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PAUS
Lux, Lisboa
17/02/2011


Começando ao contrário, que esta foi a última vez; mas também a primeira. Se qualquer concerto se quer uma experiência única, estas datas em que os PAUS levaram convidados especiais ao Lux, foram irrepetíveis. Ontem os convidados foram Chris Common, baterista dos These Arms Are Snakes – anunciado atempadamente –, e a surpresa da noite: os Tocándar.


Antes da banda da bateria siamesa subir ao palco, já os membros do grupo de percussão vindo da Marinha Grande estavam entre o palco e a plateia, fazendo ressoar os bombos de pele de cabra. Quando os PAUS entram em cena, acompanhados por Chris Common, entra-se numa renovada dimensão de intensidade, que cruza electrónica com electricidade, noise-rock e psicadelismo. O som é visceral, ao mesmo tempo cru e polido. Uma harmonia surpreendente que se entranha.


“Pelo Pulso” termina com um ataque sonoro pouco aconselhável a quem não gosta de sentir coisas estranhas a percorrer o diafragma e o duodeno. Segue-se um novo tema (ainda sem nome) do futuro álbum dos PAUS, e Albergaria canta um pouco mais do que é habitual neste projecto. “Mudo e Surdo” encosta a sala ainda mais às cordas – leia-se “ao palco”. Esta música brota de forma ainda mais acelerada do que o costume, muito por culpa do triângulo formado pelas baterias. Se o tango se dança a dois, são necessários muitos mais para acompanhar o som de PAUS.


O set fecha com “Mete As Mãos À Boca” (após “Salsa Galáctica” e “Lupiter Deacon”), para mandar os maus-olhados para aquele sítio – sim, o caralho. Os Tocándar surgem transfigurados em caretos, e a música com eles também se transforma. Ganha mais corpo e alma, que levita pelo andar térreo do Lux. Makoto também percute um bombo, como se convocasse a aldeia para a batalha.


“Obrigado! Obrigado! Obrigado! Em meu nome e da Amália” – despede-se uma das barbas mais carismáticas da música portuguesa. Numa noite europeia em que um paraguaio causou estragos frente a uma equipa alemã, a aliança luso-americana espalhou veneno por Santa Apolónia. Um único senão – a curta duração do último “Só Desta Vez”. Mas o que se perdeu em minutos ganhou-se em pujança. E em vontade para outras vezes.

Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net
18/02/2011