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Legendary Tiger Man / Guta Naki – Sintra Misty
Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra
23/10/2011


Este Festival da Música e das Palavras decorreu entre os dias 13 e 23 de Outubro. Deveria ser, portanto, um evento outonal, reflexo do seu espírito intimista. Mas numa altura em que as estações do calendário não encontram grande correspondência na realidade, o Sintra Misty começou no Verão (com temperaturas a rondar os 30 graus e chinelos enfiados nos pés) e terminou no primeiro dia de Inverno, marcado por fortes vendavais e chuvadas a pedirem galochas.

Cátia Sá Pereira nega a chegada do “General Inverno” e canta descalça. A sua voz acompanha sons de guitarra, programações e arranjos electrónicos, apregoando desejos de um “Novo Mundo” ou a poesia de Fernando Pessoa, na melancólica beleza de “Margarida”. A vocalista de Guta Naki posiciona-se ao centro do palco, entre a guitarra de Nuno Palma e o baixo de Dinis Pires, cujas sombras se sobrepõem durante a projecção sonora da “Caixa”. Meia hora feita de crescendos e que termina com uma “Loseyland” de garra afiada. “Basta de Descobertas / Basta de Trabalhar / Basta de Viajar”

Paulo Furtado aka Legendary Tiger Man inicia a viagem estereofónica por caminhos de desejo e perdição na companhia virtual da bela Asia Argento, sussurrando que “Life Ain´t Enough For You”. De seguida dirige-se à bateria para tocar “These Boots Are Made For Walking” – versão gravada em dueto com Maria de Medeiros no celebrado Femina. Mas hoje não conta com a participação da filha do maestro Vitorino de Almeida para tocar o original de Nancy Sinatra, descendente do mais famoso crooner da História. O universo do Homem Tigre está povoado por tigresas, umas mais poderosas, outras mais frágeis ou lascivas – mas todas elas sedutoras. E é assim que, após incentivar o público a levantar-se das cadeiras para dançar à frente do palco – como já sucedera nos Coliseus –, mostra que Deus pode ser encontrado por baixo das saias de uma mulher, em “Light Me Up Twice”.

O percurso pode abrandar um pouco em “Hey, Sister Ray”, com as imagens sépia de Rita Redshoes a rodarem pelas duas telas, mas o imaginário deste man in black português é feito de vícios e jogos de sorte e azar. “& Then Came The Pain” acelera pela cidade fora, sobre os carris da paixão – que quase sempre acabam por proporcionar acidentes de percurso –, num one man show que apenas necessita de guitarra, bombo e tarola para tirar o escalpe ao rock. Se em “The Saddest Thing To Say” se limita a acompanhar o vozeirão (virtual, ao contrário do que sucedera no Coliseu de Lisboa, por exemplo) de Lisa Kekaula, nas músicas que antecedem o encore – composto “apenas” pelo inevitável “True Love Will Find You In The End”, original de Daniel Johnston e uma das músicas preferidas de Tiger Man – desliga as projecções visuais para concentrar energias no Diabo que tem no corpo e em todo o sangue azul que transporta nas veias.

Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net
24/10/2011