bodyspace.net


José Medeiros
Onda Jazz, Lisboa
22/11/2005


Conciliar a música tradicional mais profunda, aquela que vem mesmo da terra, com a capacidade de construir melodias populares de largo alcance, sem ceder a impulsos de facilitismo, é uma arte a que muito poucos têm acesso. Para além da meia dúzia dos entronizados cantores da revolução – Zeca Afonso, Fausto e José Mário Branco à cabeça – não há vozes a conseguir com sucesso esta fusão de portugalidades. Não é, por isso, evidente que um dos mais casos mais interessantes da actual música portuguesa seja um velho açoriano recentemente descoberto. José (ou Zeca) Medeiros tem uma longa carreira como realizador de televisão, tendo-se notabilizado pela direcção de séries como Xailes Negros ou Mau Tempo no Canal. Apesar de já se ter aventurado em vários trabalhos musicais, foi com o disco Cinefilias e Outras Incertezas (1999) que gerou um pequeno culta à volta da sua música. Em 2004 editou o disco Torna-Viagem, que reavivou o culto e ganhou novos adeptos, tendo conquistado inclusivamente o Prémio José Afonso – a apresentação do disco ao vivo nos Recreios da Amadora, na sequência deste premio, foi mais um passo importante para promover esta visibilidade. Numa desusada “tournée” pelo continente, o músico açoriano há poucos dias espalhou a sua música pela Guarda e agora chegou a Lisboa, para uma inesperada apresentação no bar Onda Jazz.

Um bar burguês de jazz não é propriamente o sítio onde esperamos ouvir a música de José Medeiros, mas o público que encheu o bar de Alfama já sabia o que ia encontrar. Ao vivo, aquela figura insólita de cabelos desgrenhados e barba selvagem, algures entre Saddam Hussein na prisão e um sem-abrigo, não desiludiu. A transposição de disco para ao vivo não perde nada. A voz gravíssima é ainda mais poderosa quando sente o público à sua frente. O concerto abriu com a música “Torna-Viagem”, terna canção de amor – um dos seus temas recorrentes, para além do teatro e dos Açores. A temática açoriana foi bem explorada, através da “Cantiga Açoriana” e do hino informal “Cantiga da Terra”. Particularmente, durante a música “Chamarrita Pandeireta”, canção plena de referências açorianas, é impossível evitar um arrepio na pele quando na conclusão do refrão se grita “foi um golo do Pauleta!”. O apelo da interpretação teatral foi irresistível e Medeiros, que se frequentemente se auto-apelida de “jogral”, é um mestre na sedução do público, através das oscilações do timbre vocal ou da variação de expressões faciais – faceta especialmente visível na declamação de poemas, como foi o caso de “Não Leves a Mal”. A noite foi preenchida de tragédia e a comédia, alternadas. À música de ornamentos populares (e aqui “popular” é um adjectivo categoricamente elogioso), junta-se uma poesia desvairada, por vezes desencantada, outras vezes esperançosa, por momentos desviando-se em surrealismos espontâneos.

Desde cedo se percebeu que a base onde a música assenta é simples: piano, acordeão, flauta. Acrescenta-se guitarra, baixo e percussão, mas são aqueles três instrumentos que definem a orientação da música toda. Os músicos que trabalham no acompanhamento cumpriram na perfeição papel que lhes estava destinado, nomeadamente o pianista, sempre atento. Na generosidade do anfitrião, os convidados tiveram também direito a holofotes: Filipa Pais, Mariana Abrunheiro, João Domingos e Zé Palmeiro mostraram os talentos individuais, tanto a solo como em duo com José Medeiros. Como última música oficial cantou-se “O Cantador”, homenagem óbvia a Zeca Afonso, com todos os convidados em palco a acompanhar o outro Zeca, o açoriano. Depois de duas horas e meia de espectáculo, a magia acabou no crescendo final “não te exaltes, não te exaltes, Isaltina!” (encore obrigatório), que ficou a ecoar pela noite fora.

Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
22/11/2005