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Frango & Dansse Damaje fuentezfuentezfuentez

2006
/ Lovers&Lollypops


Há pelo menos uma característica positiva que se pode objectivamente colar à cena nacional mais underground e ligada ao rock livre e desconstruído: o que eles querem é lançar mais música, qualquer que seja o formato (e aí a predominância vai para o CD-R e para o recurso às netlabels), e tocar no maior número de sítios possível (nem que seja a troco de três cervejas). fuentezfuentezfuentez é um bom exemplo disso mesmo: um spilt CD-R que agrega uma faixa dos Dansse Damaje (anteriormente conhecidos por dAnCE DAMage) e outra dos Frango, duas bandas que surgiram em Portugal nos últimos anos e que se dedicam a levar o rock para territórios mais exploratórios.

Os dois temas, instrumentais, têm características em comum: ambos exploram a improvisação, a alternância entre momentos de acalmia e de explosão (característica herdada do pós-rock), a exploração do ruído, da distorção e dos efeitos em volta de elementos tradicionais do rock como a guitarra e a bateria. Para além disso, a bateria é também usada com instrumento estruturador e unificador das diferentes partes das composições, servindo ainda para sublinhar as alterações de ambiências, mormente através de mudanças de andamento. Quanto às diferenças, sublinhe-se a maior concisão da faixa dos Dansse Damaje, “Golias”, (quase oito minutos em subida constante de intensidade) e a maior dispersão dos Frango, num exercício mais puro de rock livre e de improvisação.

“Golias” é um tema que quase apela à dança, com uma forte preocupação na exploração do ritmo marcado no pedal e na utilização dos pratos. No atingir do clímax, sublinhado por um grito, os acordes sugestivos de ambiências orientais tornam-se subalternos perante a força de um drone. Quanto a “Start off fields”, mostra uns Frango mais coerentes dentro da aparente incoerência da sua música. Se já tinham mostrado em Sitting San (edição test tube, 2005) serem uma das promissoras bandas na exploração de sonoridades menos ortodoxas do panorama nacional, a faixa agora apresentada mostra um pouco mais da sua inteligência: numa aparente colagem em que cabem sons que parecem retirados de uma gaita-de-foles, e com um drone subliminar como pano de fundo, vão lançando sujidade e camadas de ruído, sem parecerem pretensiosos ou desconstrutivistas à força. Entra depois a percussão e tudo termina em acalmia.

Apesar de serem bandas que partilham um mesmo espaço na música de vanguarda portuguesa, os dois temas apresentados têm bastantes diferenças formais, mas acabam por funcionar bem em conjunto. Seja como for, há motivos para acreditar que o rock (ou algo parecido com isso) mais experimental que se faz “por cá” está de boa saúde e recomenda-se, assim tenha espaço para vingar.


João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net
31/10/2006