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Festival Elétrico
Parque da Pasteleira, Porto
26-28/07/2019


Já o escrevi por diversas vezes e repito: é difícil escrever sobre um festival de música electrónica que conte apenas, no seu cardápio, com DJs e produtores em modo set e não live. Ou, pelo menos, escrever sobre ele de uma forma não bacoca. Que há para dizer sobre um DJ set? Enumera-se todas as faixas que foram seleccionadas ao longo de uma, duas três horas? Fala-se de como o povo curtiu? Dos efeitos e dos samples utilizados? É que tudo isso é uma chatice, e é para isso que existem plataformas como o Setlist.fm, o Mixcloud ou até o Shazam. Pelo que só me resta encontrar uma outra via: falar de um festival de música electrónica sem colocar tanta ênfase, bem, na música.

E se o digo é para vos avisar; podem parar de ler por aqui, se é que estão a ler sequer. Escusam de avançar outro parágrafo. Isto não melhora. Como, aliás, nunca melhora. Falemos então do Elétrico em si, do festival que cumpriu este ano a sua segunda edição, nascido dos cérebros e das vontades de um grupo de gente amiga que gosta tanto de música de dança electrónica que decidiu mostrá-lo ao mundo. Ao mundo, e não apenas ao Porto; ao longo dos três dias de Elétrico, eram bastantes as línguas e sotaques estrangeiros detectados. O que não quer dizer que este seja um festival para o mundo. Há um aqui um certo grau de familiaridade e conforto, o mesmo que só se obtém em festivais pequenos.

Não foi possível saber ao certo quantas pessoas passaram pelo Parque Urbano da Pasteleira (que, já agora, fica na quinta casa do caralho) ao longo de três dias. Mas percebeu-se que cada uma delas ali estava por um gosto comum, o gosto pela música, e não para - simplesmente - passar umas tardes ao sol a beber cidra e a tirar fotos para o Instagram. Não é um evento de grande escala; quem vai já sabe ao que vai. E leva os amigos, os conhecidos, as famílias e até os animais de estimação, de cães a furões passeados pela trela. Criar um evento com um cartaz estupendo para tão pouca gente parece megalómano, mas a verdade é que resultou. Excepção feita, claro está, às pulseiras, sem as quais era impossível consumir o que fosse dentro do recinto, um sistema que tem sido adoptado por cada vez mais eventos deste género e que ainda não foi suficientemente aperfeiçoado para que possamos, um dia, dizer "pá, não tive problema nenhum com as pulseiras". Ou com o MB Way, que precisou de um empurrãozinho e de um comprovativo de pagamento para finalmente depositar 10€ naquele rectângulo branco com um código.

Nesse cartaz destacaram-se nomes como Janus Rasmussen, uma das metades da dupla Kiasmos (a outra é o grande Ólafur Arnalds), que se apresentou às 19h de uma sexta-feira com um live no qual não se percebia onde estava concretamente esse live, mas que soube levar a água ao seu moinho através de um certo minimalismo ambient antes de começar com o ataque polirrítmico da praxe neste género de festivais. Cenas como o Elétrico servem, sobretudo, para dançar, para trazer um pouco do espírito das raves que as geraram. Um pouco, poucochinho, porque numa rave à antiga seria impensável ver tamanho dispositivo policial: principalmente nas primeiras horas havia mais polícias que festivaleiros... Por serem 19h, é possível que Rasmussen tenha aproveitado a toada sunset para nos entregar um espectáculo apoiado mais na melodia que no kick drum que dá vida ao techno e ao house, e que quando é bom a sério até nos consegue magoar os ouvidos.

Mas foi para isso que Levon Vincent veio ao Elétrico, entrando logo a matar com um puntz puntz puntz delicioso, até chegar a um dos momentos mais aplaudidos dessa tarde-noite - uma remistura em formato house clássico de "Afterglow", de Tina Turner. No palco, com o formato de um eléctrico, foram poucas as vezes em que os DJs ali presentes reconheceram a presença do seu público, mas isso também pouco importa. Importa o que fazem atrás de uma mesa de mistura. Importa se fazem mexer a anca. Se geram amor. Ou mesmo só interesse, já que ao longo destes três dias não foram poucos os que ignoraram a frente de palco para permanecerem sentadinhos à sombra, num dos muitos locais ali dispostos para o efeito (e que bem que soube, e o sol também ajudou a optar por esse resguardo. Aliás, todos os festivais deviam ter uma série de lugares sentados e/ou esplanadas à sombra, com vista privilegiada para o palco, sem se incluírem num qualquer pacote nojento para VIPs. Só naquela).

Num set que contou ainda com a fabulosa "Strings Of Life", de Derrick May, um dos pontos mais altos surgiu com o lançamento de vários balões a partir do palco - uma espécie de mimo aos candy ravers do séc. XXI. Mas esse primeiro dia foi, e só poderia ser, dos Inner City. De volta ao activo para celebrar 30 anos de carreira e de "Big Fun", o grupo formato por Kevin Saunderson deu um concerto na verdadeira acepção da palavra: os músicos atrás, manipulando ritmos e melodias, e a vocalista Steffanie Christi'an, exalando negritude e sexualidade, um poço de força mágica que encantou graúdos e miúdos. Ela bem tentou passar o microfone a uma criança que por ali andava às cavalitas, mas talvez sejam precisos mais dez anos para que essa mesma criança possa compreender a importância que os Inner City tiveram para a história da música electrónica. Ou, pelo menos, para compreender a importância que foi tê-los entre nós. Os sorrisos e o agitar de braços foram demasiado numerosos para poderem ser contados.

Num segundo dia que contava com a forte concorrência do Tomorrowland, houve actividades extra-musicais a serem adiadas devido às condições climatéricas, e contavam-se pelos dedos das mãos os que pelas 14h já se encontravam na Pasteleira para verem e ouvirem os "confrontos" entre Vasco Valente e Tiago Carvalho e entre D'Julz e Magazino, mais tarde. Tudo soou ligeiramente chill a mais, pelo que mais valeu ficar a ouvir as ideias da Next Big Idea, junto ao rio, aos patos, e às dezenas de galos e galinhas que cacarejaram a bom cacarejar, talvez pedindo sossego, ou MD, ou ambos.

À terceira foi de vez, sem ressaca a bater no corpo, e com Matthew Herbert a começar em modo deep, recorrendo ao vinil para dar aos que já se encontravam no parque verdejante que acolheu o Elétrico uma experiência de dança perfeita para um domingo à tarde. Com o britânico, o ritmo foi a chave, e destacou-se uma remistura de "She's Homeless", de Crystal Waters, em que só pequenos trechos das vozes eram reconhecíveis (quase como que um baile funk com uma das melhores malhas de sempre). Perto do final, a tragédia; um dos discos salta, emperra, manda pregos e é vê-lo a mandar os headphones com o badagaio, tentando salvar o seu trabalho - que terminou com outra enormíssima malha, "Sing It Back", de uma certa ruiva que até vai estar entre nós em breve.

Cansado de três dias no Porto sob os auspícios de um emprego omnipresente, não havia forças para ver Moodymann, mas a minha despedida do Elétrico foi em grande. Literalmente: três horas de Theo Parrish, que foi do funk, ao jazz, do house latino ao acid ao techno, que suou e fez suar e que ainda contou com algo que ainda não havia visto no Elétrico - e que se vê em qualquer festival do mundo: meninas simpáticas e sorridentes a soprar bolinhas de sabão nas filas da frente. Foi o ponto final de um festival que, mais do que crescer, deverá manter-se assim mesmo: imaculado, isento de parolos ou betinhas. Tudo é melhor no Porto, de facto.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
25/09/2019