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Houdini Blues F de Falso

2006
Cobra


Comecemos pela manchete: ‚ÄúBailare‚ÄĚ tem tudo para ser o single nacional do ano. E j√° agora, em p√≥s-t√≠tulo, acrescente-se que F de Falso tamb√©m ter√° entrada garantida em muitas listas de melhores do ano. Acima de tudo, o √°lbum mostra uma not√°vel diversidade de influ√™ncias e a vontade de criar m√ļsicas fora de modelos pr√©-estabelecidos e de influ√™ncias (que os membros da banda ter√£o, necessariamente) limitadoras. √ą dif√≠cil prender os Houdini Blues a uma etiqueta, e ao longo do disco h√° uma grande diversidade de ambientes. Pode-se mesmo dizer que estamos perante um trabalho heterog√©neo, mas surpreendentemente coeso: a banda n√£o mostra preocupa√ß√Ķes em seguir qualquer projecto est√©tico, parecendo que as m√ļsicas foram sendo compostas com grande descontrac√ß√£o. Mas tamb√©m se sente uma procura da can√ß√£o pop n√£o-estupidificante e n√£o-redutora, e percebe-se que os horizontes do grupo v√£o para al√©m dos limites da m√ļsica popular de raiz anglo-sax√≥nica.

Como em muitos outros casos recentes (Cl√£, Wray Gunn, Moonspell, Blind Zero, Kubik ou The Ultimate Architects), os Houdini Blues procuraram Adolfo Lux√ļria Canibal (um dos fundadores da editora Cobra, com mais dois elementos dos M√£o Morta) para vocalista convidado. Se a maior tenta√ß√£o √© p√ī-lo a narrar (ele, que at√© se diz diseur e n√£o cantor), h√° que dizer que a banda deu a volta √† situa√ß√£o, misturando a sua voz com a do vocalista Hugo Frota, dando-lhe versos em espanhol e enquadrando-o num flow que parece muito devedor do hip-hop. Caso resolvido: ‚ÄúBailare‚ÄĚ √© um grande tema em qualquer parte do mundo e nunca um sample t√£o estranho (pensa-se que √© de um coro da Andaluzia, retirado de uma compila√ß√£o da revista Tierra, entretanto perdida pela banda) pareceu encaixar t√£o bem na m√ļsica pop portuguesa. Mas n√£o fica por aqui o apelo de F de Falso: em ‚ÄúTudo‚ÄĚ, por detr√°s de um labirinto constru√≠do a guitarra e sintetizador, a voz de Mit√≥ Mendes (d‚ÄôA Naifa) surge de uma forma algo fantasmag√≥rica, lembrando o excelente uso que os Cl√£ fizeram de um sample de Am√°lia Rodrigues em ‚ÄúCompet√™ncia para Amar‚ÄĚ; ‚Äú√ćcaro‚ÄĚ √© uma esp√©cie de punk-ska abastardado com teclados propositadamente rasca, que lhe d√£o um apelo dan√ß√°vel; ‚ÄúPutu√°ria‚ÄĚ √© um tema alegre e veraneante, uma esp√©cie de par√≥dia aos Beach Boys; ‚ÄúDeus (O Teu)‚ÄĚ aproxima-se ritmicamente da pop brit√Ęnica actual (Franz Ferdinand, claro), de uma maneira menos polida; e ‚ÄúDuas Balas‚ÄĚ (seria um bom segundo single) tem uma n√≠tida inspira√ß√£o spaghetti western. E ainda h√° recria√ß√£o interessante q.b. de ‚ÄúCharles Manson‚ÄĚ, gravada para um tributo aos M√£o Morta que h√°-de sair no pr√≥ximo Outuno pela m√£o da Raging Planet.

A n√≠vel l√≠rico, h√° um enfoque na ‚Äúglorifica√ß√£o e celebra√ß√£o‚ÄĚ da falsidade, como aponta o t√≠tulo F de Falso, inspirado em F for Fake, pseudo-document√°rio de Orson Welles, que mostra o poder da manipula√ß√£o atrav√©s da imagem e da voz. De resto, a carreira do multifacetado norte-americano arrancou com a encena√ß√£o radiof√≥nica do romance de HG Wells, A Guerra dos Mundos, um exemplo fort√≠ssimo de arte transformada em manipula√ß√£o (ou ser√° o contr√°rio?). H√° no disco hist√≥rias de personagens ir√≥nicas e c√≠nicas, suficientemente po√©ticas e razoavelmente directas para serem apreciadas num contexto pop, chegando-se a uma forma interessante de escrever em portugu√™s (depois dos dois √°lbuns anteriores terem seguido um registo poliglota), menos requintada do que uns Cl√£, mais complexa do que uns Ornatos Violeta. A vontade de mostrar orgulho na postura de falsidade est√° at√© patente na forma como Hugo Frota teatraliza por vezes excessivamente as vocaliza√ß√Ķes, cujo tema unificador podia ser resumido num verso de ‚ÄúGaleria dos Espelhos‚ÄĚ: ‚ÄúErgamos / Nobre causa / De viver a ludibriar‚ÄĚ. Podia-se tamb√©m entender o t√≠tulo F de Falso como o an√ļncio de uma colec√ß√£o de pastiches mas, no final da audi√ß√£o do disco, ele s√≥ pode ser descodificado (outra vez) como ironia. Os Houdini Blues t√™m uma pan√≥plia de influ√™ncias e uma vontade de experimentar diferentes texturas sonoras demasiado grande para se lhes colar qualquer r√≥tulo.


Jo√£o Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net
06/07/2006