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Dead Combo / Howe Gelb
Theatro Circo, Braga
31/02/2007


Há músicos que, consumados anos de provas dadas e reconhecimento adquirido, gozam de uma fase posterior de reverência e infinita recolha de louros. Howe Gelb foi abrindo esse caminho por entre obstáculos e contratempos que marcaram presença sobretudo nas fileiras da banda que sempre liderou, os Giant Sand. Gelb tivera de lidar com a morte de Rainer Ptacek, co-fundador da banda e, mais do que isso, seu amigo e, quase ao mesmo tempo, veria Joey Burns e John Convertino afastarem-se progressivamente da banda para formarem os Calexico. Sendo assim, a opção mais sensata seria canalizar todo o seu potencial numa carreira a solo. É essa mesma carreira a solo que serve de sustentáculo à vinda de Gelb mais uma vez ao nosso país para dois concertos: este no Theatro Circo e um outro, amanhã, no Santiago Alquimista, em Lisboa. Para a primeira parte estava reservada a actuação dos portugueses Dead Combo. Ora, nada poderia revelar-se mais acertado considerando que o duo atribui a Howe Gelb a responsabilidade pela sua existência. A forma peculiar como Gelb explora a música folk associando-a ao country e fazendo com que ambos gravitem em torno do universo rock, fez despertar em Tó Trips e Pedro Gonçalves o desejo incontido de fazerem música em conjunto. Agora apresentam-se ao vivo para abrirem para o seu guru musical. Fizesse tudo sentido como isto.

De indumentária preta e com a postura introspectiva habitual, os Dead Combo entram em palco dispostos a mostrarem que têm vários trunfos na manga e que o público terá com certeza muito mais a reter do que a visão de uma figura de óculos escuros mais o estiloso do chapéu. Já com segundo disco na calha, o recomendadíssimo Vol. II: Quando a Alma Não É Pequena, o duo tem a felicidade de poder corresponder ao vivo àquilo que os ouvidos mais anseiam poder captar num concerto. As várias soluções que Tó Trips e Pedro Gonçalves arquitectaram para os seus temas são possíveis graças à alternância de instrumentos por parte de Pedro Gonçalves. Na guitarra, no contrabaixo ou na melódica é o acompanhante perfeito da guitarra eléctrica do seu comparsa igualmente inventivo e original (a dado ponto Tó Trips serve-se ainda de maracas). Resultado: uma música desafiadora e envolvente, que mereceu a designação perspicaz de “western-fado”. Aos temas retirados dos seus registos, os Dead Combo acrescentaram ao seu alinhamento a interpretação de duas versões: “Temptation”, um original de Tom Waits e “Like a Drug” dos Queens of the Stone Age. Uma primeira parte de luxo que pressagiava uma noite musicalmente abonada.

Não é de admirar que, com mais de trinta discos editados, Howe Gelb não aparente a frescura de um adolescente. Apresenta, ao invés, a figura esperada para um cidadão que completou já meio século de existência. Assim, quando irrompe pelo palco, Howe Gelb surpreenderá, quando muito, pela ausência da barba e do bigode que lhe conferiam o ar de texano austero. Os cabelos grisalhos, esses, são, de início, camuflados por um chapéu, um acessório muito concorrido nessa noite. À semelhança dos seus antecessores, Gelb dispõe igualmente de material novo para dar a conhecer, neste caso o álbum Sno Angel Like You. Há, no entanto, na atitude do músico, uma displicência relativamente ao mote criado pelo disco em questão. O que passa a ser primordial é o espectáculo em si, a capacidade de apresentar pormenores irreverentes e envolver o público nessa toada de criatividade. Outro aspecto que dificilmente terá passado ao lado de alguém é o de que Howe Gelb é um músico irrepreensível. Capaz de verdadeiros recitais ao piano e habilidades q.b. na guitarra, a actuação desta noite pareceu obedecer mais à lógica do improviso do que ao rigor de uma setlist.

Ainda assim, muito dificilmente não fora planeada a interpretação daquela que descreve como sendo “umas das dez melhores canções escritas”: “The Desperate Kingdom of Love” de P. J. Harvey. A cantora é, de resto, fonte de inspiração para Howe Gelb que, com ela, chegara a andar em digressão pela Europa, assegurando-lhe com os Giant Sand primeiras partes. Este era mais um momento inesperado da noite. É curioso que o músico, que nunca se prestou a grandes comentários durante a actuação, se tenha dirigido ao público perguntando: “Do you want an old song or a song I haven’t written yet?”, e, colocando de novo o chapéu por instantes largado, tenha balbuciado ainda um “Any questions?”. Interrogações pertinentes atendendo ao facto de que a imprevisibilidade imperava e se esperava quase tudo. E tudo tem o seu quê, se apresentado com um toque de elegância pela pessoa certa. Howe Gelb tem a destreza de fazer com que, até o clássico “Frère Jacques” renasça graciosamente ao piano. No final, surgia o agradecimento aos Dead Combo. As afinidades entre ambos parecem, afinal, resumir-se a uma só: música de se lhes tirar o chapéu!

Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net
03/03/2007