Festival OFFF Oeiras’09
Oeiras
7-9 Mai 2009
Além de ser o mais carismático artista presente, o homem-estrilho Joshua Davis é um misto de guru do falhanço e estrela rock: encaixa dois fucks em cada cinco palavras, exibe uma nódoa negra arrecadada na noite anterior e arranca aplausos de contestação, quando mete o dedo na ferida ao referir as deficiências acústicas do gigantesco Hangar K7. Nada que tivesse impedido Si Scott de partir a loiça toda numa apresentação que envolveu putas e cisnes desenhados à mão, burros parecidos com zebras e, entre outros, uma campanha visual encomendada por Madonna (exibida antecipadamente e sem a autorização da própria). O homem é a personificação da atitude fuck all britânica. Maior que ambos só mesmo o avant-autarca Isaltino Morais (ele mesmo, o verdadeiro indie), que não deixou de comparecer para apreciar a organização e os sons calmíssimos da sala Chillax (seja lá onde isso for…). MA


Pomassl © Margarida Pinto


Pomassl

Depois da semi-desilusão austríaca de dia 7 a.k.a Fennesz (é o que faz ter muitas expectativas) eis uma óptima surpresa e sobretudo confirmação austríaca – Pomassl.
Com pontualidade germânica, às 17h em ponto, começa este mestre de sons e de sonzinhos. Em pano de fundo, uma enorme projecção de linhas paralelas desenhadas a lápis que não param nem um segundo, sempre a seguir um possível encontro até ao infinito, num preto-e-branco que reagia à escuridão da música. Por momentos, revive-se Kluster e momentos proto-industriais que se sucedem por entre túneis electro-acústicos. Parmegiani, Luc Ferrari, Bayle soberbamente revisitados. E neste bailado de psique e neurónios, lugar para 15 minutos finais de “Algava Alaganik”, tema de dark ambiental na onda de Zoviet France e sobretudo a espaços, muito new age cogumélico de Steve Roach e Robert Rich. Tema brilhante com daquelas notas de sintetizador frias, que voam e pairam, pairam até ao cosm...offf!... Sim, porque aos 45 minutos Pomassl pára por um pouquinho, deixando uma batida em banho-maria e a organização aproveita, liga as luzes e pronto. Pomassl ainda fica ali e tal mais uns minutos mas nada feito, acabou, venha outro. NL

SND

A isto acrescente-se um enorme bocejo, e fica explicado o que os SND andaram a fazer por Oeiras. É realmente doloroso sobreviver a trinta minutos preenchidos pelos ritmos redundantes de Atavism. Tudo isto sem tirar nem pôr. Dois tipos encontram-se praticamente estáticos diante de dois Mac (o orgulho da Apple que está por toda a parte no festival). Ainda aquecem a temperatura bem perto do fim, com uma dureza de velha escola, mas não deixam de ser a pior prestação que a sala Loopita conheceu. Era mais divertido se tivessem capacetes de robot na cabeça. MA


Alva Noto © Margarida Pinto


Alva Noto

Cabeça de série da Raster-Noton, o alemão trouxe pouco depois das 19h, a correspondência esperada por muitas expectativas. Com o Loopita à pinha, todos poderam assistir a um soberbo show de cymatics, com uma coerência visual de luz, cor e música que poucos se podem orgulhar de alcançar. O começo algo retro-kraftwerkiano foi o mote para a posterior sucessão de nuvens de ruído dominadas a seu belo prazer, dando a alturas para matar saudades de coisas boas da Chain Reaction como Porter Ricks que igualmente dominava estas camadas de alfinetes que chovem no cérebro. Neste caminho a grande ritmo, seguindo as linhas de luzes à velocidade da luz que tomavam conta da projecção, Alva Noto introduz-nos com muita classe dentro de uma Xerox, que conta números em francês. Tudo temas de Xerrox vol. 2 que se industrializam até um acordar de coma que se prolonga após a sala inteira começar a bater palmas. Alva Noto sai mas sorridente e agradecido logo volta para um encore. A audiência é dele e então “toma lá mais uma electro-estáticas geniais” que souberam a regresso ao futuro. Brilhante. NL


Byetone © Margarida Pinto


Byetone

Tal como Bretschneider, Byetone é um dos produtores mais empenhados em atrair a atitude de chulo triunfante até ao cerne cerebral da Raster-Noton (ficando, uma vez mais, comprovado que o alastramento do hip-hop ainda não parou). Em conformidade, Deathofatypographer, a afirmação de Byetone, foi um dos discos que, no ano passado, mais fez por estabelecer o contacto entre a electrónica inteligente da Europa e o “sangue-novo” de produtores como N.O. Joe ou o duo The Fliptones (que fazem arder os clubs nos Estados Unidos). A partir daí, não há como falhar, quando a contagem começa no grande ecrã (um beat por segundo) e entram em cena “malhas” como “Black is Black” ou “Plastic Star” (rendidas nas suas versões mais extensas e ostensivas). Obrigado à ingrata tarefa de suceder a Alva Noto (que arrasou), Byetone provou estar à altura da ocasião e de um lugar de destaque entre os talentos a vigiar no catálogo da Raster-Noton. MA

Signal

Olha que três. Frank Bretschneider, Carsten Nicolai a.k.a Alva Noto e Olaf Bender a.k.a Byetone, juntos como Signal. O apogeu da classe, o “crème de la crème” da Raster-Noton a divertirem-se connosco a entrar no jogo. O frenético Byetone no meio, sempre a oscilar o corpo entre dois andróides de um planeta de absurdos onde não há surdos. Porque seria impossível não ouvir a esquizofrenia repetitiva deste trio germânico que elevou para nota máxima a sequência de 3 dias de Loopita. Aliás, nave Loopita, que enfim levantou voo a sério (antes tinha havido momentos) com esta tripulação de reputação merecida. No fim, numa sala com muitos poufs e sonolências, havia bastante gente a dançar. Missão cumprida, auf wiedersehen un viel, viel, viel danke. NL
· 11 Mai 2009 · 20:06 ·

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