Festival Sònar
Barcelona
14-16 Jun 07

3.º DIA
Sonar by Day
Wolf Eyes · Mira Calix · KTL · Khan of Finland
Sonar by Night
Devo · Rahzel & DJ Js-one · Mogwai

O lobo mau e o (invertido) vasinho vermelho

Sonar by Day

WOLF EYES
Em escala para a passagem pelo Out Fest, que os trouxe até ao Barreiro no dia 17, os Wolf Eyes chegam ao Sònar na condição de semi-deuses do tratamento exaustivo do ruído e das suas capacidades em adaptar-se à violentação caótica que lhe é imposta por uma das mais prolíficas instituições norte-americanas integradas no catálogo da Sub Pop (e além). Apesar de não existirem dois concertos iguais no que respeita aos Wolf Eyes, a estrutura mantém-se igual em grande parte dos mesmos e assim se verificou em Barcelona: a primeira parte ficou reservada a um mindfuck capaz de provocar orifícios cerebrais com a sua liturgia pagã de frequências com bico de prego e tudo o mais que suportasse a roldana sempre prestes a desconjuntar-se. A segunda metade do concerto foi, por sua vez, preenchida pelos “sucessos” à estranha maneira doentia dos Wolf Eyes que, nos exercícios de duração mais delineada, chegaram a riffar com a ambição legítima de ensurdecer todos os presentes e, noutra altura, a depender do sopro de Adamastor que John Olson introduziu no seu saxofone em mais um daqueles momentos em que são fustigadas todas as coordenadas estabelecidas em discos de estúdio e se forma um imagem inédita que mais pânico provoca por ser tão perigosamente imediata.

Wolf Eyes © Advance Music, S.L.

MIRA CALIX
Pouco haverá a dizer acerca da quase banal passagem de Mira Calixa pelo Sònar, além de que o peso do selo Warp não sustenta por si só quarenta e cinco minutos de aborrecimento divididos entre um laptop que debita paisagens digitais e os ecrãs que exibem visuais que distraem mais do que complementam. Não convenceu.

KTL
A transformação que operam os KTL no SònarComplex terá sido a que mais próxima ficou de ser tomada como um anti-concerto em vez daquilo que se espera ver num festival. O terrorismo associado às mentes que formam o projecto, que só por esta altura conhece o segundo disco, antecipava de alguma modo o carácter absurdamente extremo do que se veio a suceder: Peter Rehberg (o mago da electrónica abrasiva conhecido por Pita) e Stephen O’ Malley (dos Sunn O))) ) ensaiam em dois laptops e numa guitarra, respectivamente, big bangs sonoros capazes de provocar entorpecimento – tal é o volume que faz tremer o ar do espaço (entretanto completamente coberto de fumo artificial) e tilintar involuntariamente os dentes que se encontrem próximos. É verdade que a experiência marca, mas poucos serão aqueles que no seu perfeito juízo permanecem numa sala onde o risco de perder a audição é demasiado. Quinze minutos chegaram para duvidar se Thom Yorke em “Airbag” não estaria equivocado e se o mais prudente não seria mesmo pedir tampões para lhe salvar a vida no tal interstellar burst. Memorável, mas desaconselhável a ser vivida em quaisquer edifícios com mais de dez anos.

KHAN OF FINLAND
Khan crê ser o mais esforçado profissional do show-bussiness europeu actual. A ouvidos moucos, são elevadas as possibilidades de muitas vezes a sua pinta de entertainer mutante ser confundível com a de um qualquer aspirante a Beck (como era Jamie Lidell há uns anos). Porém, Khan não conhece descanso porque tem como missão a obtenção das medidas exactas que tornem explosivo (e resistente ao tempo) o seu cocktail de humor, crooning debochado e provocações à dança que funcionem com a prontidão de um estalar de dedos. Neste regresso ao palco que já o recebera em 2001, Can Oral adopta a nacionalidade finlandesa e a companhia de um pianista e de alguém que serve como beat box humana. Tão pouco funcional formação vai obtendo a rendição gradual da porção mais fraca da carne aos prazeres do lounge noctívago de “The Wolf” ou da europeização dos B-52’s que se sente a “Strip Down”. Khan não chegou a vacilar, mas só obteve o calor necessário numa altura tardia em que era obrigatória a migração para o recinto nocturno do Sònar onde iam actuar os Devo.

Sonar by Night

DEVO
A actuação dos lendários auto-didactas Devo foi convenientemente antecedida por uma justificada compilação dos telediscos da banda de Akron, Ohio, que já os produzia numa altura em que nem sequer existia MTV. Com o mesmo vanguardismo inconsciente de quem se antecipou a quase toda a música que haveria de os preceder, a compreensiva amostra da memória visual dos Devo exibe um conjunto de rapazes tão imersos no seu próprio universo nerd (repleto de ficção científica barata) que o mais improvável seria tentarem o encaixe numa qualquer tendência actual. Os Devo inventaram a sua e o concerto do Sònar, inserido numa digressão que trouxe a banda à Europa pela primeira vez em 17 anos, premeia a inventividade de quem abraçou os sintetizadores como utensílio da pop, provavelmente porque não eram suficientes as linhas de guitarra adquiridas a anúncios de televisão. Saúde-se o glorioso descomplexo revelado pelos Devo que em palco ainda envergam os mesmos chapéus em forma de vaso (catalizadores de energias) e têm o discernimento de não perturbar o desfile de clássicos com faixas de um novo álbum que normalmente é mero pretexto (e alvo de desinteresse de praticamente todos os nostálgicos) para mais uma digressão. Apesar da avançada idade, não se verifica qualquer abrandamento para recuperação de fôlego a um espectáculo onde Mark Mothersbaugh varia entre marchar, tarefas vocais de front-man e os dois teclados que arrancam reacções imediatas aos rendidos. Houve remédio robótico para toda a necessidade: “Going Under”, a voyeurística “Peek-a-boo” (I can see you), “Whip it”(antecedido pelo comentário irónico:São capazes de não conhecer esta...), “Mongoloid”, “(Can’t get no) Satisfaction” (a versão dos Stones cuja aprovação pessoal de Mick Jagger levou os Devo a improvisarem uma actuação na sua suite privada). Não sobraram sequer razões para concordar com a afirmação feita numa entrevista cedida pelos Devo em que estes admitiam ser a banda que continua a tocar no Titanic enquanto este se afunda. Se assim for realmente, que belo naufrágio foi este.

Devo © Advance Music, S.L.

RAHZEL & DJ JS-ONE
Mais do que um mero MC capaz de algumas habilidades impressionantes, Rahzel é uma força da natureza dos efeitos vocais cuja esquizofrenia muitas vezes torna imperceptível perceber onde acaba a sua identidade e começa a história do hip-hop que celebra com as suas reproduções únicas. O concerto de Rahzel, ao lado do meramente auxiliar DJ Js-one, é reincidente no Sònar (onde já havia sido apresentado o ano passado) e acusou demasiado o dejá-vu nos seus primeiros vinte minutos perdidos entre ensaios de aquecimento, a emulação da pavloviana linha de baixo (normalmente executada numa guitarra) de “Seven Nation Army” e em mais uma rendição do único sucesso de maior relevo conhecido ao trabalho a solo de Rahzel, “All I Know”. Até aí, tudo muito desgastado e nem sombra de novidade para preencher a cova de um dente. O rumo das coisas muda quando Rahzel virtualiza, em modo quase autónomo, um memorial edificado em nome do melhor hip-hop dos últimos vinte e cinco anos. A partir daí é vê-lo a reproduzir, em simultâneo, as batidas, samples e linhas de baixo dos sucessos de Kanye West, Busta Rhymes e Wu-Tang Clan (solicitando ao público que colocasse bem alto as mãos em forma de “W” porque, enquanto assim fosse, o hip-hop não morreria). Não morrerá certamente enquanto uma enciclopédia do género, como é o caso de Rahzel, continuar a caminhar entre os meros mortais.

MOGWAI
Apesar de pouco manterem em comum com as presenças mais típicas do Sònar (os DJs de techno e house com ambição), os Mogwai são merecedores de um lugar de destaque na noite de sábado por cortesia de uma atenta organização que entende a perspicácia da banda de Glasgow na incorporação de elementos mais electrónicos na sua estética pós-rock centrada em guitarras - a mesma que lá vai sobrevivendo entre pontos altos e baixos (o último Mr. Beast situa-se num intermédio desses). Quando são três os guitarristas a remar na mesma direcção épica, sabe-se que os Mogwai produzem sequências sónicas capazes de abalar a percepção até aos mais indiferentes. Assim se sucedeu em Barcelona. O ponto alto da noite, contudo, pertenceu a uma “Hunted by a Freak” que deduz um guitarrista à formação, mas lança-se num ocaso espacial sem fim através daquela voz adulterada em vocoder – essa que, por si só, vale a improvável integração no Sònar.

Mogwai © Advance Music, S.L.

· 14 Jun 2007 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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