Sigur Rós + Amina
Coliseu dos Recreios, Lisboa
20 Nov 2005

Depois de há dois anos ter colocado um imponente ponto final ao concerto do mesmo Coliseu - ao ter feito desabar o recinto e unido o seu público num orgasmo sensorial colectivo -, “Popplagið” – colosso dos colossos nos sets de Sigur Rós – relativizava a dor do regresso à vida banal com um tímido “takk” projectado no canto do pano de fundo. Pairava a palavra sobre a prestação como um to be continued... sobre um filme inesquecível. Contudo, ninguém suspeitava nessa altura que viesse a ser a gratidão fulgurante de Takk (entretanto tornado conceito e álbum) o mote para o concerto que traria os Sigur Rós de volta aos escombros. Surpreendente é pensar que, para alguém que encara o último Takk com alguma dose de cepticismo, tenha residido precisamente nas novidades a ele extraídas os trunfos de recurso para um desfile que pecou unicamente por ser demasiado previsível. Isto porque quase tudo o resto soou a reincidente aos ouvidos de quem há um par de anos tinha assistido ao concerto que trouxe ( ) até ao Coliseu da capital.

Amina © Luís Bento

O admirador de convicção média saberá certamente que só os Sigur Rós conseguem suspender a respiração a uma turba eufórica – no momento em que "Viðar Vel Tl Loftárasa" interrompe a sua marcha vertiginosa com silêncio sepulcral (quebrado apenas pelo som da SMS mais famosa do ano) – ou que o embalar bucólico de “Olsen Olsen” jamais haverá de acusar pesadas rugas. Houvesse incertezas nesse aspecto e este seria o concerto certo para redimi-las. Posto isto, o admirador comum saberá também discernir que nenhum momento de Takk usufrui de uma elasticidade tão resistente ao tempo e a múltiplas interpretações quanto aquela das faixas que compõem primeiros discos (ainda que, com os apurar de mais um par de anos, “Milano” e “Gong” possam finalmente ascender ao estatuto de clássicos). Talvez por isso (e o concerto tornou isso bem evidente), o melhor mesmo é que Takk seja o primeiro dos últimos discos de Sigur Rós e este concerto o primeiro dos passos graciosos rumo a um honroso término.

Quando comparados aos da última passagem do colectivo por Lisboa, os indicies de êxtase aparentavam estar mais regularizados (o primeiro sinal de que alguém pode ter vindo para permanecer como residente). O próprio anti-front-man Jónsi (inesgotável fonte de emotividade) passeava descomprometidamente à chuva nas imediações da sala do Rossio. Também ele deve cultivar com serenidade a noção de não há mal que sempre dure, tal como não há período áureo que indeterminadamente prevaleça. O próprio Ícaro viu as suas asas derreterem quando ousou aproximar-se do sol. O início do concerto encontra os Sigur Rós ocultados além de uma cortina que os protege dos olhares ultra-violeta de um público ansioso. As sombras dos músicos na cortina podem até ser aquelas que resultam aos contornos dos discos anteriores quando expostos à luminosidade de Takk. “Glosoli” descreve o movimento pendular que faz colidir os dois sóis no início do concerto. Ao single “Hoppípolla” parece faltar um qualquer ingrediente (talvez mais intervenientes em palco) para tatuar o seu momento na memória, mas não deixa de ser revelador de um provável rumo orquestral. Quem sabe se um dia, em vez de trazerem apenas o quarteto de cordas Amina, não aparecem por aí com uma orquestra? “Hoppípolla” seria ainda mais imenso inserido nesse cenário. As siamesas “Milano” e “Gong” (cuja percussão quase parece aproximar os Sigur Rós do drum n’ bass) vivem dias gloriosos no seu entrosamento e continuam ainda (volvidos quase 3 anos na estrada) a recolher dividendos à preservação laboratorial que os moldou até ao ofuscante estado actual. Mediante tão apreciável representação, nem foi pelo prisma Takk que o cristal estalou.

Sigur Rós © Luís Bento

Estalou assim que se acenderam as luzes a um Coliseu que ainda ecoava as duas enormes ovações e se percebeu que o primeiro momento Sigur Rós é irrepetível. Aquele momento, que, como na música dos Arcade Fire, conduz ao tal esconderijo de criança onde não chegam os barcos, naves espaciais ou automóveis. Somente o sentimento, às cavalitas da lembrança, terá acesso a esse lugar recolhido. Nós, miúdos, sabemos. Por isso, é quase consensual a opinião de que o melhor concerto de Sigur Rós é o primeiro – aquele que, num momentâneo alinhamento de factores propícios à nostalgia, permite o fugaz reviver do tal momento. Momento esse que até pode ser o beijo adiado que, estimulado pela invariavelmente avassaladora “Popplagið”, acaba por unir a Praça da Figueira e Rossio (ali mesmo ao lado). Os dois haviam aproveitado esse momento para um contacto íntimo há dois anos e no domingo voltaram a fazer das suas. Contudo (e para mal de quem já o tinha presenciado), o primeiro nunca deixa de o ser. Os outros serão sempre agrupados no ramalhete dos que a esse se seguiram.

Antes da troca de beijos à escala de uma cidade, havia actuado o quarteto Amina (que acompanha os Sigur Rós com uma secção de cordas) em apresentação do seu primeiro EP, Animamina. Os presentes ficaram a saber que as Amina são capazes de muito mais que a sua associação aos Sigur Rós possa fazer suspeitar, que a experimentação comedida pode aproximá-la de uma imperturbabilidade dócil e que um serrote pode facilmente ocupar as funções de um theremin.

· 20 Nov 2005 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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