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Laetitia Sadier
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
18/03/2010


"Solidão! Saudade! Romagens! Romarias!" Toda a letra de Adolfo Luxúria Canibal ("1º de Novembro") se tornou realidade na noite de 5ª para 6ª na ZdB. Até os "Queridos defuntos", se pensarmos na ausente Mary Hansen (descanse em paz). Pois aquilo que tivemos foi um público em número simpático que rumou ao Aquário mais famoso de Lisboa para ver, sozinha em palco com uma guitarra eléctrica, a voz que tantos e tantos bons momentos ofereceu aos melómanos à frente dos Stereolab, banda que está em hiato por tempo indeterminado desde o ano transacto.

Ostentando grande dose de simpatia, comunicabilidade, e, diga-se de passagem, um sorriso lindíssimo, Laetitia começou logo por exibir os parapapara que são sua marca registrada desde há muitos anos, e que se viriam a repetir diversas vezes ao longo da curta sessão, que não chegaria à uma hora de duração. A sua voz e sentido e fórmula melódica estão bem vivos, não denotando grandes diferenças em relação ao universo dos 'Lab. Estão lá as frases que lembram assobios de brisas quentes, as reminiscências do easy-listening, da chanson e do indie-pop, a maneira muito própria de colocar ritmo no fraseado e nas palavras, o efeito de novelo a desenrolar-se que percorre uma canção de princípio a fim. Prometeu que no disco, com saída prevista lá para Agosto, as músicas terão uma banda a acompanhá-la. Por agora, é assim na solidão do palco que tiveram que sobreviver, e não se saíram nada mal. Faltará ainda um maior domínio da situação - houve alguns enganos na guitarra - e deixar as músicas amadurecer um poucochinho mais. Pode ser que então os que falavam da ausência do famoso Farfisa da sua banda se abstenham mais da sua falta.

Pouco depois de agradecer à parte do público que NÃO pediu músicas dos Stereolab (a maioria), Laetitia viria a fazer a despedida com uma versão do duo feminino dos 60s Wendy & Bonnie, que encaixou muito bem no seu repertório. A julgar pelo que ouvimos, há aqui material para colocar sem pruridos nem envergonhamentos ao lado de tudo quanto Laetitia já criou antes. Quando as palavras parecem formar-se assim de forma tão natural e fresca, o ideal é usá-las como um surfista usa ondas de 2-3 metros. E aqui pouco importa que não vá haver nenhum rebentamento.

Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com
19/03/2010