Três Tristes Tigres / Television
Serralves, Porto
05 Jun 2004

Muito antes das nove e meia, já o público se amontoava na entrada para o local do espectáculo, o Prado do Parque de Serralves. Um pequeno carreiro rodeado de uma cerca e pequenas luzes indicava o caminho até o anfiteatro natural que, no seu melhor, fazia lembrar o recinto de Paredes de Coura. Motivo: “Serralves em Festa”. Nos dias 5 e 6 de Junho, numa sessão de quarenta horas non stop, festeja-se o 15º aniversário da instituição e o 5º do Museu de Arte. E muitos foram os que acorreram e responderam ao chamamento dos responsáveis pelo acontecimento; o suficiente para que as expectativas não saíssem minimamente goradas.

© Ana Marques

Os responsáveis pela abertura das actividades foram os Três Tristes Tigres, que, em cerca de cinquenta minutos, mostraram o porquê da qualidade e coerência de mais de dez anos de carreira. Ana Deus liderou uma formação que caminhou de forma segura por alguns temas da sua carreira num concerto que soube a pouco. Canções como “Combat”, “Dejêneur” e “Rúido Rosa“ apareceram pelo meio e mostraram uma Ana Deus diversificada e multilingue – temas cantados em inglês, francês e português. O público não se mostrou de forma condizente com o calor que se fez registar, pois esteve sentado até ao preciso momento em que os Television, os grandes anfitriões da noite, na estreia em palcos portugueses, entraram em palco.

Com o óbvio peso da idade estampado nas suas caras, Tom Verlaine, Richard Lloyd, Fred Smith e Billy Ficca entraram em palco, mas com os primeiros acordes de guitarra - cujo som permanece intacto - tudo parecia apontar para que a idade não tivesse feito ainda mossas. Já não são os Television dos tempos do CBGB's, já não possuem aquela garra que lhes era reconhecida mas continuam a funcionar de forma quase perfeita – ou pelo menos da forma como lhes seria exigido, pois a chama já não é nem tem de ser a mesma.

Como seria de esperar, a passagem por Marquee Moon - o álbum clássico dos Television e muito mais – seria obrigatória. “Venus”, “See No Evil” e “Prove It” foram momentos altos da noite; os riffs tão melodiosos quanto viciantes e os longos solos de guitarra pintaram a noite de nostalgia. Em “See No Evil”, o tema que abre o incendiário e marcante Marquee Moon, Tom Verlaine afirma: “What I was, I want now, and it's a whole lot more anyhow / I wanna fly, fly a fountain, I wanna jump jump jump, jump a mountain / I am the stand-off (I see no) destructive urges (I see no) / They seem so perfect (I see no) I see (I see no), I see no evil.”. Coro no “I see No incluído.

Mas nem só de Marquee Moon se faria o alinhamento do concerto. “Call Mr. Lee” e “1880 or So” do homónimo que data de 1992, entre outras, foram construindo um concerto um concerto algo morno que fez com que se desejasse uma actuação num Coliseu do Porto, com diferente alinhamento e com melhor sorte. No encore, a muito aguardada “Marquee Moon” – que fez arrancar aplausos e efusivas manifestações no público que se encontrava junto das grades – fechou o concerto. Nos últimos momentos da canção, no climax derradeiro – como se a música toda não fosse toda ela um climax - Tom Verlaine parte uma corda e faz com que a banda se veja obrigada a ter de aguentar a canção enquanto se procedia à mudança de corda e afinação da mesma. Depois de alguns momentos de improvisação, Tom Verlaine e os seus companheiros voltam à carga e, mesmo não escondendo alguma frustração, redimem-se da falha e fecham o concerto da forma que todos queríamos. Por estas alturas, já uma parte significativa do auditório se tinha descolado para uma tenda de música electrónica que funcionava em paralelo com o palco principal. Mas apesar de tudo, e mesmo tendo em conta que só a espaços conseguiram incendiar a plateia, os Television foram as estrelas da noite.

· 05 Jun 2004 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

Parceiros