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Town & Country
Café Concerto Rivoli, Porto
09/03/2005


Chicago é uma cidade fértil em projectos musicais que apontam as directivas para a música do presente e do futuro, e os Town & Country não fogem à regra. Discos como It All Has To Do With It e o mais recente 5 (ambos editados, claro está, na Thrill Jockey) criaram um espaço bastante próprio na música feita deste o princípio do novo milénio e colocaram a banda fundada pelos veteranos Ben Vida, Liz Payne, Jim Dorling e Josh Abrams na rota dos projectos a ter mais em conta no que à música experimental e minimalista diz respeito. Mas a música destes Town & Country consegue escapar a um ou mais rótulos fixos pois reinventa-se a cada instante, a cada disco, a cada canção e, em última análise, a cada concerto. Em palco, como é apanágio do quarteto, nada de amplificadores ou quaisquer sinais de possível tratamento electrónico. Tornava-se então evidente que toda a música escutada durante o concerto seria proveniente dos quatro microfones que se encontravam estrategicamente colocados em frente a outras tantas cadeiras. Apesar da pouca promoção ao concerto, a casa, essa, estava extremamente bem composta – enquanto uns jantavam à luz das velas, outros deliciavam-se com chá mas todos estiveram sujeitos à mesma deliciosa selecção musical pré-concerto.

© André Gomes

À primeira vista, um pormenor digno de registo. Nada de guitarras acústicas. Mas logo que a banda entrou em palco se tornou óbvio o caminho que se preparava para atravessar. Um harmónio deu o sinal de partida, ao que se juntaram os sons de delicadas cordas, como num lento acordar, testemunhado por doces e curtos movimentos, por uma ponderada contemplação. Pouco a pouco, cada construção dos Town & Country nasce para se transformar numa espécie de hipnose natural, um aglomerar de movimentos circulares, minimais e repetitivos que perfazem um todo que reflecte recolhimento, absorção. Aqui e ali, irrompem ondas de ritmo onde parece não haver espaço nem textura para tal. Mas a verdade é que acontecem. O lento murmurar e as vozes projectadas espalham uma sensação de longínquo, do intocável, de uma miragem. Por entre todo o frenesim, ouvem-se os sons circulares de um xilofone, a tríade repetitiva de uns ferrinhos e as tonalidades-gotículas-de-orvalho de instrumentos de sopro. Tudo serve para reforçar a sensação hipnotizante que deriva da música dos Town & Country. A calma e a serenidade, essas, reforçam-se com ainda mais e mais calma e serenidade. Até que os corpos deixem de se sentir apenas a si próprios e possam sentir algo mais.

© André Gomes

André Gomes
andregomes@bodyspace.net
09/03/2005