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Festival Sintra Misty: Foge Foge Bandido / Mark Kozelek
Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra
16/10/2010


Na sua edição de estreia, o Sintra Misty conta com as propostas certas para que as pessoas usufruam das boas estradas que ligam Lisboa a Cascais, em vez de ficarem em casa a ver a casa dos outros. A página oficial do Festival indica um programa dentro da “pop, folk, rock e electrónica” e, nas entrelinhas, lemos também a vontade de bater o pé à centralização lisboeta trazendo até Sintra nomes fortes do panorama nacional e internacional (e um artista sem fronteiras como Rodrigo Leão). Tal como nos livros, Sintra é uma daquelas cidades que parece ter sido inventada para um passeio de Outono e a noite de sábado está agradável. Com toda a calma do mundo, é possível beber uma imperial ou um copo de vinho junto à porta do Auditório Jorge Sampaio, que cumpre as funções de palco principal, e essa é também uma regalia a ter em conta no futuro. Entender o sistema de palcos – 3 em 3 dias - ainda representa uma pequena aventura, mas o nome Misty e a cidade de Sintra sugerem à partida o charme de um episódio do Scooby Doo e isso também diverte.

Lá dentro, os índices de ansiedade são impressionantes entre a juventude (Zacarias e a turminha de premiados da Antena 3) que reza o terço até que Manel Cruz apareça em palco para sortear algumas das muitas canções que giram na tômbola do duplo disco de Foge Foge Bandido, O amor dá-me tesão / Não fui eu que estraguei. Depois de ter dado voz aos Ornatos Violeta, que serão uma das bandas mais estimadas pela geração da flanela, Manel Cruz consegue aquela rara proeza de renovar o seu público sem concessões ou mudanças extremas. É de aplaudir. Apesar da natureza de projecto pessoal para espairecer as canções guardadas dentro do armário (durante 10 anos), os Foge Foge Bandido são agora um quinteto com bateria, guitarra (uma ou duas), baixo, percussão e uma variedade enorme de instrumentos menores. As canções, que nascem umas dentro das outras como matrioskas, oscilam entre estados de consciência e semi-consciência: começam, perdem-se em sons de rua e interlúdios livres, retomam depois a linha pop e voltam a ser canções. Nessa corrida entre compartimentos da canção, Manel Cruz é um daqueles atletas inquietos que surge sempre no lugar certo e que, mesmo quando parece errado, faz com que isso soe perfeitamente lógico numa canção de Foge Foge Bandido.

Entretanto Manel Cruz despe a t-shirt e instala a perdição entre quem ali estava também para ver o tronco do Iggy Pop de São João da Madeira (acreditem: houve alguém que guinchou). O ritual parece natural num letrista que descobre sempre maneira de ser adorável nas considerações sobre a ejaculação: é isso que acontece na narrativa d’”Uma Historinha” (momento alto no Olga Cadaval), tal como acontecia nos versos da velhinha “Líbido”, dos Ornatos Violeta (Eu nem digo dou duas sem tirar / Quem sabe até tiro antes de acabar). Nunca é tarde para lembrar que, antes de B Fachada, houve um Manel Cruz neste ímpeto de expor nas canções tudo aquilo que devia permanecer no segredo das nódoas do lençol. Os Foge Foge Bandido saem de palco uma hora e pouco depois e ainda havia muita gente a querer mais. Fica a ideia de que Manel Cruz tem (e merece) alguns dos melhores fãs do país (que até lhe cantaram os parabéns espontaneamente na noite do seu aniversário).

O avião da euforia aterra assim que alguém avista o rosto de Mark Kozelek em Sintra. Ali estava o senhor das mil conjugações da melancolia americana sozinho com uma guitarra; a voz que funciona como paisagem à parte; o guardião de um vasto cancioneiro, que melhora quando apreciado em profundidade; o homem facilmente confundível com um género que inventou praticamente sozinho a partir de canções lentas e discretas, que germinaram nas costas de um tempo muito mais atento ao fuzz acelerado das guitarras de Seattle. Mark Kozelek começou por ser uma cosa nostra e agora é uma cosa molto nostra.

A lenda do songwriter geralmente perturbado em palco confirmou-se também num concerto em que Kozelek nunca deixou de desabafar divertidamente sobre os cochichos do público. Incomodado com a intensidade das luzes, Kozelek aproveita a certa altura o silêncio para solicitar uma opção que o fizesse parecer menos gordo (risos). A resposta tarda e o senhor dos discos cinzentos dirige depois algumas palavras ressabiadas ao técnico de iluminação acabando por dizer que este devia ser “atrasado mental”. Pede desculpa por isso no intervalo seguinte e não fala muito mais a partir daí.

Todavia as canções não sofrem com esses percalços e soam tão cristalinas no Olga Cadaval como nos discos, além de que Mark Kozelek é um impecável executante da guitarra (na qual se escuta muitas vezes a influência ibérica). A noite termina com “Church of the Pines”, retirada do recente e muito presente Admiral Fell Promises, que é também uma excelente forma de explicar, em seis minutos, como Mark Kozelek continua a ser capaz de escrever arranjos superiores a favor de uma bonita canção (numa altura em que os Sun Kil Moon passam a ser só ele). Faltou, mesmo assim, aquela sintonia - impossível de ser forçada - que faz com que a memória de alguns concertos resista ao tempo e surja anos mais tarde em conversas de fervorosa nostalgia. Num país em que a adoração é mútua (o músico deu à sua própria label o nome do Caldo Verde), Mark Kozelek estava quase a jogar em casa e isso nunca foi tão constatável como se esperava no grande Auditório (talvez demasiado abatido com o anti-clímax pós-Foge Foge Bandido). Nada que tivesse impedido Kozelek de proporcionar aquele conforto que embala a criança no banco de trás do carro e que a leva depois em braços até à cama sem acordá-la. Voltar a viver essa sensação foi o que bastou.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
17/10/2010