JP Simões
Tertúlia Castelense, Maia
31 Out 2007
JP Simões é o nosso homem dos mil ofícios. Aos 37 anos, encarnou diversas posturas, em consonância com os projectos que foram surgindo e que todos conhecem de cor. Dos Pop Dell' Arte ao Quinteto Tati, passando pelos Belle Chase Hotel, JP Simões foi chegando a um cada vez mais alargado número de rendidos. À medida que se vão acendendo holofotes, JP Simões vai-se mostrando cada vez mais prolífico nos seus projectos, nem todos 100% expectáveis. Neste Outono, vê publicado o livro "O Vírus da Vida", que reúne contos da sua autoria. Desta incursão pela literatura não se deve, no entanto, concluir que o músico oriundo de Coimbra, esteja apostado em abandonar as lides musicais; pelo contrário, visto ter chegado às lojas, no início deste ano, o seu disco a solo intitulado 1970. É à boleia deste lançamento que JP Simões se apresenta no lotado Tertúlia Castelense.

Não há certezas de que o público que encheu o espaço maiato o tenha feito especialmente para escutar essas novas canções. Quando se trata de JP Simões, a sua simples presença, independentemente do mote, é para muitos garantia de umas horas bem passadas. Na verdade, JP não é só artífice das canções, é também um comunicador nato, exímio no "monólogo retórico", que é como quem diz sabedor da reacção que provoca nos seus interlocutores e que se traduz invariavelmente em galhofa. No Tertúlia encontra o espaço de eleição para o seu show auto-miserabilista regado a ironia. A sala que o acolheu, e que terá talvez paralelo num Cabaret Maxime, em Lisboa, serve bem o intuito de proporcionar à audiência (maioritariamente sentada) um ambiente de grande proximidade com o intérprete. Entretenimento garantido.

Há um leque alargado de opções de alinhamento e JP Simões tem bem por onde se virar. Uma das direcções recorrentes é "A Ópera do Falhado", a comédia musical da sua autoria que, esta noite, teve também tempo de antena. À medida que vai abrindo caminho por entre temas dos seus variados projectos, vai lançando entre eles os seus já habituais dizeres como manobras de diversão. Se compilássemos os comentários feitos ao longo de anos de espectáculos teríamos um recheado livro de citações de JP Simões. Voltando à música, importa notar que o músico se apresentou desta feita sem o côro que às vezes o acompanha e sem o comparsa Sérgio Costa. Esta situação de se ver um pouco "sem rede" transmite-lhe um certo nervosismo que só amplia a sua dimensão cómica. O público adora-o.

A respeito das suas canções tudo já foi comentado. Quanta bossa nova! O fascínio que a música de Chico Buarque lhe sugere não provoca só inspiração latente, chega a consubstanciar-se em usurpação, de tão flagrante que é. Valha-lhe o embrulho da prosódia de JP Simões e seus versos acutilantes. E valha-lhe, em abono da verdade, a humildade de o reconhecer. A respeito, o músico afirma que o que tem feito nos últimos anos é "pegar em textos de Buarque e convertê-los em JPS's". Alguns dos mais recentes e bem sucedidos JPS's são "1970 (Retrato)" e "Só Mais um Samba" que mereceram apresentações e comentários do autor à altura. A primeira serviu de ensejo a uma data de considerações sobre os anos 80 e os comportamentos de então. A segunda, que foi single de apresentação, é dedicada à mãe. Não há táctica de captação de simpatia que lhe escape.

Se se fizer um balanço do tempo despendido nas interpretações e na conversa, é possível classificar este espectáculo como uma espécie de entrevista, conduzida pelos gracejos do público, com umas canções pelo meio. Não há nesta constatação um sentido depreciativo ou de desdém. Logo ao início da actuação JP Simões dá-nos a conhecer a sua intenção: "dizer algumas parvoíces para compensar a melancolia das canções". A qualidade das mesmas não exige, no entanto, essa escapada. Mas o público gosta do acessório, mesmo que ele se prolongue pela madrugada dentro, terminando ao cabo de mais de duas horas de espectáculo.
· 31 Out 2007 · 07:00 ·
Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net

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