicos. Das tablas sai pó (de talco) da Arábia, e o cheiro refrescante de outros territórios musicais. Meia dúzia de “tequetetás” e um ou dois temas depois, Nitin Sawhney apresenta a banda e sai do palco sob forte ovação. O público bate com os pés no chão, esperando que Nitin e os seus colegas voltassem ao palco, e assim foi. As imagens projectadas no palco mostravam caras. Caras tristes ou alegres, mas caras. Pessoas que dançavam, mas acima de tudo pessoas. Apareceu também a bandeira americana, Bush e Blair, Nelson Mandela e outros símbolos usados por Nitin Sawhney para passar a mensagem política que desejava.

Nitin troca o Roland pela guitarra acústica e senta-se precisamente no centro do palco. As vozes femininas continuavam a trocar entre si, como que a puxarem a si mesmas o título de melhor voz da noite - logo no dia em que se celebrava o Dia Mundial da Voz. No segundo encore, e para surpresa de todos, “Homelands” é apresentada pela segunda vez. Mais uma vez, Tina Grace assume o poder da voz e diz-nos, perto do fim da canção, baixinho e em jeito de despedida: “Tudo o que quiser / Tem que entender / Nas palmas da mão / Se tiver porquê / Frágil nessa terra / Fácil derrubou / Quando jogou fora / Tudo acabou”. E tinha mesmo acabado.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net
16/04/2004