Sam Amidon, Ben Frost, Nico Muhly & Valgeir Sigurðsson
Teatro Maria Matos, Lisboa
5 Nov 2009
Para quem tem mais de 30 anos, existem poucas coisas tão deprimentes como reparar no pico de forma vivido por jogadores de futebol com 22 ou 23. Um par de versos do sempre sábio Jay-Z, em “30 something” (momento alto do mal amado regresso Kingdom Come), espicaçava também quem tinha deixado para os 30 aquilo que podia ter feito com 20:I know everything you won’t do / I did all that by the age of 21. E é essa sensação de kingdom come, que marca a chegada de um grande acontecimento, aquela que se sentiu no Teatro Maria Matos, na noite em que a sala recebeu Sam Amidon, Ben Frost, Nico Muhly e Valgeir Sigurðsson, colectivo de músicos excepcionais unidos pelo selo Bedroom Community e por um código de entreajuda que facilita as colaborações entre as partes. Apetecia dizer: São mesmo eles.

© Vera Marmelo

E eles são representantes daquilo que pode bem ser uma pop intercontinental com ambição experimental própria e vontade de ser cinema. Além disso, rapazes impecáveis nos elogios ao queijo português e nas apresentações bem-humoradas de cada tema (depois da música, o acelerado Nico Muhly deve considerar uma carreira como apresentador de televisão). Com idades abaixo dos 30, exceptuando Valgeir Sigurðsson, cada um deles comunga igualmente do espírito de Jim O’ Rourke, senhor entre os mais prodigiosos músicos experimentais. Durante as duas horas e pouco dedicadas ao estudo do comportamento das baleias (o pretexto era a Whale Watching Tour), a idade (e a frescura associada) foi um factor tão importante como a dinâmica que transborda quando Sam Amidon, Ben Frost, Nico Muhly e Valgeir Sigurðsson unem esforços.

© Vera Marmelo

Sem que houvesse tempo para um só ego apoderar-se do espaço, verificou-se uma rotatividade de maestros à medida que os diferentes compositores conduziram as suas músicas (que passam a ser de todos, naquela circunstância). Logo de início, “Theory of Machines”, a vertiginosa peça de Ben Frost, viu os seus primeiros minutos revisitados com enorme força (essa que voltou nos outros momentos conduzidos pelo australiano). Entretanto, Nico Muhly segurou as duas raquetes de ping-pong, num duelo de piano contra si próprio, e, depois (ou antes, não sei bem), Valgeir Sigurðsson descobriu em Sam Amidon a voz certa para a delicada “Baby Architect”. O último haveria de afundar um pouco o barco ao esticar a corda da sua folk (sugere, por vezes, o que podia ser um avant-Sufjan Stevens), em canções que muito devem aos arranjos de Nico Muhly e nem tanto à originalidade do seu principal compositor.

© Vera Marmelo

Foi assim o fim do mundo num filme de acção musicalizado com a ajuda de um trombone, dois violinos e um contra-baixo todo-poderoso (respectivamente tocados por quatro músicos auxiliares). Numa noite que abriu uma janela sobre como os quatro principais interagem em tempo real, tornou-se evidente que o colectivo faz música para o herói que não larga a mão, quando o filme o obriga a decidir-se entre salvar o mundo ou quem realmente importa. Nos discos, e muito mais na sua encarnação em palco, a Bedroom Community prova que o apocalipse e os filmes de Roland Emmerich não são assim tão assustadores se não houver ninguém querido para proteger.
· 07 Nov 2009 · 20:11 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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