Festival Sònar
Barcelona
16-18 Jun 2005

Sònar by Day
Noah 23 · Battles · Hood
Sònar by Nigth
Duplex · DJ Yoda · De La Soul · Cut Chemist · M.I.A.

A batalha que decidiu a guerra e o cessar-fogo entre escolas


Ao terceiro dia e conforme as inscrições perdidas na região montanhosa que circunda Barcelona, os Battles triunfaram perante a incredulidade de uma plateia pouco familiarizada com o quarteto nova-iorquino (de acordo com as palavras do génio por descobrir Tyondai Braxton). O terceiro foi também dia de hip-hop ao alto, a nossa fé está na batida e rimas. As mãos oscilantes de um público multinacional passam a servir, nem que seja por uma só noite, de bandeira ao género que, pelo que o Sònar deu a ver, continua a sobrevoar – excitante e fervoroso – todos os restantes. Uma nova escola saudosista das regras da velha escola e uma velha escola disposta a apadrinhar talentos da nova escola. A rivalidade perde todo o sentido debaixo do tecto do Sónar Park.

Sònar by Day


Noah 23
Decorrida ainda à sombra do palco da Sónar Village, a performance agendada para as quatro da tarde é um dois em um de hip-hop assumidamente suburbano: Noah 23 rima à moda do Canadá e, em parceria com o irmão de armas Baracuda, apresenta temas do projecto conjunto Bourgeois Cyborg. Há incursão drum ’n’ bass, flow imparável, a dose certa de dardos politicamente incorrectos.

Battles
Como se de uma Gettysburg ou Aljubarrota se tratasse, a prestação dos Battles revelou-se decisiva na inversão do rumo qualitativo do Sònar. Foi tão simplesmente o concerto que fez a balança recair determinadamente sobre o “positivo”. Perante elevadas expectativas suscitadas pelos três EPs lançados durante o ano passado, o supercolectivo (membro da metade de constelações aglomerantes que resultam) assume uma disposição em palco - semelhante à dos Tool – que permite ao fabuloso baterista John Stanier servir de pulmão nuclear à periférica membrana criativa que propõe enigmas esfíngicos a cada vez que as guitarras e teclados resultam em versos de uma mesma charada. O clímax de um magistral “Hi-Lo” (ligeiramente mais acelerado que em disco), faz vislumbrar o cume de todo o festival tal como vivido aqui pelo escriba. Os Battles compõem músicas curiosas para gente curiosa. Já é tempo da lupa pós-rock assentar sobre um projecto tão desafiador e interessante como este.

Hood
Mesmo que suceder aos Battles não seja tarefa fácil nem para os Mogwai, os Hood entram com tudo no palco que há pouco servira de terreno à deslumbrante batalha. Procuram, com um fuzz pegajoso, agarrar um público sedento de uns Hood que não os tradicionalmente compenetrados, mas não conseguem arranjar forma de parecerem desenquadrados e insuficientes.

Sònar by Night


Duplex
Edan é o rei descalço de Boston. A sua némesis Insight nasceu nas Caraíbas, mas encontra-se desde há muito sedeado na mesma cidade. Edan lançou já este ano o corrosivo Beauty and the Beat. Insight tinha antes disso apanhado o mundo de calças nas mãos com Blast Radius. Ambos transpuseram para Barcelona a disputa territorial de Boston travada com rimas incendiárias. Ambos protagonizam um buddy movie (tipo Arma Mortífera) exibido ao ritmo alucinante de cinco injúrias verbais por cada cinco segundos. Além disso, atrevem-se a criar estática nos discos que fazem rodar nos pratos. Quando, para terminar a prestação em grande, pedem ao público para formar um círculo e nele demonstrarem os seus movimentos de breakdance - ao mesmo tempo que ambos os MCs giram como ponteiros de um relógio sincrozinado por um freestyle frenético -, fico com a sensação de que este foi o mais inesquecível dos momentos hip-hop que tive o privilégio de testemunhar desde que encontrei Chuck D e Flavor Flav no palco do Vilar de Mouros de há dois anos.

DJ Yoda
Um brilhante revivalista de cultura pop (e itens de culto) ele é. As virtudes de DJ e VJ num só corpo ele reúne. Os diálogos mais emblemáticos de Scarface , Batman de colheita “vintage”, “Billy Jean” e “Into the Groove” num só set ele mistura. Uma versão scratch do clássico bluegrass “Duelling Banjos” ele lá consegue amanhar. De transformar “I Am a Man of Constant Sorrow” num hino hip-hop ele é capaz. O público ao rubro ele leva. Uma tremenda força nele eu pressinto.

De la Soul
Quando – numa altura em que o nome dos De La Soul já figurava no ecrã gigante - Trugoy dá início ao aquecimento das hostes com um medley de A Tribe Called Quest, unem-se num mesmo momento mágico duas das mais lendárias turmas do hip-hop acima de quaisquer suspeitas. Sim, porque não creio até hoje ter encontrado um detractor convicto e possuidor de fundamentos capazes de fazer mossa que seja na reputação de ambas as instituições em causa. Com isto, os De La Soul – numa fase de carreira que ainda os encontra a flutuar no espaço de probabilidades – cumprem sem mácula aquilo que lhes é exigido: limitarem-se a desfilar a tal fragrância da daisy age (intemporal e contagiosamente simpática) que lhes permitiu sobreviver a quase um quinto de século no activo. Por isso, perdoa-se-lhes o enésimo número de vezes que pedem ao público para abanar as mãos pelo ar. Quando até “Oooh.” - aquele single descartável cujo teledisco conduzia os De La Soul até ao reino de Oz – soa bem ao vivo, renasce a vontade revisitar um legado cujo apelo lúdico impediu, em tempos, o hip-hop de ser um género absolutamente odiável. Ah! Para surpresa de todos os presentes, um cameo protagonizado por Kanye West – o desertor universitário que rimou algumas malhas do seu próprio reportório – foi a cereja no topo do bolo e um dos últimos pontos altos do festival.

Cut Chemist
Assistir a um espectáculo de Cut Chemist significa estar perante um artista determinado a alcançar a quimérica mestria desse instrumento algo marginal que é o DJing. O mago - que abrilhanta os discos de Jurrasic 5 e só por duas polegadas não ocupa o pedestal pertencente a DJ Shadow (com quem já confeccionou diversas mixtapes) - traz até ao Sònar (em dose dupla) um espantoso set que percorre da mesma forma descomplexada o jazz obscuro, as jóias da nova escola do hip-hop e as mais recentes tendências brasileiras. Termina a memorável ocasião num mirabolante exercício de scratch, a partir de samples vocais recolhidos ao público. O mesmo que termina convertido à química do corte e costura.

M.I.A.
Acreditem em mim: nada me leva a desenvolver um repúdio primário pela música de M.I.A., tal como não cultivo um ódio particular pela política interna do Sri Lanca. Na verdade, a prestação conduzida por Maya Arulpragasam apraz-me e não encontro forma de resistir àquele movimento de cócoras que já serve de bandeira ao trabalho da artista “tigresa”. Suporto alguma histeria e nem me importo particularmente com o facto de uma mão cheia de músicas serem despachadas com um nível mediano de intensidade preso em inércia. Os dilemas só surgem na altura em que equaciono as probabilidades referentes ao futuro de um astro que parece ter atingido o tecto da galáxia de forma demasiadamente repentina. M.I.A. parece ser a representação perfeita daquilo a que os anglo-saxónicos chamam de one trick pony. Fosse a Queen Latifah descendente do Che Guevara, e é bem possível que a imprensa musical estivesse actualmente a seus pés.

· 16 Jun 2005 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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