Gisela João
Centro Cultural de Belém, Lisboa
25- Jan 2014

Há um ano Gisela João era ainda uma desconhecida. Tinha concerto marcado no Centro Cultural de Belém, mas no pequeno auditório, no âmbito de um ciclo dedicado ao fado. O seu nome começava a surgir, mas limitado ao circuito do fado, ainda longe do grande público. Um ano depois, tendo editado o disco de estreia, Gisela é já um fenómeno de popularidade e apresentou-se no grande auditório do CCB esgotando a grandiosa sala com vários dias de antecedência. Tratava-se de um claro momento de consagração. Algo que já tinha acontecido na Casa da Música, poucos dias antes.

Gisela entrou em palco de vestido preto, curto, e ténis. Tal como o disco, o concerto arrancou com “Madrugada sem sono”. Quando o tema se aproxima do final crescente reparamos que estamos a fazer headbanging involuntário, o que não é muito habitual num espectáculo de fado. Seguindo a ordem do disco, entraram “Vieste do fim do mundo”, mais tranquila, e com “Meu amigo está longe” chegou um dos momentos mais aplaudidos da noite.

© Estelle Valente

A actuação continua com “Antigamente” (retrato do fado antigo), a emotiva “Voltaste” (belíssima, cantada de frente para um espelho, “antes mentiras contigo, do que verdades sem ti”) e “Sei finalmente”. Seguiu-se um tema instrumental, com Gisela a abandonar o temporariamente palco.

A equipa de guitarras, constituída por Ricardo Parreira (guitarra portuguesa), Francisco Gaspar (guitarra baixo) e Nelson Aleixo (“viola”), que até ao momento tinha revelado uma eficácia precisa, embora discreta, teve aí um momento de maior protagonismo na interpretação de uma composição de Carlos Paredes, "Canto de Rua". Este tema/interlúdio, a transpirar portugalidade e melancolia, acabou por contrastar com as fortes emoções de amor cantadas por Gisela.

Gisela João regressou ao palco com um novo vestido, que incluía uma capa. Seguiram-se dois temas originais – na verdade, apenas as letras são originais, as músicas são fados já antigos - “Primavera triste” da autoria de Aldina Duarte e “(A casa da) Mariquinhas”, uma nova versão com letra de Capicua. Para o final ficaram guardadas “Sou tua”, “Malhões e Vira” (o lado minhoto da cantora de Barcelos não ficou esquecido) e “Maldição”.

Na verdade, o fado de Gisela João não tem nada de novo. A instrumentação é do mais clássico que existe, as músicas são todas antigas, apenas se juntam duas letras originais. Gisela não inventa nada, apenas canta. Mas é aí que está toda a diferença, na forma intensa e emotiva com que a fadista interpreta cada verso, que dá uma nova vida a qualquer coisa que já tenha sido cantada mil vezes.

Como por exemplo acontece com o fado "Não venhas tarde", um clássico popularizado de Carlos Ramos. Esse mesmo tema já foi alvo de outras versões e até Marante (sim, dos Diapasão) a cantou. Mas na voz de Gisela esse tristíssimo fado - relato de um marido que vai ter com a amante, sabendo que a legítima mulher está a par de tudo, mas vai mantendo a aparência - ganha uma aura ainda mais dramática.

O alinhamento oficial fechou com “Bailarico saloio” e o primeiro encore, obrigatório, revelou o repertório limitado, com as repetições de “Madrugada” e o seu óptimo final de “Antigamente”: “não é fadista quem quer, mas quem nasceu fadista”. Após muitos aplausos, os músicos regressaram para um segundo encore, e aí sim, houve espaço para dois temas inéditos: “Julguei endoidecer” e “Naquela noite em Janeiro”. Fechou a noite o regresso a “Bailarico saloio”, com toda a energia. Consagração absoluta, sim. E merecidíssima.
· 27 Jan 2014 · 15:47 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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