Diamanda Galás
Casa da Música, Porto
18 Set 2005

Cada vez se sente mais o slogan da Casa da Música – aquele que reza “Tantas músicas, uma casa” – como uma tirada plena de verdade e legitimidade. Depois de tanta polémica e longa espera, a Casa da Música começa a afirmar-se cada vez mais como o espaço que a cidade do Porto necessitava há já muito tempo; um espaço plural, capaz de receber nomes como Matthew Herbert, LCD Soundsystem, Giant Sand, Antony and the Johnsons, American Music Club, Radio 4, entre outros – e nos próximos tempos prevê-se que a lista aumente e de que maneira. Enquanto isso - e um dia depois de mais um “rasgo” na programação da casa portuense, o concerto dos Cult Of Luna -, Diamanda Galás encheu a Casa da Música para um concerto sucessor de um outro concerto em 2001 no Hard Club, em Gaia, onde até foi gravado um tema (“Ain’t No Grave Can Hold My Body Down”) que surge incluído no disco em formato live intitulado La Serpenta Canta. Com alguma surpresa – ou então não – a Casa da Música estava cheia para ouvir a autora de Divine Punishment.

© Casa da Música

O espaço entre o apagar das luzes e a entrada de Diamanda Galás em palco ficou obrigatoriamente marcado na memória do concerto devido a um certo suspense que necessariamente se gera com a entrada em cena da norte-americana, o momento exacto em que se vislumbrou a sua figura. A partir dali tornava-se certo que a celebração da escuridão, da morte e do sofrimento estariam nas ordens da noite. Sentada sozinha ao piano, Diamanda Galás havia de arrancar com uma versão de “My World Is Empty Without You” (um original das Supremes), um dos temas revisitados em La Serpenta Canta, um disco surpreendente onde se recuperam alguns standards de blues, jazz e country de outros tempos. Aí, o seu piano irrompeu imbuído em efeitos estranhos, distorcido, como se o tempo se perdesse naquelas teclas, conforme os relógios que derretiam nas telas de Dali. À luz da realidade muito própria de Diamanda Galás – não só a forma como interpreta os temas, mas também a maneira como os recebe no seu mundo – é óbvio que essas canções surgem trajadas de novas e misteriosas realidades – despertam dotadas de medo, de apreensão. A sua voz de tonalidades negras – sobejamente conhecida por ser capaz de alcançar as quatro oitavas – faz-se sentir pela sala, ora narrando os temas mais frequentes da sua carreira, ora adquirindo poderes de outros seres, uivando, exclamando os horrores para que todos possam ouvir. A sua voz é, em ultima análise, extrema (como quase tudo o que a rodeia), confrontacional, possuidora da capacidade de remexer as entranhas. Nem que para isso seja necessário antever a morte antes da chegada da própria.

© Casa da Música

Quando alguém grita “we love you” da plateia, Diamanda Galás responde com um ohhh satisfeito; quando depois de apresentar a demencial “Baby’s Insane” (um tema de This Sporting Life, um disco gravado lado a lado com John Paul Jones, o mítico baixista dos míticos Led Zeppelin) alguém grita “i’m insane”, Diamanda Galás condescende e replica: “I know that”. Foram raras as vezes que Diamanda Galás abriu a boca por uma razão que não fosse a de cantar e só por aí já quebrou alguns clichés. O contacto artista-público fez-se de outra forma - fez-se necessariamente através da palavra cantada. Em “I Put a Spell on You” (um tema original de Screamin’ Jay Hawkins), a cantora de San Diego transforma-se em feiticeira do mal para depois soltar gargalhadas demoníacas como se de uma bruxa se tratasse. No final, a ovação era tal que só ao terceiro encore é que Diamanda Galás, depois de algumas pessoas já terem abandonado a sala, decidiu por termo à sua actuação. Mas não sem antes aludir de novo à morte em “See That My Grave is Kept Clean” (um original de Blind Lemon Jefferson), não sem antes bater com alguma violência no tampo do piano na sequência da frase “have you ever heard the coffin sound?”, não sem antes mostrar a sua visão realista do fim das coisas tal como as conhecemos. Afinal de contas, quem é que quer paninhos quentes, pancadinhas nas costas e filtros da verdade quando se pode ter a realidade madrasta, dura e cruel à distancia de uma canção?

· 18 Set 2005 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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