Jazz Ao Centro 2006 (1ª Parte)
Teatro Gil Vicente / Salão Brazil, Coimbra
01-03 Jun 2006
Apesar da origem recente, o Jazz Ao Centro já se afirmou como um dos mais interessantes festivais locais de jazz em Portugal, a par com o Guimarães Jazz - o Jazz Em Agosto da Gulbenkian é de outro campeonato. Organizado pelo activo Jazz Ao Centro Clube, o festival de Coimbra tem recebido alguns dos mais importantes músicos da actualidade. A primeira parte da edição 2006 (a segunda será por volta de Novembro) contou com três espectáculos no Teatro Académico Gil Vicente, aos quais se seguiu, durante as três noites, o Ken Vandermark / Adam Lane Quartet no bar/restaurante Salão Brazil.

Coube ao IMI Kollektief a tarefa de inaugurar o certame. A música deste quinteto multinacional sedeado em Lisboa está documentada num disco recentemente editado pela Clean Feed e esta foi uma boa ocasião para apresentar o material gravado. O IMI actuou com uma formação ligeiramente alterada, com a inclusão de um convidado de peso: Adam Lane, a substituir o habitual contrabaixo de Rui Hasselberg. E foi Lane quem começou por dar nas vistas, pela excelente integração no grupo, demonstrando toda a sua competência técnica e capacidade de adaptação. Também em destaque esteve a vibrafonista Els Vanderweyer, aparentemente mais solta e desinibida na improvisação, a elaborar também óptimos diálogos com o contrabaixo. Na frente, a dupla de sopros revelou particular equilíbrio. O saxofone de Alípio C Neto não se perde em desenvolvimentos demasiado rebuscados, constrói os seus solos indo directo ao assunto, alcançando rapidamente momentos de desconstrução free. O trompete de Jean-Marc Charmier foi o parceiro certo, com o seu discurso fluído, mais ondulado. Charmier alternou ainda com o flugelhorn e, pontualmente, com o acordeão - não enquanto voz principal (essa tarefa ficará para o trio de Will Holshouser), mas apenas a fazer sublinhados subtis. E a traçar sublinhados esteve também Alípio, em curtas e interessantes intervenções com pequenas flautas. Na retaguarda, Rui Gonçalves manteve a solidez na bateria. Pela interacção entre todos estes elementos resulta uma música jazz plena de cor, entre um certo hardbop até à fronteira com o free. As composições do colectivo variaram entre a complexidade dos temas de Alípio Neto e a beleza simples das músicas escritas por Vanderweyer - uma bela balada e um outro tema que incluiu uma pequena participação vocal da própria.

No segundo dia o Teatro Gil Vicente recebeu uma das propostas mais aguardadas do festival, o confronto The Thing vs. Scorch Trio. O trio Thing, liderado por Mats Gustaffson, tem-se notabilizado pela inclusão de covers rock no seu repertório e pela energia das suas actuações. O Scorch, chefiado pelo excêntrico Raoul Björkenheim, transporta a herança de Hendrix e Sonny Sharrock para um contexto free. Partilhando ideias e a secção rítmica - Paal Nilssen-Love (bateria) e Ingebrit Haker-Flaten (contrabaixo/baixo eléctrico) - a união destes músicos foi natural e resultou numa nova unidade: The Scorch Thing. No palco, a t-shirt envergada por Gustaffson era expressiva: “FREE THE JAZZ”. No saxofone tenor, a premissa foi completamente cumprida com um som fulgurante. Para além do sax, Gustaffson trabalhou ainda nos efeitos electrónicos, introduzindo um formigueiro sonoro impressionante. Com as suas guitarras de formas esquisitas, Björkenheim construiu sons eléctricos na esteira de rock mais liberto, pleno de distorções. Haker-Flaten actuou na harmonização do som do grupo, com baixo eléctrico (com efeitos) e contrabaixo (belo momento com o arco). Neste contexto livre, Paal Nilssen-Love esteve exuberante, utilizando um fabuloso manancial de recursos. Se há um facto a marcar a música feita neste início de século, será o esbatimento de formas, característica particularmente notada entre o free jazz e o rock menos estabelecido. Esta proposta Scorch Thing valeu principalmente pela capacidade de provocar os sentidos ao extremo. Houve por vezes falhas (notórias) de comunicação e algum retraimento por parte da guitarra em colaborar num sentido colectivo. Ficou no ar a ideia de que, numa noite mais inspirada, a casa podia vir abaixo. Ainda assim, valeu pelo alcance longitudinal da proposta.

A fechar o ciclo de concertos no Gil Vicente actuou o Mario Pavone Quintet. O líder contrabaixista trouxe as suas composições intrincadas, interpretadas por um rol de músicos de alto nível técnico. À rapidez de execução de Pavone, a bateria de Gerald Cleaver respondia com impacto e precisão. O piano de Peter Madsen, com o seu estilo percutido, mostrou-se exemplar na sua acentuada vertente rítmica. Nos sopros, Tony Malaby (sax tenor) cumpriu, embora sem corresponder às credenciais que lhe são amplamente reconhecidas. Em destaque especial esteve Steve Bernstein, ao início com o sopro claro do seu trompete, mas foi com o slide-trumpet que conquistou o público em solos fantásticos. Durante o concerto Mario Pavone lembrou ainda o seu antigo colega de trio Thomas Chapin, ao lado de quem fez alguma da mais magnífica música jazz da década de 1990, pela interpretação de um tema da sua autoria. A música do quinteto, apesar de toda a mestria técnica, raramente descolou. O brilho máximo foi alcançado no tema que fechou o concerto, com todos os músicos em inspirada harmonia, mas de resto acabou por não passar de um concerto morno que valeu sobretudo por alguns momentos individuais.

Era a mais esperada proposta do festival e o Ken Vandermark / Adam Lane Quartet fez a sua apresentação mundial em três noites consecutivas de after-hours no acolhedor Salão Brazil. O espaço da baixa coimbrã assistiu ao crescimento deste grupo, nascido por sugestão de Pedro Costa (da editora Clean Feed). À dupla líder (e compositora), juntou-se o duo nórdico Mangus Broo (Atomic) e Paal Nilssen-Love (Atomic, The Thing, Scorch Trio, Crimetime Orchestra, etc). Para este projecto, o imparável Vandermark deixou de lado o clássico saxofone tenor e utilizou três instrumentos de sopro menos usuais. Nas diversas opções instrumentais, Vandermark esteve sempre fabuloso – no clarinete (Giuffre transposto para a contemporaneidade), no clarinete baixo (complexidade e inovação de Eric Dolphy elevadas ao cubo) e no barítono (de Gerry Mulligan até Brötzmann, em estrutura e força). O trompete supersónico de Magnus Broo conseguiu a tarefa dificílima de acompanhar o nível altíssimo do colega de sopros, em sequências de solos repletos de chama. O contrabaixo de Adam Lane mostrou desde logo a sua força formidável a tomar a responsabilidade e a impor ideias, sendo o alicerce vigoroso (mas flexível) do quarteto – e chegou até a empregar efeitos de distorção. Nilssen-Love ocupou desta vez um lugar um pouco mais discreto, cumprindo com a classe habitual e, ainda assim, intervindo com estrondo. De melodias baladosas, passando por temas de aparência hardbopiana, até situações de fúria e fogo, as composições de Lane e Vandermark possuem disposições complexas, mas abrem muito espaço às capacidades individuais - e aqui todos souberam corresponder totalmente. Na primeira noite o grupo ainda procurava alguma afinação, mas já era visível o carácter exponencial da música. À segunda noite o grupo já tinha alcançado um nível muito alto, mas foi prejudicado por alguns problemas técnicos e por excesso de barulho do público. Com um público respeitador, o quarteto atingiu o pico humanamente possível na terceira noite. Revelando um entrosamento perfeito e com todos os músicos numa forma fenomenal, o Vandermark / Lane Quartet incendiou Coimbra com o melhor jazz do mundo.

Depois deste genial concerto, que foi gravado e terá edição prometida para breve, o público presente no Salão Brazil teve ainda oportunidade de assistir a um encontro musical entre Els Vanderweyer e Ingebrit Haker-Flaten. O diálogo improvisado entre vibrafone e contrabaixo, conduzido em regime jam-session, foi uma belíssima surpresa que finalizou com empatia a primeira parte do festival de Coimbra.
· 01 Jun 2006 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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