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J. Braima Galissá / Sir Richard Bishop
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
04/10/2006


Tal como um dia Ali Farka ouviu a guitarra de John Lee Hooker e disse, citando criativamente, “foda-se, isto é que o andamos a fazer há séculos!”, um dia alguém se lembrou de juntar uma vez mais o mundo africano e o mundo americano. De um lado, J. Braima Galissá, do outro, Sir Richard Bishop. O primeiro, cantor/compositor e tocador de kora, o instrumento que pode ser descrito como uma harpa mais artesanal e rudimentar, e que, se formos dados a isso, pode dar ao senhor o epíteto de Joanna Newsom dos PALOP (sem a voz, as orelhas e a harpa). É guineense e, para além da música, insiste em falar num português pobre sobre as canções e sobre a música, e até dar uma lição de história sobre a kora. Um coração enorme, puro e inocente, em cima de um palco, verdadeiramente sorridente e feliz por ali estar e não há maneira de não ser empatia por aquela pessoa. O segundo, membro dos lendários Sun City Girls, pega na guitarra acústica para recriar e explorar os limites de anos e anos de música da américa profunda. Os blues, a folk, até a surf-music, o country, o rock’n’roll e o jazz cabem lá.

Braima Galissá entra em palco com vestimentas típicas da Guiné, explicando que a mandinga é a raça da Guiné e que a música que faz é dedicada à juventude. Agradece muito a toda a gente que aparece, e a quem organizou o concerto, sempre sorridente. Da sua kora saem melodias hipnóticas e repetitivas, mas sempre com algumas variações, e vai cantando por cima. Dedica uma música às meninas, outra à paixão e fala do seu fascínio por Amália Rodrigues. Galissá fala muito, e não muito bem, mas isso é desculpável pela simpatia enorme que o homem parece ter. Pede às meninas para ajudá-lo a cantar, e, posteriormente, ao público todo, e este, enferrujado, só aceita algum tempo depois. Mas Galissá nunca desespera, sempre sorridente. Há uma canção em português, reminiscente de Zeca Afonso, que Galissá dedica às crianças que nasceram debaixo de guerra. “O artista da noite vem dar o máximo”, diz, para se despedir, mas o público não quer que ele vá. Ainda fica mais um pouco, explicando a história e o funcionamento da kora, com um sentido de humor invejável que vai para além do vocabulário pobre, uma presença divertida e que serve de contraponto ao tempo talvez um pouco excessivo que dura o concerto. Sir Richard Bishop, de cabelo comprido e barba, avisa logo: “That kora is a hard thing to follow”. Mas, durante a hora seguinte, faz um belo trabalho. As peças dele vivem das dicotomias: belo/feio, suave/agressivo, campo/cidade, limpo/sujo, etc. Usa a sua voz áspera duas vezes, a primeira para uma canção louca, de alguém claramente possuído, sobre gente do campo que mata gente da cidade, com todos os pormenores sórdidos do enforcamento e nem uma réstia de remorso na voz. Macabro e sinistro, mas divertido ao mesmo tempo, tal como a frase que canta: “Gimme some of that Hitler coke” na canção seguinte. Mas esta acaba e Sir Richard (que não foi feito cavaleiro pela Rainha) avisa que acabou a parte freak-folk do seu concerto.

Toca um tema belíssimo sobre a estação de comboios de Calcutá - e recomenda toda a gente a visitá-la -, alternando entre a suavidade do fingerpickin’ e a descarga pura dos riffs repetitivos e agressivos, como se continuasse possuído pelo espírito dos senhores do campo que matam todos aqueles da cidade que se arriscam a atravessar o seu caminho. E vai-se embora.

Não há assim tanto em comum entre a música de Galissá e Bishop - a de Bishop é mais ecléctica e variada, a de Galissá é mais suave e bonita sem abraçar tanto a imperfeição -, mas a verdade é que ambas funcionam bem juntas. São ambos óptimos instrumentistas ligados à tradição dos seus respectivos países, que procuram apenas fazer música para tocar as pessoas. O sorriso nos lábios e no coração de Galissá, contudo, será sempre muito maior que Bishop a desculpar-se por ter bebido muito whiskey e cerveja antes do concerto. E, às vezes, é isso que interessa.

Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
04/10/2006