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Festival de Músicas do Mundo de Sines
Sines
28-30/07/2005


Os friques, a música e o mundo

O 7.º Festival de Músicas do Mundo de Sines possibilitou 3 dias de concertos, conversas, mas toda uma gama de actividades paralelas como exposições. Veio gente de todos os lados de Portugal, para um festival com um cartaz ecléctico e irresistível, que se destaca de todos os outros pelo ambiente ou pelo preço estupidamente baixo. Os concertos decorreram todos no concelho de Sines, de Porto Covo até à cidade mesmo, no Castelo, na Capela e na Avenida da Praia. Só os concertos no Castelo, três por noite (havia cinco concertos ao todo por dia), eram pagos. E eram 5 euros por dia.
O festival difere dos outros festivais de verão não só por ser mais barato, mas também por ser como que a Meca dos friques. “Frique” é a adaptação portuguesa da palavra inglesa “freak”. Os friques são aqueles jovens, ou mesmo velhos, que gostam muito do contacto da natureza, tanto que acabam por ser hidrófobos, ou seja, acabam por ter medo da água. Não temos absolutamente nada contra eles, mas o problema é que muitos deles são donos de djambés e julgam-se virtuosos desse instrumento de percussão. Se aliarmos isso ao provérbio inventado agora: “A tua capacidade de manter um ritmo é directamente proporcional às vezes que tomas banho por semana”, temos um problema. Até porque não são só os cães que andam por todo o festival que aborrecem, é o facto de muitos dos tocadores de djambé acharem, por alma de alguém, que podem tocar ao mesmo tempo que alguém no palco toca. E acabam por estar, quase sempre, fora do tempo, e estragar a música para todos os outros.

Facadas, ciganadas e cegos – o primeiro dia

Os destaques do primeiro foram os óbvios, desde a ciganada festiva da Mostar Sevdah Reunion Band e da Mahala Raï Banda, passando pelo fado-que-não-é-fado de Cristina Branco e por todos os estilos do ecléctico duo cego Amadou & Mariam. No público do Castelo, um homem destacou-se dos demais. Já tinha alguma idade, não muita, trazia um cabelo não muito diferente daquele a que Marco Paulo nos habituou durante o final dos anos 80 e o final dos anos 90, uma <i>T-shirt</i> demasiado curta que dizia “MANGO ADDICT” e dançava, alheio a qualquer tipo de noção do ridículo ou à troça que dele faziam. Era alguém que sentia toda a música, que dançava toda a música, sem qualquer tipo de preconceitos e vergonha.

34 Puñaladas


Os argentinos 34 Puñaladas arrancaram o festival em Porto Covo. O seu concerto, pautado por barulhos exteriores à banda, como badaladas dos sinos da igreja, carrinhos motorizados de crianças ou palmas irritantes dos jovens friques. Quatro guitarras, todas elas iguais, com um vocalista que contava as histórias por detrás das canções, dos tangos. Prostitutas, bailarinos, clubes nocturnos, toda a má vida, eram representados nas canções. Não é um concerto para um contexto ao ar livre, de entrada livre, e os músicos não conseguiram arrancar muitas reacções da plateia, que, morna, ainda acabou por sair mais cedo. Quatro guitarras a tocar quase sempre a mesma coisa nunca conseguem evitar ser aborrecidas.

Cristina Branco + Brigada Victor Jara + Segue-me À Capela

Cristina Branco, cantora habitualmente conotada com o fado, abriu definitiva e oficialmente o festival no Castelo de Sines. Com direito a um longo discurso do presidente da câmara, esta abertura fez-se com o coro feminino Segue-me À Capela e a Brigada Victor Jara. A voz belíssima de Cristina inicia o alinhamento com "Embalo", acompanhada apenas por um piano. A sua banda entra em palco e com, para além do piano, uma guitarra portuguesa, um baixo e uma guitarra clássica, Cristina vai cantando e mostrando os seus dotes vocais. Dá-nos as boas vindas a toda esta viagem. Logo depois chama ao palco o coro feminino Segue-me À Capela, em registo falado de pergunta-resposta. Segue-se a Brigada Victor Jara, que recupera as raízes da música tradicional portuguesa. Falam de como o festival representa a verdadeira globalização e dizem mal dos políticos. Parecem concertos individuais, até que no fim tudo se funde e bem, apesar de um arranque fraco. Os dois últimos temas, “Meu amor é marinheiro” e “Marião”, tiveram direito a um trompetista e aquilo já nem era fado, nem música tradicional portuguesa, era, sim, uma salganhada que acabou por compensar.

Mostar Sevdah Reunion Band + Ljiljana Buttler

Mostar Sevdah Reunion, com a voz de Ljiljana Buttler, fizeram a festa cigana no Festival de Sines. Friques que chegaram a essa condição através dos filmes e da música de Emir Kusturica rejubilaram com o concerto. Um baixista que tocava baixo acústico na vertical (e usava por vezes um slap insuportável, devido tanto à qualidade das cordas como à qualidade do som), duas guitarras, uma rítmica e outra solante (que abusava por vezes dos solos, se bem que competentemente), uma voz masculina (por vezes até duas) e uma feminina, um acordeão, um violino e uma bateria foram os componentes. Ljiljana Buttler é uma cigana muito entroncada, roça-se no violinista e dança orgulhosamente. Os ritmos tornam-se cada e cada vez mais rápidos, por vezes dentro do mesmo tema. O concerto só pecou pelo mau som, especialmente do baixo, e pelas palmas do público.

Amadou & Mariam

O duo cego Amadou & Mariam, uma das sensações da música do mundo deste ano, capa de revistas e afins, trouxe-nos música vinda do Mali que não é necessariamente do Mali. <i>Funk</i>, <i>rock</i>, <i>blues</i>, tudo cabe na guitarra eléctrica de Amadou. Um percussionista, um baterista, a voz de Mariam, um teclista e outro guitarrista acústico. Duas pessoas, unidas pela música e pelo amor (é assim que os vendem), estão em cima do palco. Quais Ray Charles, de óculos de sol, com um bom gosto irrepreensível, fazem o melhor momento do primeiro dia do festival. Em tom festivo, foi o mais próximo que o festival recebeu de um concerto <i>pop-rock</i>. Refrães, canções, tudo com letras cantaroláveis numa língua que não entendemos.

Amadou & Mariam © Cameraman Metálico (CMS)

Mahala Raï Banda

Mahala Raï Banda foi a segunda parte da festa cigana de dia 28. Mas, desta feita, o destaque eram os instrumentos de sopro e o palco não era o Castelo, mas sim a Avenida da Praia. Dois trompetes, uma tuba, um clarinete, um baterista, um percussionista e um vocalista. Toda a gente, sem excepções, dançava. Mahala Raï Banda quer dizer, em romeno, "Banda Nobre do Ghetto". Algo como uma Fanfare Ciocarlia menos criativa, mas não menos divertida.

Luís Rei + Raquel Bulha (DJ set)

Os DJs Luís Rei e Raquel Bulha fecharam a noite numa festa feita de músicas tradicionais de todo o lado, do folk aos blues, do Brasil à Finlândia, do Mali a Portugal.O free funk e o velho louco albino - o segundo dia

O dia começou às 5 da tarde, na Capela da Misericórdia, onde Hermeto Pascoal abriu o apetite para o seu concerto da noite. Prometia muito, mas não cumpriu tanto quanto se esperava. Os destaques passam por Marc Ribot e pelo já citado brasileiro louco, ainda assim. Foi a primeira noite em que tudo esgotou, se bem que o Castelo não estivesse ainda a rebentar pelas costuras.

Lula Pena

Lula Pena é portuguesa. Mas isso não quer dizer nada. Vê-la ao vivo foi uma das experiências mais claustrofóbicas e penosas de sempre para quem escreve agora estas palavras. Mas a culpa não foi dela. A culpa foi de a terem posto numa capela. Cheia de gente até ao tutano, cheia de gente a sair, cheia de gente a entrar, formava-se uma fila na porta. Cães passeavam por entre o público.
Lula Pena acompanha-se a ela própria à guitarra e vai cantando. Cola-se muito ao fado quanto canta em português de Portugal, o que se torna aborrecido. As suas canções também não são verdadeiras canções, falta ali algo, parecem mais poemas do que canções verdadeiramente trabalhadas. Passa, na mesma canção, de português de Portugal para português do Brasil e para inglês. Há algo de delicioso e divertido quando transforma as suas canções em canções de outrém, como foi o caso de "Do You Really Want to Hurt Me?" dos Culture Club ou de "Pollen", da cantora americana-israelita Mirah (sim, leram bem, não estamos só a inventar porque o Bodyspace é uma webzine indie). Dedilhados alternados com percussão, assobios que se transformam em suspiros...friques no público marcam (mal) o ritmo e quando batem palmas ou fazem gritos índios no meio das palmas. Lula mal pára entre as canções.
No final, há uma ovação em pé para ela, e, visivelmente tocada com a ovação, Lula começa a tremer e tremer. Quase nem consegue respirar, nem sequer cantar. Começa a cantar em francês, com um sorriso de orelha-a-orelha, algo que contrasta com as palavras que canta: "Je suis triste". Mas tudo acaba bem, com um suspiro, com o respirar da artista, frágil e humana.

Marc Ribot & the Young Philadelphians

Nunca existirão, foda-se, palavras suficientes, foda-se, para descrever, foda-se, este concerto do Ribot, foda-se! É por isso que estamos a abusar imenso dos palavrões, foda-se! Marc Ribot é, e será sempre, até morrer, uma lenda viva. Foi membro dos Lounge Lizards, tocou jazz, acompanhou artistas pop como Elvis Costello ou Tom Waits, é judeu e toca com John Zorn, faz música cubana postiça, faz tudo. É um guitarrista extremamente criativo que cola bem em tudo. É óbvio que a fasquia de uma actuação deste senhor estava muito, muito alta. E sabem que mais? Foda-se, suplantou todas as expectativas, foda-se. Do funk ao free jazz, passando pelos blues, pelo rock'n'roll, pela soul, pela música africana, pelo reggae, por campos de basebol, e por explosões de puro barulho, o homem cumpriu e muito.
Entra em palco acompanhado de Anthony Coleman nos teclados, Jamaaladeen Tacuma no baixo e Calvin Weston na bateria. Basicamente, estes Young Philadelphians são músicos de alto gabarito que andaram metidos com gente importante, como o grande Ornette Coleman. Marc Ribot está a usar óculos e tem à sua frente duas folhas com pautas, uma delas tremendamente amarrotada. Entra e a festa começa. Não há um único momento mau, se descontarmos a parte em que o Mini Korg de Anthony Coleman deixou de funcionar e o momento final em que a guitarra de Ribot deixou de ter som. Jamaaladeen Tacuma trouxe o free funk no baixo, com um som de baixo sem qualquer tipo de falhas, e uma técnica não menos boa. Um músico brutal, com linhas de baixo sempre fluídas e brilhantes. Ribot canta, toca riffs de blues e de puro rock’n’roll, sola, vai andando por momentos de abstracção que culminam noutros mais convencionais e bonitos, como se estivesse à procura do som certo, da melodia certa, daquele momento brutal, e finalmente consegue encontrá-los.
"Não posso crer num Deus que não saiba dançar.", dizia Nietzsche. Por aqui dizemos "Não posso crer num Deus que não saiba pôr tudo a dançar". E Ribot sabe. Porque a liberdade também pode ser dançante.

Marc Ribot © Mário Pires (CMS)
Astrid Hadad

Astrid Hadad é uma figura pouco convencional. Veste-se com roupas extravagantes, atira-se (no sentido de sedução) ao público, vai cá atrás mudar de roupa, veste-se de quadros surrealistas, fala da boa vida, da boémia, etc. A música, essa, é convencional até ao tutano. Música mexicana feita de tangos, com bons músicos, mas que nem sempre se aproxima do bom gosto. Ainda assim, consegue divertir o público com as suas ousadias, o seu registo atrevido e as canções que canta. Tem uma boa vez, não haja dúvidas disso, mas ao fim de um certo tempo acaba por aborrecer um pouco. Em disco aproxima-se muito mais de um registo mariachi, com sopros e tudo, o que traria uma outra cor ao espectáculo.

Hermeto Pascoal

O que é que têm em comum Margaret Thatcher e Hermeto Pascoal? Ambos se referem a eles próprios na terceira pessoa. A dama de ferro e o louco barbudo referem-se a eles próprios na terceira pessoa. Horas antes do seu concerto, na Capela da cidade, Hermeto Pascoal transformou aquilo que começara como uma simples sessão de perguntas/respostas numa lição de canto afinado através de um copo-de-água que pôs quatro partes distintas do público a fazer sons e melodias com um xaman louco ("Albino louco", como um dia lhe chamou Miles Davis) a liderar e um espectáculo de percussão vocal e corporal dele e da sua cantora. Manteve-se tolerante para com os que decidiram desrespeitar a sua conversa, já que muita gente fazia barulho dentro da capela, como falar ou não desligar o telemóvel.
Hermeto Pascoal sabe dar um "show" (ler em brasileiro). Tem excelentes músicos. Músicos excepcionais, obviamente, porque se somos Hermeto Pascoal não nos contentamos com pouco. É pena que, num contexto de copos e de divertimento de Verão, não possa ser assim tão bem apreciada. E é pena, também, que os seus famosos instrumentos artesanais e sons pouco convencionais não tenham aparecido muito. Também demos pela falta da sua flauta, que toca com mestria. Ainda assim, alguma percussão peculiar, cow-bells e toda uma onda jazzy fizeram o raio da festa, com o louco como maestro a coordenar tudo. Virava-se para a plateia e pedia que cantassem com ele, repetissem o que ele dizia. A sua cantora, mais lírica do que jazzy, era um pouco limitativa. Ainda assim, fez com que esta cantasse num registo próximo de ópera enquanto punha os músicos todos a fazer algo que nada tinha a ver com isso.
Foi uma junção de músicas diferentes, de estilos diferentes, como o próprio velho louco tinha referido que iria ser na sessão de perguntas e respostas. Sendo um mestre do improviso, não foi estranho Hermeto Pascoal ter terminado o concerto improvisando uma letra sobre como era tão bom estar ali, agradecendo à Câmara Municipal de Sines e a toda aquela festa. Foi uma actuação irrepreensível, mas fica-se sempre com a sensação de que podia ter sido muito melhor...
Hermeto Pascoal © Câmara Municipal de Sines

Ba Cissoko

Ba Cissoko é um grande tocador de kora da Guiné-Conakri. A kora é algo como um parente da harpa, bem mais rudimentar, e com um som menos polido, mas não menos bonito. De vez em quando liga a kora a um pedal e usa distorção. Assim, está feito o kora-rock, para pôr tudo e todos, mais uma vez, a dançar. Bons músicos, percussionistas, tudo irrepreensível. Apenas peca por Portugal ter recebido, exactamente uma semana antes, Toumani Diabaté, acompanhando Ali Farka Touré. Ainda assim, houve tempo para, mais uma vez, friques se sentarem na relva da Av. da Praia tocando djambés ao mesmo tempo (se bem que fora do tempo) que em palco se tocava música. Deplorável.

DJ Mo (DJ set)

DJ Mo é um DJ do Mali que facilmente poria música nas discotecas manhosas, cheias de adeptos do tuning-chunga, de cada santa terreola do país. Uns cânticos e uns ritmos africanos misturados, com péssimo gosto, com batidas house. O povo gostou, mas isso não quer dizer nada. Os japoneses possuídos e os nórdicos americanos – o terceiro dia

Às 5 da tarde via-se Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen sentados nas escadas da Igreja de Sines, mas não havia maneira de entrarem na Capela da Misericórdia. Lá um pouco tarde, entrarem na capela, numa conversa morna, por culpa tanto deles como do público. Os Samurai 4, do Japão, foram uma bela surpresa, os KTU arrasaram totalmente o Castelo de Sines e os Konono Nº 1 desiludiram muito na Avenida da Praia, mesmo tendo dado para dançar.

Samurai 4

Os Samurai 4 arrancaram, no palco da Av. da Praia, o terceiro e último dia do festival. Música japonesa, com um instrumento chinês e ainda melodias que remetem também para esse outro país oriental. Um baterista (tambor wadaiko) possuído por algo de um outro mundo, um tocador de shamisen, uma espécie de banjo com apenas três cordas tocado com mestria por Sin'Ichi Kinoshita com a ajuda de um utensílio cortante, uma koto, uma espécie de cítara, tocada por uma asiática de óculos de sol que parecia saída de um filme de Wong-Kar Wai e uma rapariga numa flauta de bambu chamada shinobue serviram para aquecer ainda mais o dia, com todo o calor insuportável. Fizeram algo óptimo: evitaram pôr o público a bater palmas, disparando samples de palmas do público. Assim ninguém sai do tempo e todos ficamos a ganhar. Possuído por algo estava o manager da banda, que de lado do palco se divertia com os braços no ar, e que a meio do concerto foi para o centro do mesmo, atirando água para o público e dançando loucamente. De repente, começa a batida: "tum tum pa, tum tum pa". Era "We Will Rock You", dos Queen. As canções anglo-saxónicas ganham sempre algo de especial quando cantadas por vozes nipónicas. Há algo que karaókico ali, algo brilhante. O manager, totalmente excitado, tocava air guitar. Sublime.

Samurai 4 © Câmara Municipal de Sines

Master Musicians of Jajouka+ Bachir Attar

À saída, no caminho para o castelo, um rapaz vendia "space cookies", para pôr toda a gente nas nuvens. Seria, talvez, uma boa preparação para os Master Musicians of Jajouka e a sua hipnose. Os Master Musicians of Jajouka (são mais que as mães) já, umas horas antes, estavam a ensaiar dentro duma tenda no backstage. Vimo-los, ainda um pouco antes, sair do hotel, guiados por um francês, todos muito inocentes, felizes. Oito homens em palco, cada um com seu instrumento, de sopro, de cordas ou de percussão, fazem um trance primitivo e rudimentar que se baseia na repetição ad nauseam de elementos básicos. Linhas melódicas simples e repetitivas, batidas sempre iguais. Existem há 4000 anos e foram muito referenciados pela geração beat, até terem sido gravados por Brian Jones (sim, aquele dos Rolling Stones que foi encontrado morto na piscina). São hipnóticos, sim, mas só para quem está mesmo dentro de tudo. Tocam como se estivessem na sua aldeia natal, como se não estivessem num concerto para milhares de pessoas, como se a civilização ocidental não existisse. Falam num inglês pobre e agradecem muito. Há um deles, mais velho, que se levanta para dançar. Há algo de muito puro e inocente em todo o espectáculo.

KTU

Quando perguntámos a Kimmo Pohjonen se era o Diabo, na sessão de perguntas na Capela, ele disse que não era, mas gostaria muito de ser. Os KTU estavam pouco à vontade durante esta sessão, já que quase ninguém fazia perguntas e quando faziam, eram todas básicas e desinteressantes. Alguns momentos depois, Pat Mastelotto, o baterista dos KTU, chamava-nos. Era para nos dizer que Kimmo era mesmo o Diabo, mas nunca o diria.
É curioso ver como as pessoas de Kimmo e Samuli Kosminen, que se apresentam em palco com vestimentas antigas e parecem possuídos pelo demónio, são na verdade pessoas normais e dóceis, que sorriem e riem e são pouco sérios. Kimmo é também um dos únicos finlandeses que existem a ter um bronzeado.
Pat Mastelotto e Trey Gunn foram membros dos King Crimson, mas dos Crimson anuais. Logo, não foi estranho haver gente, antes de entrarem em palco os KTU, a gritar: "Viva o Rei Crimson! Viva o Rei Crimson!" Quatro homens em palco, oito braços, para dar um 8 Armed Monkey, nome do disco editado este ano. Uma metade é Kimmo e Samuli, a metade Kluster, e outra metade, Pat e Trey, são os TU. Nasceram, dizem eles, do facto de Robert Fripp (lendário guitarrista e líder dos Crimson) ser inglês e se deitar às 6 da tarde. São americanos, logo às 6 da tarde estavam era prontos para fazer música. Deram concertos juntos, juntaram-se para gravar discos, e um dia juntaram forças com os Kluster.
O acordeão de Kimmo Pohjonen é suficiente para incendiar qualquer local. Junte-se a este a sua voz demoníaca e aparece uma força demolidora. O problema é que não é só isto. Samuli Kosminen, percussionista de formação, sampla o que Kimmo toca em tempo real, e toca os samples duma forma brilhante. Mas isto é só Kluster. Kluster com TU dá KTU, com a secção rítmica dos diabos que é Trey Gunn e Pat Mastelotto. O primeiro toca uma guitarra Warr, guitarra de 10 cordas que tem o alcance dum piano, ou seja, toca guitarra e baixo ao mesmo tempo.
Será rock progressivo? Será música do mundo? Sabemos lá o que é. Sabemos que estão 4 homens em palco, com batidas e apoteoses brutais, linhas de baixo, linhas de acordeão, tudo, tudo. Estão todos possuídos, Kimmo vai esbracejando (dentro do possível, com um acordeão nas mãos), vai emitindo sons da sua boca, e Kosminen vai samplando. Acontece o mesmo com os outros dois, já que Mastelotto alterna entre tocar bateria e samplar as linhas de baixo de Trey Gunn.
Não há maneira de descrever um concerto deste quarteto. Nem sequer é possível perceber o que é através da audição de 8 Armed Monkey, que ainda por cima foi gravado ao vivo. Há o som surround sem falhas (pronto, pronto, não vamos contar com o som da guitarra Warr que por vezes, durante solos, se tornava um pouco mau) que Kimmo adora usar em todos os seus projectos, há a brutalidade e a visceralidade que é simultaneamente cerebral e intensamente física. No meio daquilo não sabemos bem onde estamos, e para perceber o que é que se passa é preciso rondar o recinto, o Castelo a rebentar pelas costuras, que deveria ter ruído durante o raio do concerto.
Brutal, brutal, brutal, som que vem de trás, som que vem da frente, som que vem dos lados, de repente aparecem elementos inesperados, de repente tudo muda, de repente tudo fica igual, será que são aproximações ao dub e ao reggae? Sabemos lá, queremos lá saber. É impossível catalogar isto. Estão dois homens em palco a tocar bateria, há riffs de baixo/guitarra impossíveis, há dinâmicas de pára/arranca, há toda uma panóplia de sons e experiências que é totalmente impossível de descrever. Há o melhor concerto de todo o festival, cativante do princípio até ao fim.

KTU © Câmara Municipal de Sines

Kíla

Os Kíla são irlandeses e trazem a música tradicional irlandesa, começando com paisagens sonoras dignas duns Tangerine Dream (sem brincadeiras), e acabando em massas intensas de som, repetitivas, de batidas, melodias e hipnose. Toda a gente dança ao som daquilo, é fácil e serve para dançar. Há, aqui e ali, momentos de extrema beleza, como já adivinhávamos pelo soundcheck, com todos os instrumentos em perfeita sintonia. Muito bons instrumentistas, os Kíla acabaram por desiludir, não havendo grande sumo na sua actuação. No final já nem pareciam uma banda irlandesa, mas sim uma banda espanhola.

Konono Nº 1

A Konono-desilusão que começou o fecho do festival na Avenida da Praia custou um bocado, mas não aconteceu sem alguma diversão. Os Konono Nº 1, do Congo, existem há um porradão de tempo, mas só agora é que subiram para a ribalta dos circuitos da música do mundo e aquilo que chama logo a atenção nesta banda é o sistema de som que usam, totalmente artesanal, com microfones feitos de madeira e de partes de carros, sabemos mais lá de quê. É a junção da tradição africana e da tecnologia decadente. São liderados por Mingiedi, um tocador de likembe, que é algo como um piano de polegar, feito de madeira e metal. Têm três destes, com diferentes afinações, tudo. Têm também percussão e três vozes, duas mulheres e um homem, que também dançam.
Em disco, podemos confirmar em Congotronics, editado este ano, são brutais. Melodias simples, batidas, canto de grito/resposta, uma verdadeira festa. Ao vivo não é assim tão brutal. Apesar de ter sido gravado ao vivo, o disco tem outra pujança qualquer que não transparece em concerto. Também não ajuda o facto de, no disco, o som ser muito mais primitivo e rudimentar, o que dá uma distorção interessante ao likembe. Em concerto todas as falhas vêm ao de cima, ou seja, vemos que os temas não diferem quase nada entre eles, e a banda parece estar a fazer um frete, está ali mas podia estar a lavrar os campos ou coisa-que-o-valha. Falta-lhes genica, falta toda a magia do disco. Ainda assim, dá para dançar. Acabou por ser um princípio do fim amargo para todo o festival.

Mário Dias + Vítor Junqueira (DJ set)

O fecho propriamente dito fez-se com os DJs de serviço Mário Dias e Vítor Junqueira, que foram do bhangra indiano-inglês (com direito a uma versão deliciosa de “Rock the Casbah”, dos Clash, que já tinha sido passada no DJ set de quinta-feira) ao ska (da 1ª e 3ª onda), ao reggae ou ao dub. Uma verdadeira festa de encerramento, com pessoas a irem pela rua fora dançando para abandonar o recinto.


Foram três dias de música vividos intensamente por todos os presentes. Lendas vivas, desilusões, surpresas, houve espaço para tudo nesta 7ª edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines. Houve, especialmente, uma óptima organização da Câmara Municipal de Sines, tendo nós apenas a apontar como falhas a falta de caixotes do lixo e a música que nada tinha a ver com música do mundo antes dos Konono Nº 1 no palco da Avenida da Praia. Quando confrontados com a situação, os homens do som limitaram-se a responder “Quem não gosta, que se vá embora”.


Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
28/07/2005