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James Blackshaw + Josephine Foster
Teatro Passos Manuel, Porto
24/03/2005


Para proporcionar uma Páscoa diferente de todas as outras – mais ou menos doce, com mais ou menos amêndoas mas sobretudo diferente –, uma porrada de gente reuniu-se para tornar possível uma “Páscoa com Josephine”. O juramentosembandeira.blogspot.com, a Matéria Prima, a Galeria Zé dos Bois, a Casa das Artes de Famalicão, a Sinsalaudio e o Teatro Passos Manuel “desviaram” Josephine Foster e James Blackshaw para uma digressão pela Península Ibérica que inclui concertos em Vigo, Porto, Lisboa e Famalicão. E são estes os nomes que realmente põem Portugal na rota dos concertos que realmente interessam. E não têm sido poucos, ultimamente.

James Blackshaw © Ana Marques

Os últimos dois anos foram realmente prolíficos no que diz respeito a concertos de seguidores da escola de John Fahey no nosso Portugal. Primeiro foi Ben Chasny, depois Jack Rose e Glenn Jones, e agora James Blackshaw, um inglês que cultiva a arte do fingerpicking. Ainda com o lançamento do disco 'Lost Prayers and Motionless Dances a fresco – um disco composto por uma só faixa que ultrapassa os 30 minutos, editado pela Digitalis Recordings -, James Blackshaw abriu para Josephine Foster com dois longos temas na sua guitarra de 12 cordas. Temas que se constroem de infinitas passagens de secções para secções, de viagens pelo tempo e se fazem cobrir de um enorme manto de misticismo. E nem a imperfeição de algumas dessas passagens impediu que a sua quase imaculada actuação perdesse pontos. Foram duas ragas acústicas - tal como acontece no disco Celeste - que celebram a memória do seu herói Robbie Basho, o guitarrista que faleceu em 1986. Seja em Fahey que James Blackshaw encontra a sua inspiração, seja em Robbie Basho ou mesmo em ambos, a verdade é que o seu talento é inegável. Pede-se então a James Blackshaw e a toda esta nova geração que partilha a sua paixão - confiança máxima depositada no coração e mãos de Ben Chasny - que, como as suas influências fizeram, continuem a procurar expandir a guitarra e as possibilidades. Até a um limite que se desconhece e se espera que não exista.

Josephine Foster © Ana Marques

Josephine Foster começou por fazer gravações caseiras distribuídas em cd-r – uma prática que se torna cada vez mais corrente nos meios menos expostos - mas foi com a inclusão de um tema seu na (já) seminal compilação The Golden Apples of the Sun, concebida por Devendra Banhart para a revista Arthur e que conta com os nomes de Joanna Newsom, Cocorosie, o próprio Devendra Banhart na companhia de Vashti Bunyan, Six Organs of Admittance, entre outros, que a catapultou para voos mais longínquos. Na bagagem trouxe essencialmente All the Leaves Are Gone - um disco gravado com os Supposed - e o seu sucessor, Hazel Eyes, I Will Lead You (que será editado no próximo mês de Abril pela Locust), onde Josephine opta por voltar ao sistema “uma guitarra, uma voz”. E a verdade é que as canções do próximo disco, Hazel Eyes, I will lead you, apresentadas na segunda parte do concerto, acabaram por resultar ainda melhor do que as de All The Leaves Are Gone, muito provavelmente porque surgiram agora consideravelmente mais despidas do que em estúdio. Desde o momento em que entrou em palco – altura em que se ouviram uma espécie de guizos que tilintavam à volta da sua cintura - até à forma como se veste ou como apresenta as suas canções, Josephine Foster traçou (e traça) um paralelo com o final dos anos 60, o movimento hippie, a folk psicadélica, os Jefferson Airplane. A sua voz transparece ainda os ensinamentos adquiridos aquando da sua passagem pela escola da ópera: é teatral, é suave e ruidosa ao mesmo tempo, é portadora de feitiços e complexo misticismo, é usada da forma que uma mãe a usaria para, junto a uma fogueira numa noite de luar, cantar sonhadoras e ternas histórias como a de cenários despidos pela queda das folhas – a forma como aborda a sua guitarra ajuda a formar esta mesma ideia. A certa altura, Josephine aproveita uma pausa entre duas canções para mostrar a sua alegria por estar na cidade do Porto e confessou-se impressionada com a quantidade de pequenas coisas, de coisas bonitas e especiais que encontrou em cada esquina – oh, o encanto único da Europa quando comparada com os Estados Unidos. Uma coisa é certa: Josephine Foster, a metade feminina do duo Born Heller, esteve neste dia para a nova folk como a Páscoa para os católicos. Sem demérito para o Natal e para Devendra Banhart, claro.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
24/03/2005