Beach House / Jana Hunter
Passos Manuel, Porto
17 Nov 2008
A promessa da noite era de canções. Não se esperava o mesmo de Jana Hunter do que dos Beach House mas no hall de entrada do Passos Manuel, em noite fria, havia no ar a expectativa de aquecimento assim que todos entrassem numa das melhores salas para se ver concertos na cidade do Porto. Os motivos eram mais do que justificados: os Beach House mostraram este ano com Devotion – como se isso não tivesse ficado já bem explicito com o anterior Beach House – que são detentores de algumas das melhores canções da actualidade. Victoria Legrand e Alex Scally são mestres no domínio da arte que é a dream pop.

Beach House © Alexandra Silva

Em concerto, ambos aplicaram os conhecimentos e a lei e assinaram uma actuação mergulhada nas profundezas do sonho – ainda que bem acordada. O cenário é bastante intimista e recatado: “Gila”, por exemplo, não é só uma das canções do ano, é um estilo de vida. E apresentada no Passos Manuel pareceu uma vida inteira. Tanta coisa cabe lá quanto o ar que se respira nas canções dos Beach House: muita. Os Beach House trouxeram um baterista mas a força toda está nos teclados cálidos, nas guitarras fugidias, naquela voz de Victoria que pouco deve à Terra e nos ritmos disparados de uma forma tal que dá a impressão que as canções do duo cabem todas numa caixa de música minúscula.

Beach House © Alexandra Silva

A voz de Victoria é ouro sobre azul, cereja em cima do bolo e tudo o mais que em cima de algo resulte em perfeita magia. Nem os problemas técnicos resultantes da utilização de um computador – Alex Scally chamou-lhe o Armagedão – estragaram a noite. Apesar da fragilidade das canções dos Beach House, há algo na imperfeição que lhes fica a matar. E se é claramente um dos melhores discos do ano, o concerto do Passos Manuel será certamente um dos melhores do ano nas possíveis listas dos ouvintes presentes. Passando o lugar comum, esta foi uma noite em que sonhar acordado foi permitido em toda a sua extensão.

Jana Hunter © Alexandra Silva

Em territórios bastante distintos, um pouco menos luminosos, Jana Hunter deu um senhor concerto na primeira parte da noite. Com banda de companhia, a autora de There's No Home apresentou perto de uma dúzia de canções que mostraram sempre ter mais conteúdo do que estilo, embora nem sempre se tenham afastado da beleza de forma tão informada e democrática. Não são canções fáceis de absorver mas bastante recompensadores assim que lhes conseguimos extrair o sumo. Com duas guitarras em acção ou com uma – a de Jana – a ser “filtrada” e dobrada com pedais, Hunter esteve sempre em boa forma, pelo que se torna bastante desejável o seu regresso em nome próprio.
· 18 Nov 2008 · 22:37 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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