Bernardo Sassetti, Mário Laginha e Pedro Burmester
Europarque, Santa Maria da Feira
07 Out 2006
As luzes vão descendo, primeiro gradualmente, e depois, finalmente, de forma repentina, quase brusca. E nesse momento, aqueles três pianos mostram uma solidão sublinhada e de que forma pela escuridão que se abateu na sala. Pouco depois entram em palco Mário Laginha, Pedro Burmester e Bernardo Sassetti, três dos melhores pianistas nacionais, e ocupam os três lugares vagos. “3 Pianos” é um projecto do trio que teve uma primeira reunião inédita em Novembro do ano passado e que agora se repetiu duas vezes no Centro Cultural de Belém em Lisboa e uma vez no Europarque em Santa Maria da Feira. Lotação esgotada, apesar dos bilhetes a 25 e 30 euros.

Sabe-se que Mário Laginha e Bernardo Sassetti formam habitualmente duo ao vivo e que Pedro Burmester trabalhou também com Mário Laginha em várias ocasiões, pelo que este último funciona assim como unificador do trio. Mas este trio não funciona sempre como um trio; pode funcionar também como um duo ou até como um solo. É nesta espécie de ‘anarquia’ controlada que as coisas funcionam, quer em termos de número de pianos no activo durante as peças, quer na selecção do programa a apresentar. Ao longo de quase duas horas, os três pianistas interpretaram temas de autores como Béla Bartók, Mozart (no ano em que se festeja os 250 anos do seu nascimento), Samuel Barber, Bach e alguns temas originais assinados por Bernardo Sassetti e Mário Laginha.

No capítulo da apresentação de temas próprios, há que destacar o assombroso tema da peça “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett, da autoria de Bernardo Sassetti, onde o pianista mostra um estilo muito próprio e emotivo. A versão para “Trás outro amigo também” surpreendeu pela interpretação, pela roupagem que os pianistas deram ao tema. Mário Laginha apareceu a solo (e bem) com “A menina e o piano” e com “Fado”, seguro como sempre, com sensível extra. Como os pianistas foram afirmando ao longo do concerto (no rodar e trocar de pianos que aconteceu durante o concerto), nota-se o prazer que Mário Laginha, Pedro Burmester e Bernardo Sassetti sentem quando tocam juntos, o que leva a pensar que esta reunião não acaba aqui.

Para o final estava ainda guardada a interpretação algo óbvia de “Bolero” de Maurice Ravel (que compensou na interpretação propriamente dita) e três encores, para contentamento do público. O último desses encores consistiu de uma peça a seis mãos (sim, no mesmo piano) que resultou emotivo e algo curiosa, tendo em conta a ginástica necessária aos três pianistas para executar o tema. São então 30 dedos, 6 mãos e 3 pianos. Um concerto algo matemático que decorreu matematicamente (e emocionalmente) bem. A experiência ainda tem de valer alguma coisa.
· 07 Out 2006 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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