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JP Simões
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
07/01/2011



Porque motivo iria JP Simões subir ao palco da ZDB no início de 2011? Apresentar um disco novo, imaginavam algumas almas. O cantor entrou no “aquário” da Rua da Barroca com um pequeno atraso em relação ao timing previsto (mas longe já vão os tempos do famoso “meridiano ZDB”) e começou por explicar que não há disco novo nenhum e quem tivesse ido ali à espera de ouvir esse disco podia ir logo embora. Quem estava oficialmente anunciado para acompanhar Simões no palco era o guitarrista Afonso Pais, autor do belo disco Fluxorama, mas este acabou por não poder comparecer e JP teve de se safar num quase absoluto solo. Ainda para mais, o cantor estava engripado, com sintomas bem visíveis. Apesar dos constrangimentos, e apenas acompanhado por um guitarra acústica, JP Simões mostrou porque motivo é considerado um dos mais interessantes “cantautores” (palavra péssima, mas evita-se o estrangeirismo) da nossa terra. Aquela voz de rádio é inigualável, mas destaca-se especialmente a forma como trabalha as palavras (um “storytelling” que combina emotividade com ironia subtil) e as embrulha nas melodias doces e melancólicas.

Não foi um concerto “best of”, longe disso. Sem passar por êxitos antigos, o concerto incluiu alguns inéditos e novidades, como por exemplo "No Havai e no Tahiti, no Haiti" – canção que já havia sendo desvendada no concerto do Museu do Chiado (em Agosto do ano passado) e dá ares de se tratar de material da melhor colheita. O alinhamento deste concerto contou ainda com várias versões, como “Inquietação” de José Mário Branco (que já faz parte do seu repertório oficial), “Máscara” de Francis Hime (como dizia o outro, “o Francis aproveita p´ra também mandar lembranças”) e “Tatuagem” do inevitável Chico Buarque – relembremos que a carreira solo de JP tem sobrevivido ao pesado rótulo “Chico Buarque lusitano”.

Com um sentido de humor apurado, o cantor escondeu a gripe e deu um bom espectáculo, que contou com a participação ocasional de Sérgio Costa e Rui Alves (em apenas dois ou três temas). Estas canções agridoces, pintadas com tonalidades depressivas e fina ironia, não perdem qualidades com o passar do tempo. Um dos pontos altos foi a interpretação de “Música Impopular”, belíssimo tema que merecia contrariar o destino do título - e pelo meio JP foi brincando a imitar os clichés dos músicos de intervenção dos 70´s. O final chegou com dois encores, duas músicas valentes guardadas para a despedida: “1970 - Retrato” (a cantiga que que arranca com aquele verso “A minha geração...”) e “Se por acaso (me vires por aí)” - dois temas obrigatórios do já clássico 1970. Sempre impecavelmente subversivo. Não se pode pedir mais a um homem doente.

Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
10/01/2011