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Curia / Barry Weisblat + Patrícia Machás
Cabaret Maxime, Lisboa
11/01/2008


Curia, ao contrário do que se julga, não é apenas uma bonita localidade no distrito de Aveiro. Ao invés disso, a Curia reúne as mais favoráveis condições para ser uma nação apátrida que engloba quatro estados independentes e, mesmo assim, representados por uma única bandeira que tem por signo um sol que solta raios trémulos à medida que ascende por entre uma falésia. Ainda a habituar-se às restrições impostas pela nova lei anti-tabaco, o Cabaret Maxime, no limiar que separa a semana do seu fim, aproveitou o momento de adaptação para abrir mente à noção de que a Curia – composta pelos membros referidos nos artigos mencionados em baixo – confia que as manifestações dos seus membros não eclipsam as dos restantes, que existe margem de permissividade para que cada individualidade declare um momento mais inspirado no manobrar do seu instrumento, sem que isso obrigue ao congelamento de tudo à sua volta. O profundo arco de Margarida Garcia não necessita de oferecer sinal verde ao marasmo físico que Manuel Mota imprime ao braço da sua guitarra wah, da mesma forma que Afonso Simões não é obrigado a moderar (ainda mais) a dispersão da sua bateria para que mais audível seja David Maranha na sua invocação do fantasma de Jimmy Smith às réplicas de órgão Hammond que trouxe consigo.

A Curia entende-se e a maior recompensa resultante disso acaba por ser a variedade de opções e prismas ao dispor de quem desejar mergulhar no caudal de “som puro”. Nem mesmo os separatistas ficariam desagrados se, em vez de uma só actuação por parte da Curia, se tivessem sucedido no Maxime quatro ocorrências isoladas. A riqueza da seiva que produzem os instrumentistas em palco a isso permitiria. A partir daqui o mais difícil será mesmo esconder a fome gerada pela vontade de devorar tudo aquilo que na Curia ainda é incógnita.

Encarregados de afinar os sentidos na etapa que antecedeu a Curia, o duo composto por Barry Weisblat (colaborador ocasional de Margarida Garcia) e Patricia Machás recorreu a um par de teclados e a aparelhos vários (alguns sensíveis à luz) para suster a progressão de um liso drone à medida que o mesmo ia sendo golpeado por minúsculas interferências e texturas cruzadas.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
11/01/2008