Seu Jorge / JP Simões
Coliseu de Lisboa, Lisboa
12 Nov 2007
O facto de tocarem na mesma noite Seu Jorge e JP Simões, diante de um Coliseu de Lisboa repleto de gente, alarga o enfoque sobre as semelhanças e diferenças mantidas pelos dois em relação ao retrato social que fazem dos seus respectivos países através da música. Extensas considerações políticas é coisa que não se apropria a uma noite dominada pelo samba (esse que voltou a estar aí), mas é difícil não perspectivar a actuação de ambos os músicos a partir desse ângulo, até porque os próprios surgem quase sempre associados a um discurso mais ou menos declarado na sua análise de um progresso que tarda em chegar na pátria que os viu nascer.

Por cá, JP Simões, ainda em modo 1970, o seu recomendável último disco, decidiu-se de vez a fundir entidades nem sempre compatíveis: o risonho perfume que lança o samba por onde passa e um muito lusófono pesar que faz do “amanhã” uma desgraça, antes mesmo dessa ter acontecido. Em palco, acompanhado por numerosa banda, o carismático compositor revisita com nostalgia (às vezes amarga) o algo ingénuo sentimento do início da década de 70 (que o viu nascer), ao jeito de terapia evasiva para os pouco promissores tempos actuais dos quais parece alegremente alienado.

A verdade é que resulta melhor do que se preveria o curto pacto entre o público e o agridoce JP Simões, que desfilou a sua naturalidade (e voz ocasionalmente vacilante) por “Inquietação”, recuperada ao cancioneiro de José Mário Branco, cedendo o direito de introdução a uma harmónica, “O Vestido Vermelho”, relembrando que o futebol é ópio comum no hábito de grande parte dos presentes e ainda por outros sambas, entre os quais um dedicado à sua própria mãe. Tudo isto, mesmo assim, resulta melhor na intimidade que tão bem captou a sessão gravada para o programa de rádio Má Fama, mas vale a pena oferecer tempo de antena a quem se auto-retrate tão assumidamente em “O Trovador Entrevado”.

Por sua vez, em relação à mensagem que tinha reservada, Seu Jorge tem a vida muito mais facilitada quando, assim que sobe ao palco acompanhado pelos mesmos 18 músicos que gravaram consigo o mais recente América Brasil, se percebe que era geral a rendição e culto em torno do multifacetado artista que foi internacionalizando a sua faceta musical ao sabor do forte sopro de popularidade que soltaram os fenomenais pulmões de cinema Cidade de Deus e The Life Aquatic (onde o próprio actua no papel de Pelé dos Santos, o marujo que interpreta as absolutamente sublimes versões acústicas de David Bowie). A generosidade (ou incongruência, se formos mais c(l)ínicos) de Seu Jorge passa pela capacidade de ser anfitrião de uma festa que engloba uma plateia (alvo da sua crítica?) de descendentes dos descobridores que ocuparam o Brasil há mais de 500 anos – o músico tem, por exemplo, a coragem de, em “Trabalhador” (politizada faixa de América Brasil), denunciar a precariedade laboral do imigrante brasileiro num território (lisboeta) onde isso é ferida social. Além disso, refere-se ao período de escravatura e a Vasco de Gama com ironia e humor, mas, a bem, lá vai tornando o samba e outros ritmos brasileiros na esponja sobre o passado e, consequentemente, na fundação optimista para o seu Brasil retomar a rota da Ordem e Progresso.

Mas tudo isso é muito complexo e pantanoso, e, inevitavelmente, a noite pertencia à celebração e euforia, e essas duas haveriam de manter-se omnipresentes durante a maior parte das quase três horas de concerto repleto de energia e da inimitável “ginga” que é a mais preciosa exportação do Rio de Janeiro. Comparativamente à passagem pela Aula Magna há cerca de dois anos, Seu Jorge encontra-se agora mais confortável com a condição de entertainer e estrela pop: enverga um microfone em vez do tradicional violão (lá iremos), espairece descontraidamente a sua aparência muito semelhante à de Terence Trent d’ Arby, rende a experiência dramática ao povoar as suas músicas com personagens várias, dança efusivamente entre os membros da sua banda a quem, à vez, vai cedendo a oportunidade de “solar”. Entende-se que mereça brilhar cada um dos executantes em palco, principalmente por ser festiva a ocasião que marcava o final da digressão por cá, mas todas as manifestações de virtuosismo somadas acrescentam meia hora de excesso a um espectáculo que passaria bem sem elas. Fosse assim, e mais tempo sobraria para Seu Jorge demonstrar os seus convincentes dotes de MC ragga, que descobrem a “Mania de Peitão” tempo para reproduzir parte considerável de “Baseado em Fatos Reais” do também carioca Marcelo D2, ou, opcionalmente, para ser mais extensa a parada de samba que finalizaria em “desbunda” a noite. Igualmente dispensável é o aparato cénico de uma “Chatterton”, surgida numa sofrível versão acelerada, que traz à superfície alguma maquilhagem “brega” que enche o olho, mas não o ouvido.

Reforçando a ideia de que menos pode ser mais, o que enche de magia o ouvido é tudo aquilo que Seu Jorge enaltece sozinho em palco, abençoadamente limitado à sua voz e violão: rendições superiormente genuínas e fascinantes de “Life on Mars” e “Rebel, Rebel” (dois originais do Duque Bowie), a passagem por “Problema Social”, apontando a fatalidade que condena a criança pobre no Brasil, e um outro tema onde revisita o companheirismo de favela que se sente à saga Cidade de Deus. Com isso, Seu Jorge prova que, além de ser um muito competente músico, é sobretudo exímio na arte de contar histórias e angariar empatia à sua volta. História para contar a futuras gerações acabou ser aquela que se sucedeu quando, já em encore destravado, o Coliseu de Lisboa se transformou num sambódromo e foi muita a saúde que decidiu ir dançar vários sambinhas para o palco que ameaçava acumular mais presentes que a plateia (como já acontecera aquando da passagem dos Kings of Convenience pela Aula Magna). Cheirinho de Natal passou a rimar com Carnaval. Contas feitas: Seu Jorge, expondo facetas mais e menos conseguidas, soma e segue – já percorreu, entre outras salas em território nacional, a Aula Magna, um festival de Verão e o Coliseu de Lisboa. Se a lógica não atraiçoar tão clássicas contas, não é difícil prever que os próximos capítulos deste caso de sucesso venham a decorrer algures bem juntinho ao rio Tejo.
· 12 Nov 2007 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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