bodyspace.net


SWR Barroselas Metalfest
Barroselas
25-28/04/2019


Dia Um

Mais uma moeda, mais uma volta no carrossel do peso. 400 quilómetros feitos com maior ou menor aceleração auto-estrada acima e eis que o Minho nos deslumbra os olhos, sempre fiel a si próprio: montanhoso, verdejante, enevoado e católico. Excepto numa determinada vila onde a romaria tem contornos mais negros; Barroselas, pois claro. A 22ª edição do festival dedicado ao metal levou bastante gente até lá para assistir às mais variadas propostas dentro do género, do black ao death metal, do thrash ao lixo para hipsters. Houve de tudo, até pedras no chão substituindo a tradicional lama. O que não sujavam em sapatos, arruinavam em músculos e veias nas pernas, mas essa é uma cruz que se carrega sem problemas.

Sem cruzes de qualquer tipo que não as invertidas, o público foi-se aglomerando para ver, no primeiro dia, o pacote inteiro que são os Analepsy: death metal, guturais, logos indecifráveis e pancadaria da grossa no tímpano alheio. Mostraram uma canção nova, ainda sem título, tocaram qualquer coisa que terminava em "extinction" e foram aquecendo o público q.b., antes de os Morte Incandescente destilarem um doce e sempre bem-vindo ódio sobre o palco secundário, corpsepaint e fumo e o vómito de uma dor imensa traduzidos em black metal num concerto que, ainda assim, ficou ligeiramente aquém das expectativas.

Não havia expectativas algumas para Midnight, mas o seu thrash satânico, espécie de Motörhead versão black metal, tocado de forma anónima e sem descurar o cinto de balas, tratou de as superar a todas. Bem se dizia antes do festival que seria dele um dos concertos a não perder, e de facto a festa foi muita, em cima do palco e fora dele: o inefável mosh e crowdsurf deram um ar da sua graça, até o guitarrista cedeu a navegar as ondas do público e a jarda total que teve em "Poison Trash" o seu ponto mais alto só poderia terminar com um amp arremessado para as cabeças da frente. Quer dizer, quase. Ficou-se só pela ameaça. Menino...

Os Black Dahlia Murder acabaram por sofrer um pouco com o volume, que este ano se apresentou muito mais alto; o seu death metal com laivos épicos até pareceria engraçado caso se percebesse o que cada um dos cinco indivíduos em cima do palco estava a tocar... Debaixo dessa verdadeira avalanche sonora, ainda foi possível discernir uma canção «para as senhoras» e uma homenagem aos Analepsy, cuja t-shirt o vocalista Trevor Strnad envergou durante todo o concerto. «Deviam ter orgulho neles!», afiançou. Daquilo que se viu, mais vale ter orgulho e confiança nos Analepsy que na velocidade e pouco mais dos Black Dahlia Murder, sim.

O dia pertencia no entanto aos Godflesh, que eram o cabeça de cartaz não anunciado para o primeiro dia do SWR. Metal com uma drum machine, um conceito provavelmente alienígena para muitos dos presentes, e que também sofreu com o som; o volume parecia estar ao ponto da náusea. No entanto, nos Godflesh isso faz sentido: a sua música - e isso está bem patente no seminal Streetcleaner - parece querer conter dentro de si todos os terramotos do mundo, todos os edifícios que colapsam em anarquia, todos os ratos que copulam e com os quais finalizem um concerto que poderia ter sabido a pouco, mas que acabou por cumprir.Dia Dois

Nem sempre há tempo ou vontade para se ver tudo, e é por isso que num festival se acaba por perder muita coisa que depois, se calhar, obtém um estatuto quase que de culto. E também é por isso que os segundos dias de festival - quando esgotámos a adrenalina toda no primeiro - são sempre os mais fracos. Os Demilich procuraram colocar um ponto final nessa fraqueza com death metal da velha guarda - eles que também se apresentaram como sendo «velhos» -, sendo recebidos com a tradicional chamada a Satanás (os corninhos no ar, claro). Bem construído, com os tempos certos, e parecendo trocar a brutalidade pela técnica, o death metal dos Demilich ajudou a fazer esquecer o cansaço - mesmo que as looongas pausas entre malhas para dizer qualquer coisa pateta ao microfone tenham irritado.

Só pelo nome era possível adivinhar aquilo que os Dopelord tocam, e como qualquer banda de stoner só passaram à categoria de "óptimo" quando aceleraram um bocadinho o ritmo. O resto foi apenas básico, mas rapidamente esquecido devido aos Benediction, que deram um enorme concerto no palco principal, incitando ao caos e mostrando que por debaixo de qualquer gajo do death metal há gente cheia de boa onda. "They Must Die Screaming" foi um dos pontos altos, e o espectáculo foi apenas cortado por um ligeiro erro que obrigou a uma pausa: «não sabemos quem fez merda...», disseram eles a rir. Mas depois daquela fiesta perdoou-se-lhes tudo.

Os Imperial Triumphant não foram mais que uma curiosidade - máscaras estranhas e influências do jazz dentro de um black metal apenas aborrecido - e os Saint Vitus chamaram muita gente disposta a reviver o passado, sem se aperceberem de que o passado não é um sítio fixe onde se viver. Com um baterista que vestia uma t-shirt de Ozzy Osbourne para mostrar que sim, há uma ligação aos Black Sabbath (chama-se "plágio"), os norte-americanos apresentaram uma música extremamente interessante em Barroselas, mas apenas e só para quem tinha dedicado uma tarde a fumar alguns parpalhos. Para os outros, foi apenas extremamente aborrecido.Dia Três

Se há algo que é possível observar em Barroselas, mais que noutros locais, é a figura do Yeahh!taleiro - o tipo que vindo não se sabe muito bem de onde nem em que estado de embriaguez entra na sala, ergue o punho no ar, soca um par de vezes gritando Yeehh! e, logo de imediato, volta para a sua toca, cumprida que está a sua incompreensível missão - incompreensível aos normies, isto é. Durante a actuação dos Martelo Negro, thrash (lá está) negro e bom o suficiente para aquela hora da tarde, eles (também) lá estiveram, empolgados pelo 666 bíblico.

Fora do espectro metálico deparámo-nos com os Rakta, que levaram até ao festival uma espécie de xamanismo pós-punk, e que só começou a funcionar após uma intro demasiado longa. Duas mulheres (teclista e baixista) e um homem (baterista), a banda SE CALHAR nem é má - mas nós não vamos a Barroselas para ver arquétipos de bandas para a Zé dos Bois, assim como não vamos à Zé dos Bois para ouvir black metal neo-nazi. Aquele barulho era todo muito bonito, mas noutro contexto. Aqui, dispensamo-lo perfeitamente.

Felizmente, os Arkhon Infaustus trataram de nos voltar a entusiasmar, com um som saído das profundezas do abismo onde Satanás comanda as suas legiões de demónios, quando não está demasiado ocupado a pinar freiras pecadoras. Aquela muralha não foi um concerto de uma banda metal; foi um homicídio, e melhor só ver o baterista a disparar por todos os lados com a maior nonchalance do mundo. Quase tão bons, os Craft cumpriram mais tarde no palco principal, colocando um ponto final na missa negra do black metal - mesmo que muitos tenham perdido os primeiros 15 minutos de concerto devido a uma não-anunciada antecipação...

Pelo meio, o death metal agressivo dos Vomitory pecou (eheh) por comparação a Arkhon Infaustus, e o noise rock dos Deafkids mostrou-se castiço mas também desenquadrado - ainda que nos soasse melhor que os seus compatriotas. Porque Barroselas também é uma forma de sair fora da caixa - e nós esperamos que para o ano a romaria se repita.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
16/06/2019