bodyspace.net


Glassjaw
Lisboa Ao Vivo, Lisboa
23-/06/2019


Devias ter vindo há 15 anos, ó filhadaputa!, grita uma conhecida personalidade da Internet poucos segundos após os Glassjaw terem entrado em palco e pedido para que se apagassem as luzes, que a música - em particular a violenta, e sobretudo a emocionalmente violenta - quer-se na escuridão, para que alumie tudo o resto sem que seja necessário recorrer a formas artificiais. Que alumie tanto quanto os Glassjaw alumiaram uma certa franja de melómanos há 15 anos, quando ainda todos tinham conta no Myspace e muita adolescência para correr.

O grito é verdadeiro; os fãs aqui presentes, e que deixaram o Lisboa Ao Vivo composto (ainda que longe de cheio), já esperavam por um concerto de Glassjaw há demasiado tempo. Foram sendo engolidos pela velhice, por outras sonoridades e terrenos, e pelas agruras da vida, pelo que só na última das canções tocadas pelos norte-americanos, "Siberian Kiss", despertaram para o mosh e o crowdsurf, quando a fúria daquele baixo e bateria (incrivelmente coesos) e das palavras de Daryl Palumbo se calhar precisaria de mais caos.

Apesar disso, que não se olhe para esta noite como um revivalismo do que seja. Os Glassjaw soam a uma banda fresca, com os olhares do público a fixarem-se, inevitavelmente, na entrega de Daryl e no ruído emotivo que vinha brotando das colunas, como em "Jesus Glue", onde não faltou sequer o sinal da cruz. Ao longo de uma hora, os Glassjaw incendiaram corações, fizeram deitar algumas lagriminhas e ainda pediram desculpa pelo presidente dos EUA, ao mesmo tempo que convertiam uns poucos discípulos à sua causa. Só se lamenta não se poder ter 15 anos e descobri-los pela primeira vez.

Antes disso, os Algumacena - Alex D'Alva Teixeira e Ricardo Martins - mostraram que são um projecto com pernas para caminhar sobre as águas do torpor, ainda que seja preciso vê-los e ouvi-los mais algumas vezes para confirmar o seu estatuto enquanto cena a acompanhar (ainda não deu para formar uma opinião menos básica). Já os Ash Is A Robot, que já têm alguns anos de vida nas suas pernas, deram o concerto esperado - hardcore mais ou menos melódico onde o espectáculo é o vocalista pulando em palco e no meio do público, enquanto soa o barulho ali atrás. Foi um bom aquecimento para a pancadaria que se seguiu.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
08/07/2019