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Archie Shepp & Dar Gnawa
Casa da Música, Porto
05/10/2006


Noite de quinta-feira 5 de Outubro, dia comemorativo da Implantação da República Portuguesa, Sala Suggia (aquela que era conhecida como Sala 1, presta homenagem a Guilhermina Suggia, a maior violoncelista portuguesa de sempre) muito perto da sua lotação esgotada. Era dia do norte-americano Archie Shepp, um dos grandes saxofonistas da história do jazz. Archie Shepp é o senhor que começou a tornar-se conhecido na década de 60 (ao lado do pianista Cecil Taylor), é o senhor que colaborou com John Coltrane (por exemplo no clássico A love supreme, apesar de nenhum dos takes onde participou terem sido incluídos no LP final), é o senhor que assinou discos como Fire Music, Attica Blues ou Four For Trane. Archie Shepp, militante do movimento político-cultural Black Power, é um senhor que não faz música apenas por fazer música: ouvir Archie Shepp é o equivalente a sentir o cheiro às raízes da música afro-americana.

O concerto dividiu-se em duas partes distintas. Na primeira, Archie Shepp apresentou-se com Tom McClung no piano, Wayne Dockery no contrabaixo e Steve McCraven na bateria. Aí, assistiu-se a algo comum numa actuação de Archie Shepp, a alternância entre o saxofone e a voz, os temas que fundem os dois elementos, a imprevisibilidade da poesia do norte-americano. A upbeat “Hope 2", escrita para Elmo Hope, atraiu especial interesse. Mas foi no original “Revolution” que esta primeira parte da actuação teve o seu momento maior: o tema, como Archie Shepp confessou, chegou a si através da sua avó, Mama Rose, uma mulher nascida no tempo da escravatura, numa altura em que os negros não tinham acesso a baixos ou a saxofones e, dessa forma, eram obrigados a criar música com aquilo que estivesse ao seu redor. Antes da peça propriamente dita, o baterista Steve McCraven chegou-se à frente do palco para uma virtuosa demonstração de “hambone” (uma técnica que consiste em bater nos braços, pernas, peito, entre outros, utilizando as mãos). Além de utilizar o seu corpo como um instrumento de percussão, Steve McCraven adicionou-lhe cânticos, aumentando assim a intensidade da pequena performance. “Revolution” surgiu depois então todos os elementos em destaque, com a presença da voz sábia de Archie Shepp.

Se já se havia sentido na primeira parte do concerto uma certa espiritualidade suspensa no ar, quando o colectivo marroquino Dar Gnawa, liderado por Abdellah Boulkhair El Gourd, pisou o palco essa espiritualidade aumentou significativamente. Abdellah Boulkhair El Gourd surgiu vestido de branco segurando um instrumento de cordas e fez-se acompanhar de 3 músicos/bailarinos igualmente vestidos de branco (com alguns adereços, como chapéus). É que um dos princípios básicos da filosofia dos Dar Gnawa é precisamente a cura, através do estado induzido pela música, dos males do corpo e da mente. Musicalmente, os Dar Gnawa fazem transe que mistura a tradição africana e o xamanismo islâmico da Ásia Central. Aqui, a união de Archie Shepp com os Dar Gnawa prometia a fusão do free jazz com música gnawa.

As construções, longas, hipnóticas a terapêuticas, fizeram com que Archie Shepp e os seus músicos (especialmente Tom McClung no piano) mudassem de registo para receber os sons que se iam erigindo em palco. Ao sentimento de jam continua do da segunda aparte do concerto juntou-se a cor e a festa da dança dos três bailarinos que, um a um, se iam chegando à frente do palco. Uma celebração ritualista e hipnótica, que pela sua circularidade e repetitividade, resgatou e anulou o efeito do tempo e do espaço. Uma experiência potenciada ainda mais pela beleza impressionante da Sala Suggia.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net
05/10/2006