JP Simões
Clube Mercado, Lisboa
28 Abr 2006
JP Simões num registo intimista. Enquanto o sistema de som do Mercado ainda está a passar hip-hop ou funk, JP Simões senta-se no palco e prepara a sua guitarra. Traz Sérgio Costa, seu companheiro de sempre, tanto nos quase extintos Belle Chase Hotel quanto no adormecido Quinteto Tati, para acompanhá-lo na melódica, na flauta ou no teclado.

Fala-nos na realidade colectiva, da preocupação com o colectivo, ou algo parecido, e depois começa a cantar um tema da sua Ópera do Falhado (que, curiosamente, até certo ponto, falhou literalmente), adaptada da Ópera dos Três Vinténs de Brecht e Weill e da Ópera do Malandro do seu “herói” Chico Buarque. A temática da preocupação com o colectivo mostra que JP Simões continua igual a si próprio: despeja ideias surreais quando está a falar ao microfone, fazendo toda a gente rir mesmo que não faça sentido nenhum ou que a piada não seja assim tanta. Tem piada, mas mesmo que não tivesse as pessoas continuariam a rir-se, é assim que ele é.
De calças de cabedal e uma camisa, JP Simões está sentado em palco com guitarra na mão. À sua direita está Sérgio Costa, sentado ao teclado. O público vai-se sentando no chão, para dar um ar intimista à coisa e JP canta temas da já mencionada Ópera, do disco a solo que está a acabar de gravar, Canções do Jovem Cão, e do filme Pele, de Fernando Vendrell, que está quase a estrear e para o qual escreveu, a par com Sérgio Costa, três canções, uma delas cantada por ele próprio num breve cameo delicioso no início do filme.

Como escritor de canções em português, JP Simões está cada vez melhor, mesmo que as temáticas sejam quase sempre as mesmas. As personagens das suas canções são boémias, nocturnas, hedonistas, sempre à procura do amor, e, tal como em “Domingo Sem Deus” do Quinteto Tati, uma até associa “Deus” e “domingo” outra vez. A música podia bem ser brasileira, mas calhou ser portuguesa. E, ao contrário do que já aconteceu com o Belle Chase Hotel, JP Simões agora canta em português de Portugal e não do Brasil, e o fantasma de Chico Buarque continua a pairar por aqueles lados. Mas JP Simões é JP Simões e não Chico Buarque, e há algo de intrinsecamente português nas suas canções, seja algum desespero ou desilusão (leves, com alguma ironia e humor) ou o já mencionado hedonismo.
Há uma canção para uma criança ingénua que, se tudo correr bem, continuará a ser ingénua, e, durante a sua apresentação, o telemóvel do artista toca, tendo este de se levantar e ir desligá-lo. Há muitas onomatopeias, como “bim-bao-bom-bim”, mencionam-se barcos de açúcar, em toda uma metáfora marítima pergunta-se se o mundo há-de ser salvo assim, há frases como “olha que o amor ainda tem salvação”, “estou em crer que o nosso amor vai ser bom, já é bom, vai ser bom, já é bom”. Óptima canção, portanto, adornada pela flauta transversal de Sérgio Costa. “Lilly e o Americano”, de Pele, que no filme é cantada pela actriz Carla Bolito, e feita para a história de um espectáculo de cabaret dentro do filme, não perde com este registo intimista de um tipo sentado com uma guitarra e gente mais ou menos à sua volta sentada no chão. Porque é exactamente isso que acontece com as canções da sua ópera, são canções cantadas por personagens que fazem sentido dentro de histórias específicas mas não perdem nada dentro deste contexto. “Eu não sei donde sai tanta gente a precisar de um coração”, um assobio e uma melódica a acompanhá-lo. E não perde nada ali.

“Canção da Carne Crua”, da ópera, mostra uma história de uma moça vítima da pedofilia instituída no seio das famílias portuguesas, numa interpretação que só peca pelo som do piano, que, por causa de um qualquer problema, tem um chorus que nada deve ao bom gosto. “Detesto o amor, os seus enganos, (…) são enganos desumanos ou então foi sempre assim”; “Não sou assim, não creio em fim, em mais que um mutilar da velha dor”.
JP pede um ginger ale e canta uma canção de Elza Soares sobre as flores horizontais (prostitutas), que, segundo o próprio, podemos ver todas as noites na televisão se a virarmos de lado. A canção é sobre as prostitutas dos anos 40, mas pode ser sobre as dos anos 70 ou 90, adiciona. De cigarro na mão, sem guitarra, sentado, é complicado não gostar da sua voz, desta feita a cantar em português do Brasil, fazendo sentido não aportuguesar uma canção estrangeira. Vira-se para Sérgio Costa e diz: “Está a correr bem, sócio”. Não esperava muito desta actuação, era só uma pequena apresentação de algumas canções que tinha escrito, sem muita pretensão ou esperança. Segundo ele, podia não estar a correr bem, podia perceber um dia, após anos, que não devia estar a fazer aquilo e que era altura de começar a tirar um curso técnico-profissional. Sérgio Costa apercebe-se do problema do teclado e pede para este ser resolvido. E é, felizmente.
Uma valsa, talvez chamada “Música Impopular”, é óptima e recomenda-se, baseia-se na repetição de “hoje”, como “hoje fujo para longe de casa, embriagado de tudo o que é belo e fugaz, tudo o que a noite faz”. Poesia ébria sobre a dor, portanto. “Essa é que essa”, diz no meio da canção, “já vai no 8º divórcio”. “Hoje, que dia estúpido”, como se o hoje não interessasse para nada. Diz que juntou artigos de sociologia sobre a vida conjugal no século XXI e transformou-os nesta canção. Fez bem.

“Somos a jovem esperança da música portuguesa”, diz, e anuncia que vão tocar um tema muito triste, um samba. Tal como em “Domingo sem Deus”, do Quinteto Tati, há alguém que chama alguém para a diversão, “Hoje ficas por casa”, “a lua ainda te chama”, “só mais um samba”, alguém que não quer ir mas que é chamado lá para dentro, para o hedonismo. A canção pára a meio, mas depois de um comentário auto-depreciativo (“hm...amadores…”), retoma. Depois vem “Trovador Entrevado”, canção para um artista nacional, com uivos e uma constatação: “O trovador é uma espécie em extinção quando se extinguir o amor.” Imitam-se vozes de cães quando é cantado que “ficou o cão a ladrar aos camiões”, acabando a canção com um “grrrrau”. Anuncia-se uma canção do “saudoso” Quinteto Tati, mas Sérgio Costa recusa-se a tocá-la.

O concerto finda com uma “música experimental”, “feita de propósito” para ali, “para o planeta”. É feita de samples de um coro de vozes femininas, enormes, monumentais e percussão com balanço samba, com a guitarra acústica de JP Simões como o único instrumento tocado, uma canção que deve mais a Tom Zé que a Chico Buarque. Passa-se num universo boémio, urbano, ébrio, a percussão vai variando, há uma guitarra eléctrica algures, a personagem está “bêbeda de construção”, “bêbeda até ao fim”, acabando com um arranjo de cordas e o piano de Sérgio Costa.

A julgar pelas canções que não fazem parte nem de Pele nem da Ópera do Falhado, prevê-se um grande disco a solo. JP Simões, o português mais brasileiro de sempre, continua a evoluir na escrita de canções na sua língua, tendo uma personalidade própria e não se colando demasiado ao “herói” Buarque, com um universo próprio e uma voz própria. E é sempre refrescante ver o espírito ecléctico do Mercado, que estaria à partida mais habilitado a receber concertos do universo da música urbana de raiz negra. JP Simões ainda não perdeu as suas qualidades, nem de homem de palco nem de cantor nem de escritor de canções, e é tudo o que lhe podemos pedir.
· 28 Abr 2006 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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