bodyspace.net


As dez melhores canções de sempre neste preciso momento #4 - John Fell Ryan (Excepter)



John Fell Ryan é o mentor dos Excepter, os excêntricos nova-iorquinos autores de Alternation (5 Rue Christine, 2006), mais um contributo para a sua visão criativa e desafiante da música de dança. O Bodyspace pediu-lhe as 10 melhores canções de sempre neste preciso momento; ele escolheu 10 temas totalmente distintos. Nas suas descrições (algumas delas inteligíveis) encontramos pistas para as referências disformes que habitam a criatura Excepter.

John Fell Ryan: Eis uma lista de 10 discos que andam a circundar a minha consciência nos últimos tempos. Não seguem nenhuma ordem particular. Nuff ranking.

1 “Hathor”, Igor Wakhevitch: Descobri este tipo a partir do mesmo escriba que ajudou a perpetuar a ideia dos Excepter como “um disco de house”. Wakhevitch é um compositor avant-garde francês que editou uma série de discos bizarros e ocultos. Este, Hathor, foi feito depois de ele estudar com Terry Riley: anda entre coros, drones electrónicos, encantamentos e bateria kraut – uma cena verdadeiramente de cientista louco que combina bem com as noites negras que passo sozinho no Castelo Excepter.

2 “Whammy!”, B-52’s: Não sei se os B-52’s são respeitados o suficiente pela sua originalidade. Ninguém soa como eles. As guitarras, a electrónica, as vozes, as canções são totalmente únicas, completamente deles. Mesmo as palmas não seguem clichés. Suponho que sejam penalizados por serem populares e kitsch, mas têm um lado hermético. A referência ao lançamento de feitiços no título faz sentido.

3 “The sweat”, Black Odyssey: Andei à procura deste 12’’ anos e anos e finalmente os meus espiões robôs encontraram-no. House/tecno de Detroit perfeito com um som de tarola virado do avesso e filtrado. As vozes femininas reduzem a cena da pista de dança a uma fórmula de intensidade alternada e sempre em crescendo: “The lights. The heat. The strobe. THE SWEAT”. O último objectivo parece ser o da sublimação.

4 “Thirteen question method”, Chuck Berry: Berry dá uma estratégia socrática passo-a-passo para nos metermos em vestidos de menores nos anos 50. Duas coisas dignas de registo: metade dos passos não são questões e há apenas doze deles. Para além disso, Berry oferece-se para ir buscar o seu engate quando faltam “15 para as 11”. A resposta? Apenas os grandes numerólogos a conhecem verdadeiramente.

5 “The quartet of Doc Shanley”, The Fall: Neste tema com baixo cheio de fuzz, a namorada de então de Mark E. Smith e feiticeira da electrónica Julie Nagle repete: “If you’re like me, you are a complete and utter pranny. You will know what I mean when I say ‘recipe’.” A solução para este enigma deve ser o facto de eu não ser como ela.

6 “Love at first sight”, The Gist: Dan Hougland forçou-me a comprar este e com uma boa razão. É um projecto de estúdio de Stuart Moxham depois dos Young Marble Giants e tem mais ou menos as mesmas pessoas, mas é mais electrónico, dubby e convulsivo. Conta poeticamente os detalhes das sensações que emanam daquela actividade extremamente fofinha que é apaixonarmo-nos por uma rapariga do metro. O ritmo vacilante sobre o qual o título é cantado cria o equivalente aural à imagem de colunas em ruínas a reerguerem-se num Partenon de vergonha. Cena porreira.

7 “Magic”, The Cars: A atracção óbvia para esta canção é a linha principal de sintetizador que surge como uma alucinação de uma Dreammachine. A última vez que a ouvi foi numa jukebox num bar baixo, o que anulou os agudos e deixou apenas o baixo - soava como uma canção country dos anos 70. Outro dado para o seu apelo místico?

8 “If I”, Horace Andy: Há algo na forma como o Andy acrescenta uma sílaba extra ao ”yeah” nesta faixa que transforma o disco, como se o tempo virasse ao contrário na sua úvula.

9 “Not a care in the world”, Beat Happening: Perdida numa compilação em 7’’ que vinha gratuitamente com uma revista para raparigas, esta deve ser a canção mais forte de Heather [a vocalista da banda de Calvin Johnson]. Ela foi sempre o coração adulto da banda. As canções dela são sobre a morte, corações despedaçados, relações reais. Esta canção devia tirar aquela merda da Patsy Cline das jukeboxes. “I’m so drunk I couldn’t care”? Despedida brutal.

10 "Down on the street", The Stooges: Se calhar vou em frente e tatuo a forma da onda sonora desta canção na minha espinha.


Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com
17/10/2006