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Japanese New Music Festival
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
25/04/2008


Percebe-se, a partir da amostra que ofereceu o Japanese New Music Festival, que, enquanto conceito e designação que delimita um colectivo que inclui sempre mais um, o esponjoso monstro Acid Mothers Temple admite as mais variadas fusões, variantes e ramificações. Normalmente, é um nome que fica bem no lugar de chancela que indica colheita de qualidade importada a partir de um Japão teimosamente psicadélico (e, neste caso, reincidente nas capas com mulheres (semi-)nuas que embelezam as paredes de lojas de discos com bom gosto). É, além disso, veículo que se dá a manifestações muito mais humoradas do que aquelas que esperaria o apreciador ocidentais de uma turba de gente que usa extensos cabelos e barbas como se esses se tratassem de turbantes capilares. Acid Mothers Temple representa, enfim, sinónimo de pau para toda a obra e assim foi realmente: apesar de somente o principal dos seus membros nucleares estar presente – o alucinado guitarrista Kawabata Makoto -, a noite avançou de forma eclética e generosa em termos de formatos inéditos, mas denunciou um pouco a ausência da real thing que o quarteto completo oferecera há sensivelmente seis meses atrás na mesma sala.

Mesmo assim, a tripla lacuna que resultou na omissão da tal real thing conheceu sólida compensação na presença de Tatsuya Yoshida, metade dos justificadamente lendários Ruins, que mais adiante haveria de provar que a sua presença visava mais do que fazer número. Por altura do início da noite, Tatsuya Yoshida juntou-se a Kawabata Makoto para a paródia denominada Akaten, duo debochadamente entregue à produção de um volume instável de ruído através do aproveitamento de objectos comuns (descobertos acidentalmente por perto). Quando os dois propagam o noise turbulento captado aos fechos éclair do casaco (de Tatsuya) e braguilha das calças (de Kawabata), torna-se imediata a constatação há por aqui sátira apontada à falta de ortodoxia e desmedido teor inventivo de alguma música improvisada japonesa.

A desertificação da seriedade dá lugar a um sincronizadíssimo épico de ritmos múltiplos quando o palco passa a pertencer a Ruins Alone, o que equivale a Tatsuya Yoshida sentado à bateria pronto para defrontar – em showdown matemático - o processador Deep Blue previamente programado em forma de gravação que reúne todo o laborioso e presumivelmente infinito serpentear prog do baixo de Hisashi Sasaki (a outra metade (ausente) dos Ruins). Entre gritos kamikaze e uma precisão técnica capaz de intimidar o mais calibrado dos bateristas, Tatsuya Yoshida deixa bem claro, ao longo do constantemente mutável desfilar Ruins, que não acumulou em vão o estatuto de padrinho espiritual de referência para duos incendiários como os Hella ou Lightning Bolt.

O testemunha troca de mãos e, sem mais demoras, é Kawabata Makoto que pisa sozinho o palco, tendo junto a si a guitarra, o arco que usou para arranhar as suas cordas e todo um temível exército de pedais que serviram, por vezes, para aproximar do insuportável as proporções de som puro que testaram uma vez mais a resistência das paredes da sala. Essa que passou de aquário a oceano infestado de namuras (a praga das águas que banham o Japão) à medida que Kawabata se perdeu num drone abissal para, bem perto do fim, se encontrar na guitarra do clássico dos Acid Mothers Temples, “Pink Lady Lemonade”, que, naquele contexto notoriamente saudoso, quase soou a “Wish You Were Here” dos Pink Floyd.

Sem mais demoras, o prato forte é finalmente servido com a entrada em cena dos Acid Mothers Temple SWR que normalmente contariam com o baixista Tsuyama Atsushi, caso este não tivesse adoecido e sido arredado da digressão. O imprevisto não impediu, em todo o caso, os AMT SWR de cumprir eficazmente (ainda que com algum espalhafato) aquilo que se espera deles: o estabelecimento de condições psicadélicas favoráveis à navegação por paragens das quais nunca sobra memória concreta (evapora-se à saída da sala), sem pesar sobre isso qualquer compromisso ou regra rígida. A tarefa é tangencialmente cumprida em formação de duo até ao momento em que se sucede algo de realmente especial: a prata da casa, Rui Dâmaso, baixista dos Loosers, junta-se aos dois sabres japoneses para uma investida de porte stoner que, na altura em que descobre o entrosamento certo, encontra os três instrumentistas a carregar às costas um mesmo Moai esculpido na Ilha da Páscoa pelo rock mais indisposto em responder pelos danos das suas armas (e estava bem carregadas). Algures, no meio daquele turbilhão, o cravo entalado no baixo de Rui Dâmaso ia resistindo ao sobe e desce de um groove que se alimenta de pó. Bem dita a liberdade que permitiu aos Acid Mothers Temple não deixarem de o ser, mesmo que em minoria absoluta.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
25/04/2008