Festival Sònar
Barcelona
14-16 Jun 07

A quatro dias de ser decidida a Liga Espanhola, Barcelona é uma cidade suspensa em expectativas, remetida a uma parcial inércia por imposição de um calendário futebolístico que tardou em resolver-se. O arqui-rival Real Madrid e o menos favorecido Sevilha ainda se podem sagrar Campeões na mesma hora decisiva marcada para um domingo que pode explodir e tornar a capital da Catalunha numa cidade em estado de sítio (onde os semáforos são arrancados ao betão e os carros virados ao contrário). Num plano mais pacífico, mas igualmente desequilibrador de emoções dos aficionados, o festival Sònar apresenta um cartaz matematicamente triunfador (com a inclusão dos Beastie Boys e de vários semi-deuses do techno), mas minado por algumas incógnitas que constituem o risco que pode ou não balancear as coisas no sentido desejável. Lá esteve o omnipresente símbolo do Smile a acrescentar um solarengo e redondo sentimento de optimismo (e revivalismo) ao certame. Em antecipação à bola (com os jogos marcados para as 8 da noite), a apreciação global do Sònar ocorreria às 8 da manhã do mesmo domingo – hora em que é determinante a quantidade de cansaço saudável acumulado para se saber se valeu ou não a pena. Apesar de afectar a avaliação algum bairrismo catalão altamente contagioso, a verdade é que o décimo-quarto Sònar superou as duas edições anteriores pela quantidade de experiências únicas oferecidas em três dias absolutamente sôfregos de novidade e oferta musical.


1.º DIA

Sonar by Day
Kazumasa Hashimoto · FM3 plays the Buddha Machine · Piana · White · Burning Star Core · FM3 / Blixa Bargeld

Roteiro asiático agridoce e a desequilibrada esquizofrenia dos FM3

Sonar by Day

KAZUMASA HASHIMOTO
Coube a Kazumasa Hashimoto a delicada tarefa de iniciar o showcase que a label japonesa Noble tinha reservada para o palco da divisão diurna do Sònar - um Dôme altamente propício a que os presentes se descontraiam sobre um relvado artificial e alternem o seu favorito ritual de relaxamento com a escuta de música adequada. Apesar de evidenciar o embaraço típico de japonês em apuros na articulação da língua inglesa, Kazumasa Hashimoto desenvencilha-se de modo esclarecedor na prática da sua pop para observar o desfilar de nuvens ou um grupo de animais na sua fauna natural. Neste caso, assiste-lhe um baterista que cultiva determinada sintonia adocicada com Hashimoto, à medida que este assenta as mãos sobre o piano com a graça de quem brinca aos clássicos enquanto não se encontra pronto o almoço de domingo. Entretanto, já estava pronto e firme nos lábios o primeiro sorriso do Sònar.

Kazumasa Hashimoto © Advance Music, S.L.

FM3 PLAYS THE BUDDHA MACHINE
À semelhança do que acontecera na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, há algum tempo atrás, os criadores da Buddha Machine – Christian Virant e Zhang Jian – acederam a demonstrar em Barcelona o rol de possibilidades da pequena caixa que já dispensa qualquer tipo de introduções. Quem previa à tal apresentação uma espécie de workshop prático onde a Machine e os seus loops eram desconstruídos, desiludiu-se com uma rapidez indesejável em Lisboa, tal como no Escenario Hall do recinto que recebe o Sònar. Isto porque a dupla sedeada em Pequim limita a sua “performance” a uma variante do xadrez, aqui adaptado às necessidades de seis aparelhos que vão emitindo loops diferentes e posicionados numa mesma mesa pelas quatro mãos envolvidas no jogo. Entende-se pelo comportamento dos jogadores que a finalidade é encontrar o drone perfeito com o empilhar das caixinhas e a colocação das mesmas na vertical ou horizontal. O pior é constatar que tão frágil isolamento de um som harmonioso é impossível de ser partilhado com um público cujo ruído abafa qualquer percepção mínima do que por ali se passa. Além de que 15 minutos do tal buddha boxing não revelam qualquer acrescento a tudo o que o fenómeno já proporcionou. O fiasco do momento foi recompensado pelo aspecto de gag humorístico que assume a visão de todos os rendidos à máquina enquanto a encostavam ao ouvido como se, com isso, procurassem ouvir mais nitidamente o relato do duelo em palco.

PIANA
Piana aproveita a recta final do showcase da Noble para personificar, na companhia de uma violinista, a inversão daquela noção de que o karaoke no Japão serve como terapia aos chefes-de-família frustrados que nesse tão típico entretenimento procuram extravasar a instabilidade do lar ou a insatisfação das suas esposas. A actuação da princesa pop Piana procede-se em formatos semelhantes aos do karaoke: com o apoio de toda a electrónica pré-programada acompanhado pelo aproveitamento exacto da candura que produz a entrega de Naoko Sasaki (que deposita toda a confiança possível nos la la la la la’s pueris do seu mais recente Eternal Castle). O fabrico imaginativo de paisagens idílicas vê-se interrompido quando Piana partilha com o público a esperança de que aqueles quarenta e cinco minutos os tenham deixado mais felizes. A Noble continua, pois, a ser o mais sólido pretexto nipónico para rasgar sorrisos parvos de orelha a orelha.

Piana © Advance Music, S.L.

WHITE
Não será a omissão do Stripes a impedir a associação entre os irmãos White de Elephant e a dupla chinesa que aterra no Sònar em representação da Beijing Waves, label assinalada a vermelho (zen) desde que se sucedeu o advento Buddha Machine. Ela divide entre os efeitos e a percussão atípica, executada numa bilha de metal, os braços tatuados com um xadrez ska e a figura humana que simboliza os Specials. Ele confere libertinagem ruidosa aos sons que vai arrancando a uma guitarra que vai conhecendo objectos vários entre o braço e as suas cordas. Juntos semeiam uma tempestade de padrões rudes (às vezes pop comatosa) que um dia colheu o nome de no-wave – essa que aqui conhece viável actualização num sentido experimental estranho ao ocidental pouco ou nada familiarizado com o que se vai passando no underground chinês. Não admira que os Sonic Youth muito recentemente tenham visitado, em digressão, o país estigmatizado pelo maoísmo. Thurstoon Moore, como se sabe, pela-se por descobertas como esta.

BURNING STAR CORE
Enquanto parte do léxico Burning Star Core, os “soldados estúpidos” podem até identificar mais do que uma obrigatória compilação de sete polegadas lançados de um modo espaçado e secretista. Os tais soldados estúpidos podem até ser os membros de uma armada de pedais e caixas de efeitos que C. Spencer Yeh encontra diante dele. Enfim, parafernália que mais não é do que carne para canhão nas mãos deus ex-machina de um irado alguém cuja insatisfação e impaciência se transforma, aos poucos, em ruído da mais intensa estirpe. Ruído lancinante e desencontrado quando extraído ao violino – instrumento de eleição – por dois aros movidos em sentido mutuamente contrário. Ruído acumulado em camadas e sequenciado pela lógica do drone quando em forma pura. Ruído pavoroso quando o General Spencer Yeh decide render o corpo ao conflito com o abuso das suas próprias capacidades guturais dispersas entre dois microfones cientes do estéreo ao seu dispor. Como se não bastassem Operator Dead... Post Abandoned e Blood Lightning para que 2007 fosse também o ano de Burning Star Core, o prodígio de Cincinnati triunfa numa das mais determinantes batalhas que conheceu a guerra Sònar.

FM3 / BLIXA BARGELD
Para recuperar alguma da dignidade lesada pela manifesta insuficiência do apontamento proporcionado no momento acima descrito, os FM3 encontravam-se na obrigação de render o dobro na ocasião de carácter especial que os colocava ao lado de Blixa Bargeld, o venerável membro dos Einstürzende Neubauten que já havia demonstrado a admiração pela dupla de Pequim no exercício atribuído à compilação Buddha Jukebox. Mas, desta vez, o recorrente objecto ficava de fora da actuação. O único elemento sobrante e de utilidade primária para o tête a tête talvez fosse mesmo o drone e a voracidade da sua ciência que tudo aglutina à medida que insufla o corpo em desenvolvimento. E, como um balão de ar quente que enche, o drone conheceu génese na guitarra repetida em transe por Christian Virant e na acção mais polivalente de Zhang Jian, sendo que ambos pareciam talvez demasiado seguros de que se encontravam na iminência de cunhar um happening que nunca se chegou a consumar. Só se aproximou dessa patente quando Blixa Bargeld instalou o pesar gótico da sua voz e alastrou o nódulo daí resultante por todo o drone a partir daí contaminado (e sujeito a tortura com a manipulação analógica do senhor). Se fosse menor a consciência dispensável de que a actuação poderia vir a constituir nota de rodapé na história da música, a peculiar aliança sino-germânica podia ter atingido um pico transcendental que foi apenas vislumbrado.


· 14 Jun 2007 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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