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Super Bock em Stock
Lisboa
03-04/12/2008


Na sua edição de estreia, o Super Bock em Stock cumpriu um dos seus principais objectivos: colocar gente a transitar na calçada da Avenida da Liberdade, entre cinco salas votadas a diferentes alinhamentos: Cinema São Jorge (1 e 2), Teatro Tivoli, Teatro Variedades (no Parque Mayer) e Cabaret Maxime. A escassez de lugares para estacionar o carro (meia-hora para encaixar o meu na Praça da Alegria!) e o burburinho nas ruas confirmavam a significante afluência. Durante duas noites, intensificou-se o tráfico de testemunhos entre as diversas salas e o festival fez-se da experiência própria, assim como dos relatos interceptados:O Rui Reninho sóbrio não é o mesmo…, A Lykke Li cantou com um megafone! Amo-a.. Ouviram-se também queixas de quem ficou à porta deste ou daquele concerto (por lotação esgotada, compreende-se) e, no Cabaret Maxime, algumas mesas reservadas por determinada operadora de telecomunicações permaneceram vazias até se perceber que a restrição era insustentável. They got the chairs, but we got the numbers. MA


Cabaret Maxime Norberto Lobo, Jack Rose, A Fine Frenzy, El Perro del Mar

No primeiro dia, um dos peões ao serviço do Bodyspace adoptou a estratégia sedentária e fez de um camarote do Cabaret Maxime o seu posto de vigia. O plano surtiu algumas recompensas e um penoso castigo, como adiante se perceberá. Devido a um +, que unia os nomes de Jack Rose e Norberto Lobo no cartaz, podia-se até julgar que os guitarristas actuariam em conjunto. Era interessante a possibilidade desse diálogo, mas não é menos preciosa a oportunidade de assistir separadamente às prestações de dois dos mais excepcionais executantes da guitarra acústica respectivamente localizados nos Estados Unidos e em Portugal. Jack Rose, que alguns reconhecerão também como membro do mais enevoado trio Pelt, conquista em pouco tempo o Maxime, quando, em alucinante cadência de registos (da folk purgada ao sentido acumulativo da raga indiana), consegue provar que “contar uma história” pode também ser uma tarefa não-verbal. Quase custa a acreditar que seja uma só guitarra a responsável por toda aquela quantidade de notas encarriladas. O mesmo aplica-se a um Norberto Lobo, que a certa altura admitia a dificuldade de suceder a Jack Rose em palco. Mais sujeito a deslizes que contribuem espontaneamente para a autenticidade do momento, Norberto Lobo é o seu peso em alma bruta, enquanto passeia os dedos pela guitarra como um mensageiro que reinvoca o astral e magia vividos noutra altura mais ou menos recuada. Voltem sempre.

Depois de tão sublime viagem embalada pelas cordas dos dois guitarristas inestimáveis, é ainda mais doloroso todo o esforço mental perdido na tentativa de explicar o surgimento tortuoso de A Fine Frenzy, aliás da bem aparentada menina Alison Sudon, que, na companhia de um teclista e de um baterista que muita falta fazem na Banda da Rua Sésamo, alterna pop FM inacabada com um comportamento tão fabricadamente dócil que sujeita os dentes mais próximos a um apodrecimento precoce. Chega a ser violento submeter qualquer atenção ao histerismo e emotividade aberrante de inutilidades como “Lifesize” ou “Last of Days”. Posto isto, todas as minhas despesas médicas durante os próximos 4 anos devem ser remetidas ao cuidado de Sir Richard Branson (patrão destes A Fine Frenzy). Não era preciso ir tão longe para descobrir tão paupérrimos herdeiros dos Six Pence None the Richer ou coisa que o valha.

Sem qualquer culpa que a responsabilize pela calamidade A Fine Frenzy, El Perro del Mar, a sensação da muito badalada pop sueca, era obrigada a um empenho suplementar para redimir uma noite que – em jeito de funil - terminava ali (num Maxime repleto de gente, por ser opção única após a meia-noite). A julgar pela cara de poucos amigos e nariz empinado exibidos, a beldade Sarah Assbring podia estar igualmente insatisfeita com tão sofrível espera, ou simplesmente remetida à sua postura habitual (são bem vindos os e-mails de quem já a tiver conhecido a outras noites). As canções, por sua vez, permanecem intocáveis (demasiadamente talvez) no seu altar de candura e ingenuidade capazes de figurar no horário nobre do Canal Panda programado por quem venera a pop das décadas de 50 e 60. Desta vez, a Miss Assbring contava com a companhia de um compatriota que, além de condizer no estilo Jean Paul Gaultier, combinava também nas harmonias e nos coros fugidios oferecidos a alguns temas. De rompante, logo nos primeiros vintes minutos, ateia-se lume brando a “I Can’t Talk about it”, “Party” e “Candy” (peças-chave no estabelecimento da identidade El Perro del Mar aquando do seu debute). Sem mácula aparente, mas também sem uma inspiração que eleve as canções ao panteão que prometem em disco. Ao piano, houve tempo para algumas passagens (incluindo “Do Not Despair”) por From the Valley to the Stars, que, conforme indica o título, é disco apontado a um plano mais ambicioso, onde se sucede a permuta da simplicidade original por alguns arranjos quase galácticos (obtidos com instrumentos muito peculiares). Não é de admirar que tenha sido a primeira colheita de El Perro del Mar a dominar uma presença muito morninha. MA


Teatro Tivoli Santogold

A sério. É como se Santi White percebesse que não é pelo rock que vai lá. Dizem que, sem ele, seria apenas uma M.I.A. de segunda categoria. Mas a parte rock dela é de quarta ou quinta categoria. E é como se, ao vivo, tivesse mesmo noção disso. É que faz a festa quase sem precisar dele.
Traz um DJ, o brasileiro DJ Martelo, que faz um mini-set para aquecer e dispara as batidas e algumas vezes a própria voz dela em algo que quase parece playback, mas depois nota-se não ser (por vezes essas vozes funcionam quase como um hypeman). E, além dele, duas dançarinas que, claramente inspiradas nos S1W – Security of the First World, os dançarinos militares que acompanham os Public Enemy –, lhes dão 10 a 0 em termos de coordenação e pura adorabilidade.
É pouco tempo: não há muito na discografia dela, para além um disco assim-assim, singles monstros e uma óptima mixtape com o DJ Diplo, Top Ranking. Por isso não há tempo para aborrecer o público. Santi é uma animal de palco incrível, dança estupendamente bem (com e sem estar coordenada com as dançarinas), canta e faz a festa. Pergunta se há fãs de Wu-Tang Clan e depois de Clash, antes de entrar a sua versão de "Guns of Brixton" (que é "Guns of Brooklyn"). Sabe que "Lights Out" seria uma óptima canção se tivesse um arranjo diferente (ou se a sua banda de suporte fossem as Sleater-Kinney), e esconde isso ao usar a versão da mixtape que em vez das guitarras banais tem "Comfy in Nautica" de Panda Bear ao vivo. Também usa "Get it Up", malha enorme que fez com Esau Mwamwaya, infelizmente sem a parte dele (também não há o verso de Spank Rock em "Shove It", produção dub do falecido Disco D). Acaba com "Creator", uma canção que M.I.A. nunca faria porque não tem voz para isso, apesar de ser produzida por Switch, e o melhor momento da sua carreira.
E é por aí que ganha. Não é M.I.A., deve ser bem melhor que ela ao vivo, pelos relatos, faz a festa e usa quase só o que tem de bom para dar ao mundo. Nem precisava de ser boa ao vivo, podia passar o resto da carreira a fazer anúncios da Converse e a licenciar canções para episódios do Gossip Girl. Apeteceu-lhe ser boa e foi. Ainda bem. RNTeatro Tivoli The Walkmen


A seu favor, os Walkmen contam com algumas qualidades que os descolam de muito subproduto vendido como a mais representativa entidade do rock nova-iorquino desde os Velvet Underground. Em primeiro lugar, tal como se percebe no Tivoli, os rapazes privilegiam o entrosamento e condensação de energia acima de uma pose que os saliente como banda elegante preparada para noite de gala. Como em poucos casos deste campeonato, há por aqui alguma fibra Dischord (adquirida na gestação em Washington) e uma amostra credível do caule que só pode ser adquirido na rua. Há também um single chamado “The Rat”, que é o “Creep” dos Walkmen. Noah Lennox, cidadão lisboeta mais conhecido por Panda Bear, reaproveitaria o termo usado para os Xutos & Pontapés e Guided By Voices e diria que são basicamente dudes a tocar rock (o vocalista parece-se um pouco com Dennis Quaid, o guitarrista principal não anda longe de um Keanu Reeeves aluado). Sim, tipos que alternam entre o aperfeiçoamento e a distorção de fábulas de angústia e contos de coração fracturado, em palco intensificados por uma formação variável que chega a ter duas guitarras, clavas e um órgão que se alastra. Os Walkmen precipitam-se no aumento da temperatura, até um ponto insuperável, quando jogam os seus principais trunfos de popularidade demasiado cedo: em segundos, “The Rat” virou a casa do avesso e o público passou de diagonal a fervorosamente vertical, “In the New Year”, tema de expectativas exacerbadas surgido no último You & Me, reclamou o seu lugar como alicerce obrigatório dos concertos de Walkmen daqui em diante. Com a estabilização de um fulgor que esmoreceu em “Canadian Girl” e noutros pontos menos cativantes, foi-se instalando um ambiente de baile de finalistas sofisticado propício a reencontros e a anedotas segredadas ao ouvido (O gajo às vezes não parece um bocado o Rod Stewart a cantar?!). Alguém, evidentemente confuso, reclamava um encore gritando:Interpol! Interpol! A decisão dos Walkmen foi, contudo, inflexível. Deve ser lindo perder uma namorada lá no Brooklyn. MA

Miguel Arsénio / Rodrigo Nogueira