Festival de Músicas do Mundo de Sines
Sines
28-30 Jul 2005
Os japoneses possuídos e os nórdicos americanos – o terceiro dia

Às 5 da tarde via-se Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen sentados nas escadas da Igreja de Sines, mas não havia maneira de entrarem na Capela da Misericórdia. Lá um pouco tarde, entrarem na capela, numa conversa morna, por culpa tanto deles como do público. Os Samurai 4, do Japão, foram uma bela surpresa, os KTU arrasaram totalmente o Castelo de Sines e os Konono Nº 1 desiludiram muito na Avenida da Praia, mesmo tendo dado para dançar.

Samurai 4

Os Samurai 4 arrancaram, no palco da Av. da Praia, o terceiro e último dia do festival. Música japonesa, com um instrumento chinês e ainda melodias que remetem também para esse outro país oriental. Um baterista (tambor wadaiko) possuído por algo de um outro mundo, um tocador de shamisen, uma espécie de banjo com apenas três cordas tocado com mestria por Sin'Ichi Kinoshita com a ajuda de um utensílio cortante, uma koto, uma espécie de cítara, tocada por uma asiática de óculos de sol que parecia saída de um filme de Wong-Kar Wai e uma rapariga numa flauta de bambu chamada shinobue serviram para aquecer ainda mais o dia, com todo o calor insuportável. Fizeram algo óptimo: evitaram pôr o público a bater palmas, disparando samples de palmas do público. Assim ninguém sai do tempo e todos ficamos a ganhar. Possuído por algo estava o manager da banda, que de lado do palco se divertia com os braços no ar, e que a meio do concerto foi para o centro do mesmo, atirando água para o público e dançando loucamente. De repente, começa a batida: "tum tum pa, tum tum pa". Era "We Will Rock You", dos Queen. As canções anglo-saxónicas ganham sempre algo de especial quando cantadas por vozes nipónicas. Há algo que karaókico ali, algo brilhante. O manager, totalmente excitado, tocava air guitar. Sublime.

Samurai 4 © Câmara Municipal de Sines

Master Musicians of Jajouka+ Bachir Attar

À saída, no caminho para o castelo, um rapaz vendia "space cookies", para pôr toda a gente nas nuvens. Seria, talvez, uma boa preparação para os Master Musicians of Jajouka e a sua hipnose. Os Master Musicians of Jajouka (são mais que as mães) já, umas horas antes, estavam a ensaiar dentro duma tenda no backstage. Vimo-los, ainda um pouco antes, sair do hotel, guiados por um francês, todos muito inocentes, felizes. Oito homens em palco, cada um com seu instrumento, de sopro, de cordas ou de percussão, fazem um trance primitivo e rudimentar que se baseia na repetição ad nauseam de elementos básicos. Linhas melódicas simples e repetitivas, batidas sempre iguais. Existem há 4000 anos e foram muito referenciados pela geração beat, até terem sido gravados por Brian Jones (sim, aquele dos Rolling Stones que foi encontrado morto na piscina). São hipnóticos, sim, mas só para quem está mesmo dentro de tudo. Tocam como se estivessem na sua aldeia natal, como se não estivessem num concerto para milhares de pessoas, como se a civilização ocidental não existisse. Falam num inglês pobre e agradecem muito. Há um deles, mais velho, que se levanta para dançar. Há algo de muito puro e inocente em todo o espectáculo.

KTU

Quando perguntámos a Kimmo Pohjonen se era o Diabo, na sessão de perguntas na Capela, ele disse que não era, mas gostaria muito de ser. Os KTU estavam pouco à vontade durante esta sessão, já que quase ninguém fazia perguntas e quando faziam, eram todas básicas e desinteressantes. Alguns momentos depois, Pat Mastelotto, o baterista dos KTU, chamava-nos. Era para nos dizer que Kimmo era mesmo o Diabo, mas nunca o diria.
É curioso ver como as pessoas de Kimmo e Samuli Kosminen, que se apresentam em palco com vestimentas antigas e parecem possuídos pelo demónio, são na verdade pessoas normais e dóceis, que sorriem e riem e são pouco sérios. Kimmo é também um dos únicos finlandeses que existem a ter um bronzeado.
Pat Mastelotto e Trey Gunn foram membros dos King Crimson, mas dos Crimson anuais. Logo, não foi estranho haver gente, antes de entrarem em palco os KTU, a gritar: "Viva o Rei Crimson! Viva o Rei Crimson!" Quatro homens em palco, oito braços, para dar um 8 Armed Monkey, nome do disco editado este ano. Uma metade é Kimmo e Samuli, a metade Kluster, e outra metade, Pat e Trey, são os TU. Nasceram, dizem eles, do facto de Robert Fripp (lendário guitarrista e líder dos Crimson) ser inglês e se deitar às 6 da tarde. São americanos, logo às 6 da tarde estavam era prontos para fazer música. Deram concertos juntos, juntaram-se para gravar discos, e um dia juntaram forças com os Kluster.
O acordeão de Kimmo Pohjonen é suficiente para incendiar qualquer local. Junte-se a este a sua voz demoníaca e aparece uma força demolidora. O problema é que não é só isto. Samuli Kosminen, percussionista de formação, sampla o que Kimmo toca em tempo real, e toca os samples duma forma brilhante. Mas isto é só Kluster. Kluster com TU dá KTU, com a secção rítmica dos diabos que é Trey Gunn e Pat Mastelotto. O primeiro toca uma guitarra Warr, guitarra de 10 cordas que tem o alcance dum piano, ou seja, toca guitarra e baixo ao mesmo tempo.
Será rock progressivo? Será música do mundo? Sabemos lá o que é. Sabemos que estão 4 homens em palco, com batidas e apoteoses brutais, linhas de baixo, linhas de acordeão, tudo, tudo. Estão todos possuídos, Kimmo vai esbracejando (dentro do possível, com um acordeão nas mãos), vai emitindo sons da sua boca, e Kosminen vai samplando. Acontece o mesmo com os outros dois, já que Mastelotto alterna entre tocar bateria e samplar as linhas de baixo de Trey Gunn.
Não há maneira de descrever um concerto deste quarteto. Nem sequer é possível perceber o que é através da audição de 8 Armed Monkey, que ainda por cima foi gravado ao vivo. Há o som surround sem falhas (pronto, pronto, não vamos contar com o som da guitarra Warr que por vezes, durante solos, se tornava um pouco mau) que Kimmo adora usar em todos os seus projectos, há a brutalidade e a visceralidade que é simultaneamente cerebral e intensamente física. No meio daquilo não sabemos bem onde estamos, e para perceber o que é que se passa é preciso rondar o recinto, o Castelo a rebentar pelas costuras, que deveria ter ruído durante o raio do concerto.
Brutal, brutal, brutal, som que vem de trás, som que vem da frente, som que vem dos lados, de repente aparecem elementos inesperados, de repente tudo muda, de repente tudo fica igual, será que são aproximações ao dub e ao reggae? Sabemos lá, queremos lá saber. É impossível catalogar isto. Estão dois homens em palco a tocar bateria, há riffs de baixo/guitarra impossíveis, há dinâmicas de pára/arranca, há toda uma panóplia de sons e experiências que é totalmente impossível de descrever. Há o melhor concerto de todo o festival, cativante do princípio até ao fim.

KTU © Câmara Municipal de Sines

Kíla

Os Kíla são irlandeses e trazem a música tradicional irlandesa, começando com paisagens sonoras dignas duns Tangerine Dream (sem brincadeiras), e acabando em massas intensas de som, repetitivas, de batidas, melodias e hipnose. Toda a gente dança ao som daquilo, é fácil e serve para dançar. Há, aqui e ali, momentos de extrema beleza, como já adivinhávamos pelo soundcheck, com todos os instrumentos em perfeita sintonia. Muito bons instrumentistas, os Kíla acabaram por desiludir, não havendo grande sumo na sua actuação. No final já nem pareciam uma banda irlandesa, mas sim uma banda espanhola.

Konono Nº 1

A Konono-desilusão que começou o fecho do festival na Avenida da Praia custou um bocado, mas não aconteceu sem alguma diversão. Os Konono Nº 1, do Congo, existem há um porradão de tempo, mas só agora é que subiram para a ribalta dos circuitos da música do mundo e aquilo que chama logo a atenção nesta banda é o sistema de som que usam, totalmente artesanal, com microfones feitos de madeira e de partes de carros, sabemos mais lá de quê. É a junção da tradição africana e da tecnologia decadente. São liderados por Mingiedi, um tocador de likembe, que é algo como um piano de polegar, feito de madeira e metal. Têm três destes, com diferentes afinações, tudo. Têm também percussão e três vozes, duas mulheres e um homem, que também dançam.
Em disco, podemos confirmar em Congotronics, editado este ano, são brutais. Melodias simples, batidas, canto de grito/resposta, uma verdadeira festa. Ao vivo não é assim tão brutal. Apesar de ter sido gravado ao vivo, o disco tem outra pujança qualquer que não transparece em concerto. Também não ajuda o facto de, no disco, o som ser muito mais primitivo e rudimentar, o que dá uma distorção interessante ao likembe. Em concerto todas as falhas vêm ao de cima, ou seja, vemos que os temas não diferem quase nada entre eles, e a banda parece estar a fazer um frete, está ali mas podia estar a lavrar os campos ou coisa-que-o-valha. Falta-lhes genica, falta toda a magia do disco. Ainda assim, dá para dançar. Acabou por ser um princípio do fim amargo para todo o festival.

Mário Dias + Vítor Junqueira (DJ set)

O fecho propriamente dito fez-se com os DJs de serviço Mário Dias e Vítor Junqueira, que foram do bhangra indiano-inglês (com direito a uma versão deliciosa de “Rock the Casbah”, dos Clash, que já tinha sido passada no DJ set de quinta-feira) ao ska (da 1ª e 3ª onda), ao reggae ou ao dub. Uma verdadeira festa de encerramento, com pessoas a irem pela rua fora dançando para abandonar o recinto.


Foram três dias de música vividos intensamente por todos os presentes. Lendas vivas, desilusões, surpresas, houve espaço para tudo nesta 7ª edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines. Houve, especialmente, uma óptima organização da Câmara Municipal de Sines, tendo nós apenas a apontar como falhas a falta de caixotes do lixo e a música que nada tinha a ver com música do mundo antes dos Konono Nº 1 no palco da Avenida da Praia. Quando confrontados com a situação, os homens do som limitaram-se a responder “Quem não gosta, que se vá embora”.

· 28 Jul 2005 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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