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Festival Sònar
Barcelona
14-16/06/07


A quatro dias de ser decidida a Liga Espanhola, Barcelona é uma cidade suspensa em expectativas, remetida a uma parcial inércia por imposição de um calendário futebolístico que tardou em resolver-se. O arqui-rival Real Madrid e o menos favorecido Sevilha ainda se podem sagrar Campeões na mesma hora decisiva marcada para um domingo que pode explodir e tornar a capital da Catalunha numa cidade em estado de sítio (onde os semáforos são arrancados ao betão e os carros virados ao contrário). Num plano mais pacífico, mas igualmente desequilibrador de emoções dos aficionados, o festival Sònar apresenta um cartaz matematicamente triunfador (com a inclusão dos Beastie Boys e de vários semi-deuses do techno), mas minado por algumas incógnitas que constituem o risco que pode ou não balancear as coisas no sentido desejável. Lá esteve o omnipresente símbolo do Smile a acrescentar um solarengo e redondo sentimento de optimismo (e revivalismo) ao certame. Em antecipação à bola (com os jogos marcados para as 8 da noite), a apreciação global do Sònar ocorreria às 8 da manhã do mesmo domingo – hora em que é determinante a quantidade de cansaço saudável acumulado para se saber se valeu ou não a pena. Apesar de afectar a avaliação algum bairrismo catalão altamente contagioso, a verdade é que o décimo-quarto Sònar superou as duas edições anteriores pela quantidade de experiências únicas oferecidas em três dias absolutamente sôfregos de novidade e oferta musical.


1.º DIA

Sonar by Day
Kazumasa Hashimoto · FM3 plays the Buddha Machine · Piana · White · Burning Star Core · FM3 / Blixa Bargeld

Roteiro asiático agridoce e a desequilibrada esquizofrenia dos FM3

Sonar by Day

KAZUMASA HASHIMOTO
Coube a Kazumasa Hashimoto a delicada tarefa de iniciar o showcase que a label japonesa Noble tinha reservada para o palco da divisão diurna do Sònar - um Dôme altamente propício a que os presentes se descontraiam sobre um relvado artificial e alternem o seu favorito ritual de relaxamento com a escuta de música adequada. Apesar de evidenciar o embaraço típico de japonês em apuros na articulação da língua inglesa, Kazumasa Hashimoto desenvencilha-se de modo esclarecedor na prática da sua pop para observar o desfilar de nuvens ou um grupo de animais na sua fauna natural. Neste caso, assiste-lhe um baterista que cultiva determinada sintonia adocicada com Hashimoto, à medida que este assenta as mãos sobre o piano com a graça de quem brinca aos clássicos enquanto não se encontra pronto o almoço de domingo. Entretanto, já estava pronto e firme nos lábios o primeiro sorriso do Sònar.

FM3 PLAYS THE BUDDHA MACHINE
À semelhança do que acontecera na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, há algum tempo atrás, os criadores da Buddha Machine – Christian Virant e Zhang Jian – acederam a demonstrar em Barcelona o rol de possibilidades da pequena caixa que já dispensa qualquer tipo de introduções. Quem previa à tal apresentação uma espécie de workshop prático onde a Machine e os seus loops eram desconstruídos, desiludiu-se com uma rapidez indesejável em Lisboa, tal como no Escenario Hall do recinto que recebe o Sònar. Isto porque a dupla sedeada em Pequim limita a sua “performance” a uma variante do xadrez, aqui adaptado às necessidades de seis aparelhos que vão emitindo loops diferentes e posicionados numa mesma mesa pelas quatro mãos envolvidas no jogo. Entende-se pelo comportamento dos jogadores que a finalidade é encontrar o drone perfeito com o empilhar das caixinhas e a colocação das mesmas na vertical ou horizontal. O pior é constatar que tão frágil isolamento de um som harmonioso é impossível de ser partilhado com um público cujo ruído abafa qualquer percepção mínima do que por ali se passa. Além de que 15 minutos do tal buddha boxing não revelam qualquer acrescento a tudo o que o fenómeno já proporcionou. O fiasco do momento foi recompensado pelo aspecto de gag humorístico que assume a visão de todos os rendidos à máquina enquanto a encostavam ao ouvido como se, com isso, procurassem ouvir mais nitidamente o relato do duelo em palco.

PIANA
Piana aproveita a recta final do showcase da Noble para personificar, na companhia de uma violinista, a inversão daquela noção de que o karaoke no Japão serve como terapia aos chefes-de-família frustrados que nesse tão típico entretenimento procuram extravasar a instabilidade do lar ou a insatisfação das suas esposas. A actuação da princesa pop Piana procede-se em formatos semelhantes aos do karaoke: com o apoio de toda a electrónica pré-programada acompanhado pelo aproveitamento exacto da candura que produz a entrega de Naoko Sasaki (que deposita toda a confiança possível nos la la la la la’s pueris do seu mais recente Eternal Castle). O fabrico imaginativo de paisagens idílicas vê-se interrompido quando Piana partilha com o público a esperança de que aqueles quarenta e cinco minutos os tenham deixado mais felizes. A Noble continua, pois, a ser o mais sólido pretexto nipónico para rasgar sorrisos parvos de orelha a orelha.

WHITE
Não será a omissão do Stripes a impedir a associação entre os irmãos White de Elephant e a dupla chinesa que aterra no Sònar em representação da Beijing Waves, label assinalada a vermelho (zen) desde que se sucedeu o advento Buddha Machine. Ela divide entre os efeitos e a percussão atípica, executada numa bilha de metal, os braços tatuados com um xadrez ska e a figura humana que simboliza os Specials. Ele confere libertinagem ruidosa aos sons que vai arrancando a uma guitarra que vai conhecendo objectos vários entre o braço e as suas cordas. Juntos semeiam uma tempestade de padrões rudes (às vezes pop comatosa) que um dia colheu o nome de no-wave – essa que aqui conhece viável actualização num sentido experimental estranho ao ocidental pouco ou nada familiarizado com o que se vai passando no underground chinês. Não admira que os Sonic Youth muito recentemente tenham visitado, em digressão, o país estigmatizado pelo maoísmo. Thurstoon Moore, como se sabe, pela-se por descobertas como esta.

BURNING STAR CORE
Enquanto parte do léxico Burning Star Core, os “soldados estúpidos” podem até identificar mais do que uma obrigatória compilação de sete polegadas lançados de um modo espaçado e secretista. Os tais soldados estúpidos podem até ser os membros de uma armada de pedais e caixas de efeitos que C. Spencer Yeh encontra diante dele. Enfim, parafernália que mais não é do que carne para canhão nas mãos deus ex-machina de um irado alguém cuja insatisfação e impaciência se transforma, aos poucos, em ruído da mais intensa estirpe. Ruído lancinante e desencontrado quando extraído ao violino – instrumento de eleição – por dois aros movidos em sentido mutuamente contrário. Ruído acumulado em camadas e sequenciado pela lógica do drone quando em forma pura. Ruído pavoroso quando o General Spencer Yeh decide render o corpo ao conflito com o abuso das suas próprias capacidades guturais dispersas entre dois microfones cientes do estéreo ao seu dispor. Como se não bastassem Operator Dead... Post Abandoned e Blood Lightning para que 2007 fosse também o ano de Burning Star Core, o prodígio de Cincinnati triunfa numa das mais determinantes batalhas que conheceu a guerra Sònar.

FM3 / BLIXA BARGELD
Para recuperar alguma da dignidade lesada pela manifesta insuficiência do apontamento proporcionado no momento acima descrito, os FM3 encontravam-se na obrigação de render o dobro na ocasião de carácter especial que os colocava ao lado de Blixa Bargeld, o venerável membro dos Einstürzende Neubauten que já havia demonstrado a admiração pela dupla de Pequim no exercício atribuído à compilação Buddha Jukebox. Mas, desta vez, o recorrente objecto ficava de fora da actuação. O único elemento sobrante e de utilidade primária para o tête a tête talvez fosse mesmo o drone e a voracidade da sua ciência que tudo aglutina à medida que insufla o corpo em desenvolvimento. E, como um balão de ar quente que enche, o drone conheceu génese na guitarra repetida em transe por Christian Virant e na acção mais polivalente de Zhang Jian, sendo que ambos pareciam talvez demasiado seguros de que se encontravam na iminência de cunhar um happening que nunca se chegou a consumar. Só se aproximou dessa patente quando Blixa Bargeld instalou o pesar gótico da sua voz e alastrou o nódulo daí resultante por todo o drone a partir daí contaminado (e sujeito a tortura com a manipulação analógica do senhor). Se fosse menor a consciência dispensável de que a actuação poderia vir a constituir nota de rodapé na história da música, a peculiar aliança sino-germânica podia ter atingido um pico transcendental que foi apenas vislumbrado.


2.º DIA
Sonar by Day
Sunn O))) · Clark
Sonar by Night
Beastie Boys · Cornelius · Romantica · Justice · Dizzee Rascal

Merecida justiça e o ténue limiar entre o laptop e um lapdance

Sonar by Day

SUNN O)))
A auxiliar de reportagem, que solicitou o anonimato, referia, após sensivelmente 24 horas passadas sobre o concerto da dupla norte-americana Sunn O))), que a ocasião se assemelhara muito ao grotesco parto imaginário de uma monstruosidade Medieval visionado frame ante frame. Compreende-se a tentativa descrição que pode ser uma das muitas a aplicar à missa negra que conduz o duo que tornou num eufemismo o adjectivo “lento” quando aplicado ao metal de características mais arrastadas. Os Sunn O))) limitam-se a determinar impiedosamente as guitarras como carrascos do aparelho auditivo numa cerimónia maldita em que o sufoco e terror nem sequer necessitam de timing exacto porque prevalecem ininterruptamente durante praticamente uma hora de eclipse total. Como se não bastassem as guitarras suspensas como dentes vampíricos sobre o pescoço, aos Sunn O))) juntou-se uma figura sinistra de nome Attila (seria?) – trajando uma peruca à Keiji Haino e um colete ao estilo de espantalho – que entoava litanias entre o estridente e o uivo desinibido a partir do estômago. Tal adição colocou a prestação dos Sunn O))) a um passo de servir na perfeição como banda-sonora para uma cena de orgia canibal filmada por Dario Argento para posterior inserção no remake de Eyes Wide Shut – De Olhos Bem Fechados de Kubrick. Cena essa a ser exibida frame a frame.

CLARK
O que seria do Sònar sem assegurar a presença de algumas das figuras do luxuoso catálogo da Warp? Chris Clark (geralmente conhecido apenas pelo sobrenome) cumpre idealmente (quase) todos os requisitos esperados de um músico amadurecido na casa britânica que actualmente abriga os !!! e os Grizzly Bear: sintetiza categoricamente todo o espectro da IDM, evita o óbvio na cadência de bleeps organizados no laptop e, sem qualquer intenção de ultrajar, chega a cometer um pecado drum n’ bass sem que esse deixe de soar actual (impressionante, portanto). Acresce a tudo isso o apurado sentido de Clark no estabelecimento da ponte entre o entusiasmo digital da Warp clássica – com todo o futuro pela frente – e a sua actualidade vivida sob a forma de discos sofisticadamente apontados à difícil tarefa de serem pop, sem deixar de parte a complexidade que evita tornarem-se enfadonhas as escutas sucessivas. De forma a oxigenar os poliritmos pelos quais se foi tornando conhecido o autor de Body Riddle, verificou-se também a presença de um baterista que deixou bem claro que John Stanier dos Battles pode até merecer o título de máquina biónica, mas não sem um desafio à altura.

Sonar by Night

BEASTIE BOYS
O segundo concerto de Beastie Boys que conheceu Barcelona (o primeiro fora o “instrumental” no dia anterior) não diferiu muito do que trouxe os nova-iorquinos até ao palco do Alive!, em Lisboa, seis dias antes. Atendendo a que a apreciação do último consta dos links dispostos em baixo, dedica-se esta entrada aos aspectos que marcaram a diferença e a outros que adquiriram ainda maior saliência no Sònar. A afluência do público foi mais uma vez massiva (ou não fosse tanta a fome). Depois, cedo se repara que MCA se encontra mais energético e nivelado com os dois parceiros de sempre (“Triple Threat” confirma-o). Ad-Rock assume-se um pouco mais histérico nas suas rimas, mas menos incisivo nas farpas humorísticas. O nome de Barcelona merece encaixe numa mão cheia de músicas, a instrumental e nostálgica “Ricky’s Theme” quebra gravemente o ritmo acumulado, “Brass Monkey” é recebida com euforia consensual e “The Maestro” arrebata em definitivo o estatuto de tema mais forte da digressão, nem que seja por ser o que mais equilibradamente combina a vertente instrumental com o hip-hop. Realmente curioso é dar conta de que os Beastie Boys minam o alinhamento com um número de investidas hardcore equivalente às somadas aos dois concertos ocorridos em Lisboa. A receptividade é incondicional e, ao que parece, global. A actual digressão dos Beastie Boys permanecerá armazenada no recanto de memórias predilectas que um dia mais tarde se partilha com os netos.

CORNELIUS
Cornelius, uma das melhores exportações recentes da pop oriunda do Japão, parece inabalavelmente seguro de que os seus discos são potencialmente clássicos e, por isso, merecedores de serem projectados em formatos vários. Convenientemente, um concerto de Cornelius oferece a preciosa oportunidade de ver, o que era à partida o trabalho isolado de génio maravilhado, desabrochar e adquirir a dimensão maior que lhe confere a banda rock a actuar sob a sua batuta. O que por si só já seria uma mutação interessante de se testemunhar, passa a ser um inesquecível espectáculo audio-visual que faz coincidir a música com os magníficos e coloridos telediscos projectados nos três ecrãs gigantes de um Sònar Park que pasma perante a dinâmica e coolness que demonstra Keigo Oyamada ao revisitar clássicos como “Drop”, “Point of View Point” (recuperados a um estupendo Point que não acusa envelhecimento), “Star Fruits Surf Riders” ou “Count Five or Six” (o vitorioso tema que faltou à adaptação da saga Rocky a filme de animação). Alguém que transpira referencialidade no nome que o identifica (aproveitado a um sagaz personagem do Planeta dos Macacos) tratou de deixar bem claro que o Japão e Europa se encontram à distância de um sublime enquadramento pop de fazer transbordar os ouvidos e olhos.

ROMANTICA
É de saudar a iniciativa da organização em diversificar o conteúdo da noite de sexta com a apresentação inesperada de um espectáculo de strip-tease que trouxe até ao Sònar Park a noite semi-nua de Tóquio sob a forma de três bombásticas pin-ups asiáticas que, em currículo, contam já com trabalhos efectuados para a Sony e Taschen (e certamente para outros clientes mais zelosos da sua privacidade). Digamos que a performance pode ser categorizada como uma espécie de Crazy Uma (que significa cavalo / horse em japonês) reduzido à sua forma minimalista: as meninas dançam como operárias ao som de electro-xunga, reproduzem o cenário típico das secretárias assanhadas (com direito a cruzar e Sharon Stonesco descruzar de pernas), despem a farda de freira ao som de “Freedom of Choice” (antecipando a chegada dos Devo). A mulher japonesa vence o feroz campeonato de beleza do Sònar e o espectáculo Romantica serve como a melhor cura para a conjuntivite provocada pelos dias mal dormidos em Barcelona.

Mais informações úteis e nudez sugestiva aqui: http://www.yokomachikeiko.com e http://www.moodcore.com.

JUSTICE
Justiça seja feita a estes Justice que às costas já têm de carregar a cruz da etiqueta new-rave: a dupla francesa, que muitos já apontam como os herdeiros lógicos do french touch, sabe como manter ao rubro uma multidão de necessitados da tal dose extra-guarnecida de ritmos persistentes na sua perfuração arqueológica de tudo o de mais electrizante se fez no final de 70, alumiado por uma sensibilidade algo megalómana do rock de estádio das décadas seguintes e a religiosidade inerente a isso. Pelo palco passeia-se alguém com uma t-shirt dos Daft Punk e tal facto denuncia tudo o resto que se possa querer saber acerca dos Justice, que ultrapassam sem qualquer pudor a porção vermelha da barra vertical que media a temperatura à noite de sábado. O Sònar conhece o seu cume febril na passagem por “We are Your Friends”, o tema seminal gravado a meias com os Simian (que entretanto acrescentaram Mobile Disco ao nome e também actuaram nessa noite). Depois de crucificados os sentidos é quase impossível a evasão que não por meio da ruptura que chega com o fim da prestação. Estes podem os versículos satânicos de uma bíblia de néon.

DIZZEE RASCAL
É comum a constatação de que o grime que conquista as massas vem já filtrado da pimenta desbocada que o torna inflamável enquanto ainda veicula nas mixtapes que não chegam às mãos de gente bem colocada nas mais influentes rádios da Inglaterra. Pela prematuridade com que ascendeu ao lugar de primeira grande figura internacional do grime, Dizzee Rascal estava condenado a ser apontado como o mercenário que abandonou as ruas em prol do estrelato. O novo Maths + English ajusta contas em relação a essa suspeita e, a julgar pela amostra do álbum dada a conhecer ao Sònar, tudo leva a crer que a essência, fibra e veneno carregado de sotaque (ou o inverso) ainda não abandonaram Dizzee Rascal e o hype man que trouxe para lhe proteger as costas das balas arremessadas pelo DJ. Acabou por ser o público britânico, que normalmente se mantém longe da periferia onde floresce o verdadeiro grime, aquele que maior sincronização manteve com as rimas do rapaz que há muito abandonou o canto onde se encontrava, para agora ser um dos alvos a abater no reino do hip-hop sem maneiras.

3.º DIA
Sonar by Day
Wolf Eyes · Mira Calix · KTL · Khan of Finland
Sonar by Night
Devo · Rahzel & DJ Js-one · Mogwai

O lobo mau e o (invertido) vasinho vermelho

Sonar by Day

WOLF EYES
Em escala para a passagem pelo Out Fest, que os trouxe até ao Barreiro no dia 17, os Wolf Eyes chegam ao Sònar na condição de semi-deuses do tratamento exaustivo do ruído e das suas capacidades em adaptar-se à violentação caótica que lhe é imposta por uma das mais prolíficas instituições norte-americanas integradas no catálogo da Sub Pop (e além). Apesar de não existirem dois concertos iguais no que respeita aos Wolf Eyes, a estrutura mantém-se igual em grande parte dos mesmos e assim se verificou em Barcelona: a primeira parte ficou reservada a um mindfuck capaz de provocar orifícios cerebrais com a sua liturgia pagã de frequências com bico de prego e tudo o mais que suportasse a roldana sempre prestes a desconjuntar-se. A segunda metade do concerto foi, por sua vez, preenchida pelos “sucessos” à estranha maneira doentia dos Wolf Eyes que, nos exercícios de duração mais delineada, chegaram a riffar com a ambição legítima de ensurdecer todos os presentes e, noutra altura, a depender do sopro de Adamastor que John Olson introduziu no seu saxofone em mais um daqueles momentos em que são fustigadas todas as coordenadas estabelecidas em discos de estúdio e se forma um imagem inédita que mais pânico provoca por ser tão perigosamente imediata.

MIRA CALIX
Pouco haverá a dizer acerca da quase banal passagem de Mira Calixa pelo Sònar, além de que o peso do selo Warp não sustenta por si só quarenta e cinco minutos de aborrecimento divididos entre um laptop que debita paisagens digitais e os ecrãs que exibem visuais que distraem mais do que complementam. Não convenceu.

KTL
A transformação que operam os KTL no SònarComplex terá sido a que mais próxima ficou de ser tomada como um anti-concerto em vez daquilo que se espera ver num festival. O terrorismo associado às mentes que formam o projecto, que só por esta altura conhece o segundo disco, antecipava de alguma modo o carácter absurdamente extremo do que se veio a suceder: Peter Rehberg (o mago da electrónica abrasiva conhecido por Pita) e Stephen O’ Malley (dos Sunn O))) ) ensaiam em dois laptops e numa guitarra, respectivamente, big bangs sonoros capazes de provocar entorpecimento – tal é o volume que faz tremer o ar do espaço (entretanto completamente coberto de fumo artificial) e tilintar involuntariamente os dentes que se encontrem próximos. É verdade que a experiência marca, mas poucos serão aqueles que no seu perfeito juízo permanecem numa sala onde o risco de perder a audição é demasiado. Quinze minutos chegaram para duvidar se Thom Yorke em “Airbag” não estaria equivocado e se o mais prudente não seria mesmo pedir tampões para lhe salvar a vida no tal interstellar burst. Memorável, mas desaconselhável a ser vivida em quaisquer edifícios com mais de dez anos.

KHAN OF FINLAND
Khan crê ser o mais esforçado profissional do show-bussiness europeu actual. A ouvidos moucos, são elevadas as possibilidades de muitas vezes a sua pinta de entertainer mutante ser confundível com a de um qualquer aspirante a Beck (como era Jamie Lidell há uns anos). Porém, Khan não conhece descanso porque tem como missão a obtenção das medidas exactas que tornem explosivo (e resistente ao tempo) o seu cocktail de humor, crooning debochado e provocações à dança que funcionem com a prontidão de um estalar de dedos. Neste regresso ao palco que já o recebera em 2001, Can Oral adopta a nacionalidade finlandesa e a companhia de um pianista e de alguém que serve como beat box humana. Tão pouco funcional formação vai obtendo a rendição gradual da porção mais fraca da carne aos prazeres do lounge noctívago de “The Wolf” ou da europeização dos B-52’s que se sente a “Strip Down”. Khan não chegou a vacilar, mas só obteve o calor necessário numa altura tardia em que era obrigatória a migração para o recinto nocturno do Sònar onde iam actuar os Devo.

Sonar by Night

DEVO
A actuação dos lendários auto-didactas Devo foi convenientemente antecedida por uma justificada compilação dos telediscos da banda de Akron, Ohio, que já os produzia numa altura em que nem sequer existia MTV. Com o mesmo vanguardismo inconsciente de quem se antecipou a quase toda a música que haveria de os preceder, a compreensiva amostra da memória visual dos Devo exibe um conjunto de rapazes tão imersos no seu próprio universo nerd (repleto de ficção científica barata) que o mais improvável seria tentarem o encaixe numa qualquer tendência actual. Os Devo inventaram a sua e o concerto do Sònar, inserido numa digressão que trouxe a banda à Europa pela primeira vez em 17 anos, premeia a inventividade de quem abraçou os sintetizadores como utensílio da pop, provavelmente porque não eram suficientes as linhas de guitarra adquiridas a anúncios de televisão. Saúde-se o glorioso descomplexo revelado pelos Devo que em palco ainda envergam os mesmos chapéus em forma de vaso (catalizadores de energias) e têm o discernimento de não perturbar o desfile de clássicos com faixas de um novo álbum que normalmente é mero pretexto (e alvo de desinteresse de praticamente todos os nostálgicos) para mais uma digressão. Apesar da avançada idade, não se verifica qualquer abrandamento para recuperação de fôlego a um espectáculo onde Mark Mothersbaugh varia entre marchar, tarefas vocais de front-man e os dois teclados que arrancam reacções imediatas aos rendidos. Houve remédio robótico para toda a necessidade: “Going Under”, a voyeurística “Peek-a-boo” (I can see you), “Whip it”(antecedido pelo comentário irónico:São capazes de não conhecer esta...), “Mongoloid”, “(Can’t get no) Satisfaction” (a versão dos Stones cuja aprovação pessoal de Mick Jagger levou os Devo a improvisarem uma actuação na sua suite privada). Não sobraram sequer razões para concordar com a afirmação feita numa entrevista cedida pelos Devo em que estes admitiam ser a banda que continua a tocar no Titanic enquanto este se afunda. Se assim for realmente, que belo naufrágio foi este.

RAHZEL & DJ JS-ONE
Mais do que um mero MC capaz de algumas habilidades impressionantes, Rahzel é uma força da natureza dos efeitos vocais cuja esquizofrenia muitas vezes torna imperceptível perceber onde acaba a sua identidade e começa a história do hip-hop que celebra com as suas reproduções únicas. O concerto de Rahzel, ao lado do meramente auxiliar DJ Js-one, é reincidente no Sònar (onde já havia sido apresentado o ano passado) e acusou demasiado o dejá-vu nos seus primeiros vinte minutos perdidos entre ensaios de aquecimento, a emulação da pavloviana linha de baixo (normalmente executada numa guitarra) de “Seven Nation Army” e em mais uma rendição do único sucesso de maior relevo conhecido ao trabalho a solo de Rahzel, “All I Know”. Até aí, tudo muito desgastado e nem sombra de novidade para preencher a cova de um dente. O rumo das coisas muda quando Rahzel virtualiza, em modo quase autónomo, um memorial edificado em nome do melhor hip-hop dos últimos vinte e cinco anos. A partir daí é vê-lo a reproduzir, em simultâneo, as batidas, samples e linhas de baixo dos sucessos de Kanye West, Busta Rhymes e Wu-Tang Clan (solicitando ao público que colocasse bem alto as mãos em forma de “W” porque, enquanto assim fosse, o hip-hop não morreria). Não morrerá certamente enquanto uma enciclopédia do género, como é o caso de Rahzel, continuar a caminhar entre os meros mortais.

MOGWAI
Apesar de pouco manterem em comum com as presenças mais típicas do Sònar (os DJs de techno e house com ambição), os Mogwai são merecedores de um lugar de destaque na noite de sábado por cortesia de uma atenta organização que entende a perspicácia da banda de Glasgow na incorporação de elementos mais electrónicos na sua estética pós-rock centrada em guitarras - a mesma que lá vai sobrevivendo entre pontos altos e baixos (o último Mr. Beast situa-se num intermédio desses). Quando são três os guitarristas a remar na mesma direcção épica, sabe-se que os Mogwai produzem sequências sónicas capazes de abalar a percepção até aos mais indiferentes. Assim se sucedeu em Barcelona. O ponto alto da noite, contudo, pertenceu a uma “Hunted by a Freak” que deduz um guitarrista à formação, mas lança-se num ocaso espacial sem fim através daquela voz adulterada em vocoder – essa que, por si só, vale a improvável integração no Sònar.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
14/06/2007