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The Tallest Man On Earth
Aula Magna, Lisboa
7-/02/2016


Nem a chuva que foi caindo mais ou menos miudinha ao longo da noite foi capaz de nos lavar a dúvida que nos assoava antes de chegarmos à Aula Magna: como é que um folker indie como Kristian Mattson, vulgo The Tallest Man On Earth (nem é) foi capaz de esgotar uma sala como esta? A pergunta começou a ser respondida quando demos de caras com o seu gigantesco tour bus, estacionado à porta, e as dúvidas dissiparam-se no final do concerto. Mattson é uma verdadeira rockstar, pulando de um lado a outro, atirando as palhetas da guitarra ao chão em poses cool e cantando temas transversais a todas as gerações; não eram só miúdos aqueles que acorreram à Aula Magna, havia igualmente bastantes graúdos, e bastantes in betweeners, nomeadamente aqueles (ou aquelas) que antes do concerto nos confidenciam eu não era para vir, mas ele é tão giro...

De facto o cantautor sueco é um gatinho, mas não é isso que está em questão. Quinze minutos após o fim da primeira parte, que coube ao amigo The Tarantula Waltz (que, apesar de esforçado, não conseguiu vestir tão bem a capa americana quanto o seu conterrâneo), a sua entrada em palco faz-se ao som de uma música estranha em língua estranha, provavelmente do seu país de origem, a Suécia, e faz-se com Matsson a abrir os braços para receber os muitos aplausos, antes de arrancar com a sua banda para "Wind And Walls", faixa retirada a There's No Leaving Now, álbum que editou em 2012. Começou aí a noite mágica do homem mais alto do mundo, que logo de seguida parte rumo a "1904", antes das boas maneiras ditarem o primeiro contacto com o público, prometendo tocar algumas sad fucking songs...

A tristeza existe nas suas canções, mas o seu autor parece não querer fazer caso disso; vai dando pulinhos com a ponta dos pés, canta versos como And now I hold on fall is greeting me to stay / And we slow dance in the kitchen and I dream the days away com a maior alegria do mundo e ainda sorri quando vê o público a acompanhá-lo em "I Won't Be Found", de Shallow Graves (2008), prova de que The Tallest Man On Earth não se trata de um simples hype de verão. É um moço de créditos bem firmados, um homem que evoca Bob Dylan na voz mas que age como se fora um simples operário, como Springsteen.

Ao longo de quase duas horas de concertos, Mattson navegou por "Sagres" (que não é sobre a cerveja, fez questão de frisar), mostrou dotes Vini Reillyanos em "Revelation Blues" e ainda teve tempo para, a dada altura, correr pelo público fora para perguntar a uma fã - que imediatamente se encolheu de vergonha - o que tinha ela gritado. Soubemo-lo logo a seguir: gritou por "Leading Me Now", que acabou por não completar, visto não se lembrar da letra, num gesto da mais pura candura. A folk eléctrica de "Where Do My Bluebirds Fly" levantou corações, mas não tanto como "King Of Spain", uma das mais aguardadas (e quiçá a sua melhor cantiga), antes de um encore em que o funk branco de "The Dreamer" e o coro da banda em "Like The Wheel" fecharam da melhor maneira uma noite para guardar na memória. Rockstar, repetimos. Sem quaisquer dúvidas.

Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
10/02/2016