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Festival Músicas do Mundo
Castelo e Avenida Vasco da Gama, Sines
30/07/2011


O Festival Músicas do Mundo, cuja 13ª edição terminou ontem, preserva um carisma especial. Talvez por ser fruto da organização da Câmara Municipal de Sines, que se foca na essência (os sons oriundos dos cinco continentes) e não deixa o evento ser contaminado pelo acessório (enxurradas de marketing e circo mediático), como se verifica com outros congéneres, transformados em mais um pretexto para beber uns copos e conviver com os amigos. Por se tratar de um festival que oferece alguns concertos gratuitos – não só na Avenida Vasco da Gama como também no Castelo –, o FMM atrai tribos urbanas não muito habituais nos festivais de Verão mais famosos (e onerosos), mas entre freaks de rastas e alargadores também é possível tropeçar num senhor de meia-idade e aparência nórdica, que lê tranquilamente o jornal no seu iPad, sentado nas ervas que cobrem o recinto do Castelo, enquanto em redor se pula e dança.

A heterogeneidade do festival começa logo a insinuar-se com o primeiro concerto da tarde. Vinda da Ilha Reunião, Nathalie Natiembé sobe ao palco e canta a capella, espalhando poesia, antes de a banda se juntar a si. Aí vão surgindo camadas de sons, entre o maloya, ritmos tribais e aromas trip hop. Música tradicional mestiçada por influências modernas, mas que mantém uma pulsão primordial e apela à dança. No comunicado do FMM, pode ler-se que Nathalie era uma forte candidata a revelação do festival – não estou em condições de o confirmar, pois não estive presente nos outros dias, mas Yann Costa (o seu teclista, que tocou descalço) apresentou, sem dúvida, o penteado mais original da derradeira jornada musical: de cabelo rapado e penacho tingido de vermelho, foi debitando riffs enquanto o baixo e a bateria trepavam paredes e a vocalista recorria a utensílios diversos (como um megafone) para amplificar a intensidade sonora dos instrumentos em carrossel.

Desce-se até à Avenida Vasco da Gama (serpenteando entre bancas de tererés e t-shirts do fenómeno estival Hélio “Sai da frente, ó Guedes!” Imaginário) para apanhar um pouco do concerto dos CaBaCe. Portugueses de passaporte, mas com sons de outras coordenadas a correr nas veias. Afro(soul)beat partilhado pelos instrumentos e pelas vozes de Dawda e Ingrid Fortes (presenças que conjugam força com sensualidade), desdobradas em crioulo, português ou francês. Recebem a visita de Junior, dos Terrakota, nas congas, e no final partem para uma viagem agitada pelas ilhas de Cabo Verde.

Esta ilhas estariam, de seguida, muito bem representadas no Castelo. Já de noite, Mário Lúcio (actual Ministro da Cultura de Cabo Verde) entraria no palco vestido de branco da cabeça aos pés espalhando música e conciliação. O fundador dos Simentera, que passaram pelo FMM em 2003, começa por dizer que na véspera discutira o Estado da Nação cabo-verdiana e que era com igual prazer que naquela altura se apresentava ao Mundo em Sines, perante a diversidade de que faz profissão de fé. A música leva-nos da sua aldeia até uma ilha perdida no Senegal, por vezes tem um suave passo sambista e noutras alturas passeia-se pelas Caraíbas. Se uma das maiores contribuições lusas para o mundo foi a mestiçagem, Mário Lúcio (para quem a humanidade é como que a mistura de todos os grãos de areia de todas as praias do mundo) é um excelente embaixador do cruzamento de sangues e culturas. Não será por acaso que após a sua sentida interpretação de “Sodade”, deixa um apelo - «Façam meninos bonitos!» e deixa uma garantia: A partir de hoje, isto não é Sines, é Sinergia!»

Era previsto que a actuação de Sly & Robbie encerrasse as actividades no Castelo, mas uma alteração no alinhamento (a pedido dos jamaicanos) fê-los antecipar a actuação. Não terá sido, assim, a apoteose esperada – em parte devido a esta mudança, mas também porque a banda liderada por Sly Dunbar e Robbie Shakespeare não se limita ao reggae para entreter massas. Preferem partir de clássicos como “Conference”, “Rivers of Babylon” ou “Rasta Man Chant” para digressões que aceleram na secção de metais ou descansam em terrenos dub (quem também descansou, mas junto ao amplificador, enquanto fumava cigarros, foi o guitarrista, eleito personagem fotogénica do festival por um exclusivo júri), introduzindo elementos electrónicos ou ritmos negros. Sly & Robbie não são apenas a mais histórica dupla rítmica da música jamaicana – o que por si só já seria imenso –; são groove e experimentalismo permanentes, fruto de uma rara alquimia entre baixo e bateria. As músicas nunca são lineares, antes viagens por galáxias mais ou menos (des)conhecidas. Vão-se revezando vocalistas antes de entrar em cena Delroy “Junior” Reid, que atingiu o estrelato com os Black Uhuru. Ensaiou pontapés de moinho, fez flexões, e cantou o hino “One Blood”, entre outros temas, antes de terminar a actuação.

Para início de fim de festa (na Avenida ainda tocariam os Kumpania Algazarra), uma junção entre Marrocos e o Senegal. O que melhor descreve a música e a actuação do colectivo Aziz Sahmaoui & University of Gnawa é hipnose. Dos coros que ecoam como orações; dos ritmos que conduzem a um crescendo transe; das cordas (do guembri à guitarra) que trepidam numa repetição litúrgica. E é sob o feliz casamento entre a musicalidade senegalesa e os ritmos do deserto que se assiste ao fogo-de-artifício, necessariamente multicolorido num festival multicultural. Se durante a actuação de Lee “Scratch” Perry, há dois anos atrás, o fogo acrescentara (ainda mais) surrealismo à lendária figura jamaicana, desta feita esteve em perfeita sintonia com o que se passava no palco e no recinto. A música gnawa pretende colocar os ouvintes num estado superior de consciência, e os foguetes que marcaram o fecho do 13º FMM iluminaram o céu com a tal Sinergia de que Mário Lúcio falara horas antes.

Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net
31/07/2011