bodyspace.net


Outfest - Oneohtrix Point Never / Panda Bear
Casa da Cultura, Barreiro
09/10/2010


Mal as luzes se apagam e uma pequena centelha vermelha persiste em palco iluminando Daniel Lopatin, abrindo espaço para que seja nos sons que emanam dos seus sintetizadores que se concentrem todas as atenções, ficamos com a sensação de que não estamos "apenas" perante um músico, mas com alguém que privou de perto com seres alienígenas - ou não lhe fosse tantas vezes colada a etiqueta kösmiche.

De facto, há muito que não nos era permitido sonhar tanto com o espaço; acontece graças a Lopatin, ou Oneohtrix Point Never, nome também este apontando ao infinito, juntamente com outros nomes que têm surgido no mundo electrónico pós-Boards Of Canada. Mesmo que tenha pecado por escasso, foi o suficiente para que o Barreiro se sentisse um pouco mais Cabo Canaveral, seja pela força dos sintetizadores (Gastei 5€ para ver esta barulheira?, afirmava um fã menor de dez anos) ou pelo resgate de canções muito vagamente parecidas com a pop suave dos eighties. Poucas vezes tivemos a sensação de estar a ouvir vários temas em seguida e não apenas uma longa peça, fruto da habilidade de Lopatin entre os seus instrumentos.

Pecados a apontar? Talvez a não inclusão de "Physical Memories", épico de dez minutos a soar há meses em certas cabeças. Uma viagem espacial, portanto, sem direito a souvenir - mas onde restarão as memórias de uma noite em que a magnitude das estrelas e planetas em redor se sobrepôs à chuva torrencial. Hajam mais viagens assim. PC

O mundo adora parar para ver grandes jogadas. Toda esta comichão provocada por Tomboy, o eminente disco de Panda Bear ainda sem data de lançamento, sufoca como os segundos que antecedem um call gigantesco no poker ou um penalty para bater no Clássico (agora só há um). As muitas fichas de aclamação e influência, acumuladas com Person Pitch, quase não deixam ver o seu discreto criador, mas estão todas em jogo neste novo álbum - um Tomboy que, ao deixar cair o sample, fica com as mãos vagas para a guitarra, numa série de canções muito mais centradas num motivo (um riff em vários casos) do que levadas pela flutuação doce de Person Pitch.

Não é todos os dias que tão fascinante representante da canção se atreve a arriscar desta maneira - e a muito carismática Casa da Cultura do Barreiro fica perto de encher para assistir a isso mesmo. Tomboy, como experiência em concerto, parece agora ser um filho quase formado, em vez do puto que dava os primeiros passos nos concertos do Lux, no passado mês de Fevereiro. Panda Bear está mais seguro na forma como leva a voz a cirandar pelas músicas e dinâmico na transição entre legados (houve “Daily Routine” e “Guys Eyes”, da banda-mãe Animal Collective, e “Ponytail” e “Comfy in Nautica”, do disco anterior). Os novos jogos rítmicos, por sua vez, invocam alguma da técnica do santo J Dilla aproximando-o um pouco mais do fundo do mar (onde o produtor parece andar durante esse milagre de reverb que é “Nothing like this”). Lá no alto, perto da mesa de mistura, Danny Perez, o principal esteta visual dos Animal Collective, manda vir um torrencial de montagens alucinadas, que não aconselharíamos a epilépticos, mas que, por duas ou três vezes, proporcionam momentos verdadeiramente mágicos ao Barreiro e a sensação de bom happening (como os Daft Punk numa herdade alentejana).

Mágicas foram também as passagens por “Benfica” ou “Slow Motion” (lado B, do single Tomboy, com toda a glória de um lado A). Prontamente recebido com alguns assobios de entusiasmo, “Benfica” está cada vez mais radiante na sua essência de hino deslumbrado pela anti-gravidade de David Luiz e Luisão, quando se elevam na grande área. No grande ecrã, vemos algumas imagens de miúdas histéricas perante os Beatles (omissos), ao mesmo tempo que Panda Bear canta sobre a importância de ganhar. Ainda não sabemos ao certo se Tomboy vence na sua aposta em hábitos renovados, mas, no Barreiro, Panda Bear sacudiu a pressão para longe. MA

Paulo Cecílio e Miguel Arsénio