Rodrigo Leão
Centro Cultural Vila Flor, Guimarães
27 Out 2007
Abraçar desafios díspares é algo cada vez mais comum em Rodrigo Leão. O ano que agora está prestes a terminar deu conta de que o músico vai apostando em conciliar a sua bagagem histórica (os Sétima Legião comemoram este ano 25 anos de existência) com o encetar de novos projectos. Compor para uma banda sonora não representa à partida novidade para Rodrigo Leão que, inclusive com os Madredeus, já tem curriculum nessa matéria. Porém, encarregar-se da autoria de uma banda sonora na sua totalidade, é feito inédito. A ocasião surgiu a partir da realização de um documentário, da autoria de António Barreto, sobre a sociedade portuguesa nas últimas décadas. "Portugal - Um Retrato Social" é o título desse trabalho ao qual urge atribuir musicalidade. A incumbência é proposta e aceite por Rodrigo Leão e o resultado foi possível de avaliar através da RTP que transmitiu recentemente os episódios desse documentário realizado por Joana Pontes. A todos quantos falharam esse visionamento ou o pretendem reavivar, Leão presenteia com a sua apresentação ao vivo em digressão pelo país. Guimarães estreia a iniciativa.

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Pouco passava das 22h quando o público presente no auditório (esgotadíssimo) do Centro Cultural Vila Flor avistou as primeiras imagens do nosso "retrato social". Por essa altura, a plateia vai dando conta de que a designação "Os Portugueses" não corresponde unicamente à performance musical, mas também à projecção simultânea de imagens do documentário que é objecto da banda sonora. O plano surtiu o efeito desejado: revelou a simbiose perfeita que se estabeleceu entre as composições e a sequência de imagens remontadas especialmente para o espectáculo. Ao embalo dos instrumentos do ensemble que acompanha o músico, o público vai percorrendo a vida da sociedade portuguesa com imagens do país real. Evocam-se memórias que vão desde o trabalho nas indústrias de tradição, como o vestuário e os enlatados, às férias dos portugueses ou ícons da indústria automóvel como o carocha e o Fiat 127, muito populares entre nós. Aos avanços e às arrecuas, a viagem pelo tempo é auspiciosa, a sua envolvente musical, um deleite. Há um mérito adicional a imputar a Rodrigo Leão que diz respeito à sua opção de criar uma banda sonora para um documentário ilustrativo da portugalidade, sem recorrer a instrumentos tradicionais portugueses. O mérito reside em transpor para a música a melancolia e nostalgia que decorrem das imagens, sem que o público sinta falta desses instrumentos. Assim aconteceu.

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Do que o público também não sentiu falta foi de ouvir temas fortes da carreira a solo de Leão. Tal aconteceu fruto da divisória a que o concerto obedeceu, entre um primeiro tempo dedicado aos temas criados para “Portugal – Um Retrato Social”, e uma segunda parte para revisitar o que o público já conhece e tem esperança de ouvir. E nesse lote de temas já conhecidos, pontificam os que integram o incontornável “Cinema”, álbum que colocou Leão nos ouvidos de muita gente. Na lista dos discos mais belos da última década, feitos em Portugal, este ocupará facilmente um lugar cimeiro. Para além dos sempre muito aplaudidos temas desse disco, houve tempo ainda para algumas novidades. Uma delas foi a inclusão no alinhamento da faixa “Cidade Tejo” que Rodrigo Leão compôs para o disco de estreia da editora Lisboa Records, uma compilação na qual vários músicos prestam homenagem à cidade de Lisboa. Mas houve também dois inéditos: “Vida Tão Estranha” e “A Mãe”. Até à primeira saída de palco, há uma espécie de fio condutor que estabelece uma ligação entre os temas. É que, tanto na voz de Ana Vieira como na de Celina da Piedade, as interpretações que se ouvem são sempre na língua portuguesa. Só em encore, se parte para outras línguas. Propositado ou não, o que se conclui é que a vontade de evocar uma identidade nacional se sobrepõe à tentação de captar somente reconhecimento pela obra mais afamada do músico.

Estrear em Guimarães um espectáculo designado “Os Portugueses” não é algo feito ao acaso. E Rodrigo Leão esclarece-o ao público, aludindo a esse sentido especial atribuido à cidade minhota que tanta importância tem para Portugal e que constitui, por isso, o palco ideal para este espectáculo. Também importa observar que a escolha de Rodrigo Leão para compositor deste projecto, mesmo sem termos presente a sua competência musical para conceber toda uma banda sonora, se reveste de uma lógica de conhecimento do autor das realidades às quais pretende atribuir musicalidade. Durante os últimos 25 anos, Leão percorreu o país com os Madredeus e os Sétima Legião e recebeu de forma mais ou menos consciente esses sinais de um tempo em mudança. Por isso mesmo, ali sentado a comandar a sua “tropa de elite”, o músico presta-se a um trabalho deveras convincente, tão convincente que, esta noite, o epíteto de “conquistador” não lhe assentaria nada mal.
· 27 Out 2007 · 08:00 ·
Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net

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