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Fuck Buttons / Nimai
Plano B, Porto
30/10/2009


Batida repetitiva. Prolongar durante dois minutos. Contar os tempos. Espalhar ruído sobre a batida. Contar os tempos. Retirar ruído. Pegar no microfone, berrar como os Wolf Eyes, mas soar a banda emo das fraquinhas. Voltar à batida. Próximo tema. Repete tudo outra vez.

Foi assim que se me afigurou o primeiro dos dois concertos dos Fuck Buttons em Portugal (o segundo é hoje, na Zé dos Bois, em Lisboa). A banda tem o estatuto de estrelas indie, conquistando alguma da comunidade noise/experimental menos militante e gente que habitualmente descarta esses territórios. É esse o mérito dos Fuck Buttons - estarem nesse limbo, onde poucos estão - e é também o seu problema, já que, na verdade, o que fazem é ir ao underground buscar o desafiante e comodificá-lo, sorvendo qualquer excitação que restasse, apresentando-o a um público mais vasto.

No novo disco, Tarot Sport, o duo aposta a fundo em pôr a electrónica do primeiro disco ao serviço da pista. E assim foi no Porto. O que os Fuck Buttons levaram ao Plano B foi música que tem a euforia como meta, mas que só a atinge por segundos (há uma ideia por tema explorada até à exaustão, numa constante autofagia); música repetitiva, mas que não proporciona qualquer voo. Música sem espaço para descodificações, surpresas, falhas. Clínica, asséptico, o contrário da música desafiante. Pop genérica travestida de música de dança para malta noise ou música noise para a malta das pistas. Música que nem é eufórica e divertida como a música de dança pode ser, nem questionador como o noise deve ser.

Há algo de estranho numa banda como os Fuck Buttons. Apesar do exposto, eles sabem onde ir buscar as boas ideias ("Surf Solar" tem um início que é um pastiche dos Animal Collective, "Olympians", um dos momentos em que foram mais interessantes, põe uma melodia delico-doce sobre um mar de ruído, evitando engoli-la totalmente pela omnipresente batida, há ecos dos Black Dice aqui e ali), mas não as suplantam. Pelo contrário: cercam-nas de electrónica previsível, sem dinâmica, nem catarse.

Antes dos Fuck Buttons, os portuenses Nimai mostram bons sinais da sua evolução enquanto duo. Quando se aproximaram de linguagens electrónicas menos catalogáveis, como no primeiro tema, que lembrou um Aphex Twin interessado no noise, ganham pontos, ao contrário do que quando se dedicam ao território onde começaram, próximo da melancolia dos Radiohead ou dos Mùm. Não lhes faria mal uma maior concisão de ideias, mas estão no caminho certo.

Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com
01/10/2009