Mão Morta / Smix Smox Smux
Teatro Sá da Bandeira, Porto
06 Mar 2009
O regresso dos Mão Morta ao registo rock'n'roll é sempre de saudar. É certo que a banda é hoje um curioso caso de polivalência – ora dedicados a obras, digamos, mix media, como Maldoror, ora a celebrar o bom velho e perigoso rock -, mas continua a ser neste segundo formato que dão melhores resultados. De regresso ao Porto, cidade onde não tocavam desde Outubro de 2004, a banda de Braga ofereceu uma revisitação de alguns dos momentos clássicos da sua carreira de 25 anos. Na primeira parte estiveram os também bracarenses Smix Smox Smux, que se destacaram mais pelo humor do vocalista do que pelas qualidades musicais.

Mão Morta © Rita Pinheiro Braga

O concerto dos Mão Morta arrancou com “Ventos Animais”, balada maldita de Corações Felpudos (1990) que dá nome à digressão em curso. Talvez pela estranheza da conjuntura actual, que poderia ser resumida no título Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável, foi esse álbum de 1998 que os Mão Morta mais privilegiaram no alinhamento. E muito justamente já que é um dos melhores discos do grupo. Desse registo, “É um jogo” pôs Adolfo a rodopiar enquanto as três guitarras se entrelaçavam (os Mão Morta são tão bons a incendiar como a embalar), enquanto uma interpretação fulgurante de “Em directo (para a teelvisão)” animou as hostes.

Mão Morta © Rita Pinheiro Braga

De Primavera de Destroços, de 2001, repescaram canções mais meditativas e melancólicas, como “Arrastando o seu cadáver” (brilhante a forma como Adolfo encarna a personagem enquanto canta/declama “Ninguém dizia nada/O silêncio/Acompanhava o olhar vazio/A dor”), “Penso que penso” e “Tu disseste”, com direito a participação do público no refrão. “Gnoma” foi o único tema de Nus, o disco de originais mais recente do grupo, e um dos raros momentos fracos do concerto (“Morgue” ou “Vertigem” seriam opções muito mais interessantes para representar esse disco).

Mão Morta © Rita Pinheiro Braga

A noite era de festa e, sem álbum de originais para apresentar, os Mão Morta foram aos discos mais antigos, ainda hoje os que mais interesse geram. Destaque para “Lisboa (Por Entre as Sombras e o Lixo)”, “Barcelona (Encontrei-a na Plaza Real)” e “Amesterdão (Have big fun)” (com as expressões faciais de Adolfo a roçarem o absurdo) lembraram o genial disco das cidades “Mutantes S.21”. Dezassete anos volvidos, estas canções permanecem com o mesmo poder de sugestão de realidades estranhas.

Mão Morta © Rita Pinheiro Braga

A sublinhar o culto Mão Morta, já o Sá da Bandeira tentava expulsar o público que pedia um segundo encore quando a banda regressou ao palco para “Oub'lá”, dedicando-a ao Porto, cidade onde deram o primeiro concerto. Em suma, um concerto que saciou a fome dos Mão Morta versão rock'n'roll e alimentou o desejo de um novo álbum.
· 07 Mar 2009 · 18:35 ·
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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